Agronegócio precisa olhar para o mercado de tecnologia para inovar, diz Marcos Jank
Segundo o professor, as evoluções devem evitar problemas como o desmatamento ilegal, menor uso de recursos e trazer maior eficiência de produção. Crédito: Edição: Larissa Kinoshita motion: Raul Carvalho, Coord de pós: Anderson Russo, Captação: Felipe Pedro/Lucas Ghitelar, Produção: Vitória Schimdtz
A China projeta para a próxima década uma mudança no abastecimento do seu gigantesco mercado de soja. Depois de comprar um recorde de 111,83 milhões de toneladas da oleaginosa em 2025, o país quer reduzir o volume para cerca de 82,55 milhões de toneladas até 2035. A queda, de aproximadamente 26%, está relacionada à busca por maior produção doméstica, ganhos de produtividade e redução da dependência externa.
A estratégia, que faz parte do último plano quinquenal divulgado pelo governo chinês, deve gerar desafios para o Brasil caso se consolide. Em 2025, os chineses compraram 85,4 milhões de toneladas de soja brasileira, um número que mostra a posição central da produção nacional no comércio mundial do grão e explica por que qualquer mudança estrutural na demanda chinesa é acompanhada com atenção pelo setor produtivo brasileiro.
Para Fabrício Morais Rosa, diretor executivo da Aprosoja Brasil e vice-presidente do Instituto Pensar Agro (IPA), a redução prevista não indica que o Brasil ficará sem escoamento para parte de sua produção. O horizonte de uma década, segundo ele, permite que produtores e exportadores se adaptem gradualmente. “Como as medidas chinesas não serão implementadas de um dia para o outro, o mercado consegue se acomodar. Até lá, teremos para quem vender”.
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Rosa lembra que o Brasil teria de diversificar destinos, mas que já trabalha para ampliar as vendas para outros países asiáticos e também busca oportunidades em mercados como o Marrocos. O Japão, segundo ele, também vem se aproximando do Brasil. “Ficamos receosos, mas não estamos parados. Acho que a gente consegue que outros mercados absorvam o que a China deixar de comprar”.
China planeja aumentar capacidade de produção de soja e outras oleaginosas
A mudança, porém, não depende apenas de uma decisão comercial. Para aumentar a produção interna de soja, a China investe em tecnologia, genética, adaptação de variedades e aumento da produtividade agrícola. O planejamento agrícola chinês para 2026-2030 estabelece, entre outras metas, o aumento da capacidade de produção de soja e de outras oleaginosas.
Na avaliação de Adilson de Oliveira Junior, chefe-geral da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), existe uma tendência concreta de redução da demanda chinesa por soja importada. Ele cita fatores como a estabilização da população do país asiático, mudanças na composição das rações e aumento da produção doméstica de alimentos. “Eles estão investindo muito na melhoria da eficiência produtiva, sem aumentar a área”.
O pesquisador observa, porém, que há limitações. Condições de clima, disponibilidade de água e características das áreas agrícolas podem restringir parte dos ganhos. Uma saída para isso está, segundo Oliveira Júnior, nos avanços da pecuária suína – da qual a China é líder mundial em plantel. A pesquisa genética pode permitir a produção de mais carne usando a mesma quantidade de energia na alimentação animal. A substituição parcial do farelo de soja por outras fontes de proteína e o uso de aminoácidos também podem reduzir a quantidade de soja necessária na formulação das rações.
Busca pela autossuficiência chinesa ocorre há mais de duas décadas
Apesar das previsões, há quem veja com cautela a possibilidade de uma redução tão expressiva da demanda chinesa. O professor Marcos Fava Neves, da Universidade de São Paulo (USP) e Harven Agribusiness School, em Ribeirão Preto (SP), afirma que a China estabelece em seus planos, há pelo menos duas décadas, objetivos de maior autossuficiência e redução das importações.
O problema, na visão dele, é que a demanda mundial por soja continuou crescendo. Nos últimos dez anos, o consumo em todo o planeta passou de 317 milhões para 442 milhões de toneladas.

