Episódios de El Niño tendem a reduzir, em média, a produção global de cacau em 1,7%, o que mantém o fenômeno como um dos principais fatores de risco para a oferta mundial. A estimativa é da consultoria StoneX, com base em estudos próprios.
A melhora da produção na Costa do Marfim levou a StoneX a elevar a estimativa de superávit global de cacau na safra 2025/26, mas a consultoria reduziu de forma significativa a projeção para o excedente da temporada 2026/27 diante do aumento do risco de um evento forte de El Niño e de sinais de deterioração das condições das lavouras no Oeste Africano.
Na quarta revisão do balanço global para 2025/26, a StoneX elevou a estimativa de superávit de 247 mil para 422 mil toneladas. Segundo a consultoria, a mudança foi sustentada principalmente pela revisão das estatísticas oficiais da Costa do Marfim, que passaram a indicar maior disponibilidade de cacau do que a considerada anteriormente.
Ainda assim, a consultoria afirma que incorporou apenas parte desse ajuste, por entender que “os dados de comércio exterior e os fluxos de exportação ainda não corroboram integralmente a magnitude do ajuste oficial”, disse Lucca Bezzon, em relatório.
Com isso, a StoneX estima uma recomposição mais acelerada dos estoques globais, após o período de aperto entre as safras 2021/22 e 2023/24.
Para a safra 2026/27 a consultoria reduziu a projeção de superávit de 149 mil para apenas 25 mil toneladas. A revisão considera principalmente o aumento da probabilidade de um El Niño de forte intensidade, além de relatos de menor contagem de vagens nas principais regiões produtoras do Oeste Africano. Segundo a StoneX, esses fatores motivaram uma postura mais cautelosa para a próxima temporada.
A revisão também alterou as estimativas para os principais produtores da África Ocidental. Na Costa do Marfim, a produção da safra 2025/26 foi elevada em cerca de 160 mil toneladas, para aproximadamente 2 milhões de toneladas.
Já para 2026/27, a projeção foi reduzida para 1,775 milhão de toneladas, refletindo, segundo a consultoria, “uma postura mais cautelosa diante da crescente probabilidade de um El Niño forte e dos relatos recentes de desenvolvimento mais lento das lavouras”.
Em Gana, a StoneX manteve a expectativa de recuperação da produção em 2025/26, mas reduziu a estimativa para 2026/27 para 595 mil toneladas, incorporando condições climáticas menos favoráveis associadas ao possível El Niño. Também foram feitas pequenas reduções nas projeções para Nigéria e Camarões, acompanhando a piora das perspectivas climáticas para a região.
A consultoria destaca que as chuvas registradas em junho agravaram preocupações com a próxima safra ao provocar encharcamento dos solos, aumento da incidência de doenças e redução do número de frutos em importantes áreas produtoras do Oeste Africano. Diante desse cenário, a produção regional para 2026/27 foi revisada para baixo.
Além do clima, a StoneX cita a decisão da Costa do Marfim de suspender temporariamente novas vendas antecipadas da safra 2026/27 como um fator adicional de atenção para o mercado. Segundo a consultoria, a medida ocorreu em meio ao aumento das incertezas sobre o potencial produtivo da próxima temporada e evidencia limitações do modelo comercial da região, no qual os preços pagos aos produtores são definidos com base nas vendas antecipadas.
Na América do Sul, o Brasil manteve perspectivas favoráveis. Bezzon afirma que a safra 2025/26 “caminha para registrar um dos melhores desempenhos dos últimos anos”, impulsionada por condições climáticas mais favoráveis e pelo aumento dos investimentos estimulados pelo ciclo de preços elevados desde 2024.
Para 2026/27, a consultoria projeta produção entre 210 mil e 215 mil toneladas e avalia que parte dos riscos climáticos poderá ser compensada pelo maior nível tecnológico e pela expansão da área cultivada.
No Equador, a expectativa permanece de produção acima de 600 mil toneladas em 2025/26. Embora a consultoria reconheça riscos climáticos para a próxima safra, considera que eventuais perdas tendem a ser parcialmente compensadas pelo aumento dos investimentos e da área cultivada. O Peru também mantém perspectiva de crescimento da produção, sem histórico consistente de perdas associadas ao El Niño.
Em relação ao fenômeno climático, a StoneX cita projeções do CPC (Climate Prediction Center), dos Estados Unidos, segundo as quais há 81% de probabilidade de o El Niño atingir intensidade muito forte entre outubro e dezembro de 2026 e 97% de chance de persistência até o início de 2027.
Do lado da demanda, a StoneX manteve a expectativa de estabilidade da moagem global em 2025/26 e reduziu levemente a projeção de crescimento para 2026/27, estimando avanço próximo de 2%, para cerca de 4,75 milhões de toneladas. A consultoria avalia que a recuperação recente da atividade industrial foi impulsionada principalmente pela recomposição de estoques e que o consumo segue abaixo do potencial histórico, embora em processo gradual de recuperação.



