O Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) define nesta quarta-feira (29) os rumos da taxa básica de juros, atualmente na faixa de 3,50% a 3,75% ao ano. Embora a maior parte do mercado (70%) projete a manutenção das taxas, a discussão sobre a trajetória da política monetária mudou. A expectativa de cortes ao longo do ano recuou, abrindo espaço para a possibilidade de uma pausa prolongada até o final de 2026 — ou mesmo de novas altas, a depender dos próximos indicadores.
As atenções dos investidores não estão voltadas apenas para o número a ser anunciado, mas para a conjuntura que o cerca: os choques no preço do petróleo motivados pelo conflito entre Estados Unidos e Irã e a drástica mudança na comunicação da autoridade monetária, agora sob a presidência de Kevin Warsh.
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Inflação, emprego e o fim das sinalizações
O Fed delibera em um contexto de sinais mistos. Houve um alívio recente nos preços ao consumidor, mas pressões persistem em outras métricas. Roberto Simioni, economista-chefe da Blue3 Investimentos, aponta que o índice de preços ao consumidor (CPI) recuou 0,4% em junho, reduzindo o acumulado de 4,2% para 3,5%.
Em contrapartida, o índice de preços de gastos com consumo pessoal (PCE), que baliza as decisões do Fed, refletiu choques energéticos anteriores e saltou de 3,4% para 4,1% em maio. Os dados de junho deste indicador serão divulgados apenas no dia 30, um dia após a reunião. No mercado de trabalho, o payroll registrou a criação de 57 mil vagas, frustrando a expectativa de 115 mil.
“Diante de um núcleo de inflação em desaceleração, mas de um PCE ainda elevado e de um mercado de trabalho que perde fôlego sem indicar deterioração abrupta, o cenário mais provável para a reunião é de manutenção”, avalia Simioni, projetando que o Comitê aguardará novos dados antes de sinalizar movimentos para setembro.
Esta cautela ganha peso na segunda reunião liderada por Warsh, marcado por sua aversão ao forward guidance (a sinalização prévia dos passos do banco). Andressa Durão, economista do ASA, destaca que o mercado precisará garimpar informações na coletiva de imprensa para entender a leitura do Fed sobre a economia.
Para Vinicius Flores, sócio da Stratton Capital, essa postura rompe um ciclo vicioso da última década, no qual o Fed reagia às expectativas que ele mesmo criava, resultando em uma política lenta e previsível. Segundo o gestor, Warsh agora força as instituições a projetarem a política monetária diretamente a partir da economia real.
Revisão de métodos e o choque do petróleo
Um vetor determinante da gestão Warsh, ainda subestimado pelo mercado, é a criação de grupos de trabalho para revisar os métodos do Fed. Flores destaca dois comitês focados na mensuração de preços. Como a inflação americana possui componentes imputados, o gestor avalia que essa reestruturação profunda tem alta probabilidade de resultar em leituras inflacionárias mais baixas, o que fundamenta sua projeção de juros inalterados até o fim do ano.
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Contudo, a instabilidade global ameaça essa inércia. João Debom, sócio da Alude Capital, lembra que o mercado chegou a precificar 46% de chances de alta nos juros em julho, reflexo direto da escalada do petróleo pelo conflito Irã-EUA. O recuo do CPI de junho aliviou a pressão, consolidando o cenário-base de manutenção, mas Debom alerta para o risco de alta caso o petróleo volte a subir.
O tráfego no Estreito de Ormuz é a variável crítica. Gustavo Sung, da Suno Research, observa o barril do petróleo orbitando os US$ 85, alertando que problemas logísticos elevam a probabilidade de aperto monetário. Debom detalha que uma trégua sustentada manteria o barril do Brent entre US$ 85 e US$ 95; uma reescalada pontual o levaria para US$ 95 a US$ 110; e o fechamento do estreito devolveria os preços ao pico de US$ 110 a US$ 120.
Apesar dos riscos, Vinicius Flores estima uma resolução favorável aos EUA nos próximos meses, derrubando o barril para US$ 65 a US$ 70, justificada pela ausência de espaço fiscal americano para prolongar uma guerra que já custou mais de US$ 100 bilhões.
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Impactos no Copom
A postura do Fed reverbera diretamente no Banco Central do Brasil, que define os rumos da Selic (atualmente em 14,25%) na semana seguinte. Para Debom, juros americanos elevados por mais tempo pressionam o câmbio e reduzem o espaço para cortes no Brasil, fortalecendo a ala cautelosa do Copom.
Gustavo Sung pondera que o impacto não será determinante, visto que o BC brasileiro enfrenta impasses domésticos severos, como a pressão nos serviços e os efeitos iminentes do El Niño na inflação de alimentos. Vinicius Flores concorda com o peso dos fatores internos, mas conclui que a provável manutenção dos juros pelo Fed mantém o diferencial de rendimentos, com efeito positivo e estabilizador para o mercado local.