Brasil precisa diversificar os mercados para a soja Foto: Werther Santana/Estadão
Neves aponta fatores como crescimento populacional, urbanização, aumento da renda, maior consumo de proteína animal e utilização de grãos para biocombustíveis como elementos que sustentam a demanda internacional. Por isso, mesmo que a China efetivamente reduza suas compras, ele considera que há espaço para a soja brasileira continuar encontrando mercado. A condição é aumentar a competitividade “dentro e fora da porteira”, apesar da elevação dos custos de produção.
África entra no mapa da soja
A redução da dependência da China de soja importada tem a ver, principalmente, com exportadores distantes geograficamente. O continente africano, como está mais próximo, aparece como possibilidade.
Oliveira Junior afirma que os chineses estão investindo em infraestrutura e estabelecendo parcerias no continente. “Eles estão estruturando a África, com portos, com rodovias, para dar meios de se produzir em alguns países”.
A própria Embrapa tem, historicamente, uma atuação de cooperação com países africanos, principalmente na transferência de tecnologias desenvolvidas para ambientes tropicais. O chefe-geral cita trabalhos com variedades adaptadas e pesquisas, especialmente na Nigéria.
A semelhança entre determinadas condições de solo e clima africanas e brasileiras pode facilitar esse processo, o que, para Oliveira Junior, não precisa ser encarado apenas como uma ameaça competitiva. “Eu vejo também a questão do desenvolvimento científico e tecnológico. Nesse caso, o Brasil pode sair ganhando”.
Rosa, da Aprosoja Brasil, não acredita, no entanto, na capacidade africana de assumir, a curto prazo, uma parcela significativa da produção mundial. Para ele, o continente tem potencial, mas enfrenta obstáculos relacionados a capital humano, estrutura institucional e estabilidade política.
Brasil precisa criar alternativas
Diante desse cenário, uma das novas rotas para o Brasil está no próprio mercado interno. Rosa cita o aumento do uso da soja para a produção de biodiesel como mecanismo capaz de absorver parte da oferta. A ampliação da mistura de biodiesel ao diesel poderia elevar o consumo doméstico de óleo de soja.
A Embrapa também pesquisa novas utilizações e características da oleaginosa, incluindo materiais com diferentes perfis de óleo. A estratégia é criar produtos capazes de alcançar mercados específicos e agregar valor à produção.
Mas a diversificação também passa por produtos de maior valor agregado. Rosa defende políticas públicas que ajudem o País a deixar de se concentrar na exportação de grão e ampliar a transformação da soja em proteína de alta qualidade.
China não é o único desafio
Embora a perspectiva chinesa chame atenção pelo tamanho do mercado envolvido, Rosa considera que os produtores brasileiros precisam acompanhar outro movimento com preocupação: as exigências ambientais da União Europeia. O bloco europeu trabalha com regras de combate ao desmatamento associado a determinadas cadeias de produtos importados. Para o setor brasileiro, a rastreabilidade e a comprovação da origem da produção podem se transformar em barreiras comerciais.
A soja brasileira tem forte presença no mercado europeu, que responde por 10% das nossas vendas externas de soja e por 50% de farelo. Por isso, a mudança nas regras vai exigir adaptações rápidas das cadeias de produção e comercialização.
Já Oliveira Junior observa que as duas questões são diferentes, mas ambas exigem preparação. A própria China também tem aumentado as exigências relacionadas à rastreabilidade e à sustentabilidade. Para a Embrapa, uma das respostas está em demonstrar, por meio de indicadores e tecnologia, os avanços ambientais obtidos nas propriedades rurais. “Só falar também não adianta mais. É preciso comprovar”.
Nesse sentido, a instituição desenvolve pesquisas relacionadas à agricultura de baixo carbono e à mensuração de indicadores ambientais, buscando demonstrar os efeitos de práticas que reduzem emissões e o uso de insumos.



