De olho no fiscal, BC priorizou economia a controle da inflação, avaliam economistas


A ata da reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), divulgada nesta terça-feira (23), revelou detalhes do raciocínio por trás do corte de 0,25 ponto percentual na Selic, e analistas de grandes bancos e gestoras já têm uma conclusão: o Banco Central fez uma escolha deliberada de proteger a atividade econômica no curto prazo, ao custo de deixar a inflação convergir para a meta com mais atraso.

O Goldman Sachs avalia que, no dilema de curto prazo entre o controle de preços e o nível de atividade, o Copom “está se inclinando mais na direção de proteger a atividade do que em uma estratégia mais assertiva focada na inflação”. Para o Itaú BBA, a ata passa um sinal claro de que “qualquer espaço que ainda exista para a flexibilização está se esgotando rapidamente”.

O que a ata revelou

O documento detalha que o Comitê avaliou diferentes trajetórias possíveis para a Selic antes de decidir pelo corte. Levar a inflação à meta no horizonte original exigiria movimentos abruptos na direção e na magnitude dos juros, o que poderia incluir altas seguidas de quedas, na avaliação do JPMorgan. O Bank of America (BofA) reforça que o Comitê “rejeitou explicitamente cenários que exigiriam movimentos abruptos e de grande magnitude para trazer a inflação à meta”, por entender que isso provocaria volatilidade excessiva tanto nos preços dos ativos quanto na economia real.

A saída escolhida foi uma trajetória mais próxima do que o mercado já esperava, combinando pausas e retomadas no ciclo de cortes para entregar a inflação na meta apenas no primeiro trimestre de 2028. Leonardo Costa, economista do ASA, avalia que o BC defendeu abertamente uma “estratégia gradual, com eventuais pausas e retomadas no ciclo, que reduz oscilações na atividade”.

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Um ponto que chamou atenção de todas as casas foi a caracterização explícita de “assimetria altista” no balanço de riscos, ausente no comunicado pós-reunião, ou seja, um risco inflacionário crescente. A Warren Investimentos destaca que o trecho é “uma referência subjetiva à Política Fiscal”. Para o BofA, esses elementos “reforçam uma função de reação mais conservadora” do BC.

Essa mudança de postura tem um custo, na visão de Beto Saadia, economista-chefe da Nomos: “Essa escolha mina confiança na instituição quanto ao compromisso firme com a meta, principalmente porque a pressão inflacionária vem tanto da oferta quanto da demanda, puxada por excesso de estímulo do governo.”

Caio Megale, economista-chefe da XP, vê um Copom “cauteloso e flexível”, com portas abertas para cortes adicionais se a inflação permitir, mas ressalta que a combinação de cenário mais duro com a preferência revelada por uma trajetória com pausas aponta para manutenção da Selic em agosto.

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Projeções para agosto e fim do ano

Diante das sinalizações do documento, o mercado recalibrou as projeções. O Goldman Sachs não espera mais nenhum corte em agosto e elevou sua projeção para a Selic no fim de 2026 de 13,25% para 14,00%, com eventual retomada dos cortes “no mínimo no quarto trimestre de 2026”. O BofA vai além e mantém a Selic em 14,25% até meados de 2027, com um ciclo superficial de cortes a partir de então, encerrando o ano em 13,25%.

O ASA trabalha com Selic estável em 14,25% pelo restante do ano, mas admite que “aumentou o risco de corte adicional de 25bps na reunião de agosto” caso os dados de inflação surpreendam positivamente. Para Rafael Rondinelli, economista da MAG Investimentos, a sinalização para os próximos passos “se degradou em relação à reunião anterior”, já que o texto do BC, ao citar que “os passos futuros possam incorporar novas informações”, não indica direção.

O Itaú preferiu aguardar o Relatório Trimestral de Inflação, previsto para quinta-feira (25), antes de revisar sua projeção de Selic a 13,75% no fim do ano.

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“Para crédito, consumo e atividade, a leitura é que os juros continuarão restritivos por mais tempo. Isso mantém o custo de capital elevado, pressiona margens das empresas e limita uma recuperação mais forte do investimento, especialmente em setores dependentes de financiamento”, afirma André Luiz Haas Caruso, CEO da Pilar Capital.



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