Desde os anos 1980, a economia agrícola discute o chamado “efeito-graduação”: à medida que a renda per capita sobe e a urbanização avança as famílias mudam os seus padrões alimentares reduzindo a participação relativa de alimentos ricos em amido, como cereais e tubérculos, e passam a consumir mais proteínas animais (carnes, lácteos e ovos), além de frutas e hortaliças.
Foi esse movimento que transformou o Brasil no maior fornecedor mundial de proteínas, puxado pela China.Mais recentemente, a saudabilidade entrou na equação. Ganhou força o conceito de “food as pharma”, o alimento como parte essencial dos cuidados de nutrição e saúde, expresso nos alimentos funcionais e fortificados e na nutrição personalizada, que adapta a dieta às necessidades de cada pessoa. A pergunta deixou de ser apenas se o alimento fornece calorias e nutrientes e passou a ser como sua composição e seu consumo habitual afetam a saúde e a qualidade de vida das pessoas.

As canetas emagrecedoras, combinadas a dietas equilibradas e atividade física, formam uma revolução inédita na saúde humana Foto: Shutterly/Adobe Stock
Agora surge uma terceira onda, bem mais disruptiva. Os agonistas de GLP-1 imitam um hormônio liberado pelo intestino após as refeições, que estimula a insulina, retarda o esvaziamento do estômago e sinaliza saciedade ao cérebro. A primeira molécula da classe chegou ao mercado em 2005, para o diabetes. O salto veio com a semaglutida (Ozempic de 2017 e Wegovy de 2021, da Novo Nordisk) e com a tirzepatida (Mounjaro de 2022, da Eli Lilly), que reduz o peso corporal com benefícios metabólicos e cardiovasculares relevantes.
Estamos passando do “food as pharma”, alimentos concebidos para promover saúde, para o “pharma as a modifier of food behavior”: fármacos que transformam a própria relação com a comida, regulando apetite e saciedade, com mais proteínas e menos carboidratos e aumentando a atividade física.
Os números impressionam. Após cerca de duas décadas de crescimento da obesidade nos Estados Unidos, pesquisas recentes apontam uma reversão dessa tendência, coincidente com a rápida expansão desses medicamentos. O Gallup estima que a taxa de obesidade dos EUA caiu de 40% da população adulta em 2022 para 36% hoje e que 11% dos adultos usam esses produtos para emagrecer, ante 3% há dois anos.
Em 2025, as vendas de tirzepatida (Mounjaro) somaram US$ 36,5 bilhões, hoje o medicamento mais vendido do mundo. No Brasil, as vendas de canetas emagrecedoras dobraram para cerca de R$ 11 bilhões em 2025 e devem chegar a R$ 20 bilhões em 2026. Elas já representam de 10% a 15% do faturamento das grandes redes de farmácia.
Os efeitos já aparecem no carrinho de compras. Estudo da Universidade de Cornell mostra que lares americanos com usuários de GLP-1 cortaram 5,3% dos gastos no supermercado, com queda de 10% em salgadinhos, doces e biscoitos, além de cortes significativos no consumo de álcool. Os restaurantes adotam versões menores dos pratos, e as redes já oferecem meias porções.
Ao mesmo tempo, cresce a demanda por proteínas, essenciais para preservar a massa muscular durante o emagrecimento. 84% dos consumidores brasileiros afirmam ter aumentado o consumo de proteína animal. Carnes magras, ovos, iogurtes, as proteínas do soro do leite (whey protein) e fibras viraram a moda do momento. Para o Brasil, maior exportador mundial de carne bovina e de frango, abre-se uma oportunidade de ampliar mercados e agregar valor.
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Os custos ainda são elevados. O tratamento com as marcas de referência passa facilmente de R$ 1.000 por mês, e a OMS estima que menos de 10% de quem precisa terá acesso até 2030. Mas a concorrência já age. A patente da semaglutida (Ozempic) expirou no Brasil em março; a EMS lançou a primeira semaglutida nacional por cerca de R$ 450 a caneta, e a Anvisa já aprovou genéricos e similares. Novas moléculas, comprimidos e mais competição tornarão esses produtos cada vez mais baratos e acessíveis.
O saldo é positivo. A maior longevidade depende de três pilares: alimento na quantidade certa (segurança alimentar, ou food security), qualidade e sanidade do que se consome (segurança do alimento, ou food safety) e nutrição e saudabilidade (healthy food).
As canetas não substituem nenhum deles, mas, combinadas a dietas equilibradas e atividade física, formam uma revolução inédita na saúde humana. O agro brasileiro, que soube abastecer a “graduação” asiática, tem agora a chance de alimentar essa nova onda global com mais proteína, qualidade e saúde no prato.



