A redução da safra brasileira de trigo em 2026 deve levar o país a registrar um volume recorde de importações do cereal. Com uma produção estimada em cerca de 6 milhões de toneladas e um consumo interno próximo de 14 milhões de toneladas, o Brasil deverá importar pelo menos 8 milhões de toneladas para atender a demanda doméstica, segundo projeções do analista da Safras & Mercado, Elcio Bento.
Caso parte da produção nacional apresente perdas de quantidade ou qualidade, o volume pode ser maior. E isso é bastante possível, uma vez que o fenômeno El Niño provoca maiores chuvas no sul do país, principal região produtora, aumentando a incidência de doenças e derrubando a quali7,4dade no momento da colheita. Na estimativa do analista, se o cenário se confirmar, a necessidade de importação pode subir para entre 9 milhões e 10 milhões de toneladas.
Se confirmada, a importação superará o maior volume já registrado pelo país, de 7,4 milhões de toneladas na temporada 2006/07, segundo Bento.
As estimativas ocorrem em um momento em que a Conab (Companhia Nacional de Abastecimento) projeta queda de 23,5% na produção brasileira de trigo em relação ao ciclo anterior. Para a Companhia, a menor oferta doméstica deverá elevar as importações em cerca de 1,9 milhão de toneladas em 2027.
“O Brasil não é autossuficiente em trigo e, por isso, qualquer turbulência externa tem impacto direto sobre custos, disponibilidade e previsibilidade do abastecimento”, afirma o presidente-executivo da Associação Brasileira da Indústria do Trigo (Abitrigo), Rubens Barbosa.
Além do maior volume de compras externas, representantes do setor afirmam que a preocupação está na qualidade do trigo disponível no mercado internacional. O Brasil depende principalmente da Argentina para abastecer seus moinhos, mas a safra recorde do país vizinho em 2025/26 apresentou níveis mais baixos de proteína e glúten, características essenciais para a produção de farinha destinada à panificação.
A safra argentina 2025/26 alcançou quase 30 milhões de toneladas. Mas, segundo Bento, “a abundância em quantidade não se reflete em qualidade. Os moinhos brasileiros têm encontrado dificuldade porque o trigo argentino não ajuda a melhorar a qualidade do trigo brasileiro como normalmente acontece”.
Em anos de produção normal, os moinhos costumam misturar o trigo nacional ao cereal argentino para obter padrões industriais específicos. Com uma safra doméstica menor e um produto importado de qualidade inferior à habitual, esse processo tende a se tornar mais complexo, segundo o analista.
Para a próxima safra argentina, a expectativa ainda é de uma produção elevada, embora inferior ao recorde do ciclo anterior. A principal incerteza, segundo Bento, permanece relacionada às características do trigo que será colhido, e não necessariamente ao volume disponível para exportação.
Diante desse cenário, o setor acompanha alternativas de abastecimento fora da Argentina. O trigo russo aparece como uma das principais opções em termos de oferta mundial, mas enfrenta restrições fitossanitárias que limitam sua distribuição para parte do território brasileiro. Atualmente, esse cereal pode abastecer principalmente moinhos localizados no Norte e Nordeste, enquanto regiões do Sul e parte do Sudeste permanecem sujeitas às restrições.
Outra alternativa é o trigo hard produzido nos Estados Unidos, reconhecido pela qualidade industrial. Segundo Bento, porém, esse produto está sendo comercializado a preços superiores aos praticados normalmente, o que pode elevar os custos de aquisição para os moinhos brasileiros. Paraguai e Uruguai também figuram entre os fornecedores do Mercosul, mas possuem menor capacidade de oferta e dificilmente compensariam uma eventual redução do trigo argentino disponível ao Brasil.
“Estamos diante de um cenário que combina menor oferta interna, maior necessidade de importação e custos internacionais mais elevados. Isso aumenta significativamente a complexidade da operação das indústrias moageiras”, afirma Barbosa.
Apesar da maior dependência das importações, Bento avalia que a taxa de câmbio tem contribuído para reduzir parte da pressão sobre os custos das compras externas. Ainda assim, ele considera que a combinação de uma produção menor no Brasil e de um mercado internacional mais firme tende a sustentar preços mais elevados ao longo da temporada.
“O fator cambial ajuda a amenizar parte dessa pressão, mas o Brasil entra em um ano de maior dependência das importações em um mercado internacional mais apertado. Isso tende a manter os preços em níveis mais altos”, afirma.



