Há mais de trinta anos o mundo repete o mesmo ritual, líderes chegam às COPs fazendo discursos grandiosos, prometem defender florestas, financiar a transição energética e ajudar quem mais sofre com o clima extremo. Mas basta olhar o saldo de três décadas para perceber a verdade desconfortável, o que se multiplica são as metas, não o dinheiro.
A COP 30, em Belém, expôs esse fosso com clareza. E nesta quarta-feira(19/11), Lula aterrissa na cidade para tentar o que parece impossível: costurar um acordo final sem dissidências num ambiente em que ninguém quer abrir o bolso.
A linha do tempo da frustração
- 2009 — Copenhague: a promessa dos US$ 100 bilhões por ano nasce. Nunca entregue no prazo.
- 2015 — Paris: metas elegantes, mas financeiramente vagas.
- 2022 — COP 27: cria-se o Fundo de Perdas e Danos com valores simbólicos.
- 2024 — COP 29: o mundo eleva a ambição para US$ 300 bilhões/ano até 2035, quando o necessário são trilhões.
- 2025 — Belém: o Brasil tenta liderar a convergência — mas encontra mais ruído do que consenso.
E justamente na COP que o país sediou, veio a frase que incendiou os bastidores.
A declaração que abalou a diplomacia
Durante sua passagem por Belém, o chanceler alemão Friedrich Merz resumiu em uma linha aquilo que muitos negociadores diziam em privado: “Fiquei aliviado ao deixar Belém. Faltou clareza, faltou ambição e faltou compromisso real com financiamento climático.”
A fala repercutiu porque capturou o clima da conferência: muita expectativa, muita conversa… e pouquíssimo avanço concreto. Para diplomatas, a mensagem foi direta: as potências estão cansando de negociações travadas, o consenso está longe, e o Brasil enfrenta o desafio de unir quase 200 países que discordam sobre tudo — especialmente sobre dinheiro.
Merz acabou dizendo em voz alta o que muitos só comentavam nos corredores: ninguém quer pagar, mas todos querem sair bem na foto.
Os números:
A matemática é implacável:
O planeta precisa de US$ 6,3 trilhões por ano para manter o Acordo de Paris vivo.
- Em 2023, só US$ 1,9 trilhão foram mobilizados.
- Em 2024, o mercado despejou US$ 800 bilhões em combustíveis fósseis — mais para a crise do que para a solução.
- Países pobres já acumulam US$ 400 bilhões em perdas climáticas por ano.
Ou seja: não existe financiamento climático em escala real. Não ainda.
As quatro forças que bloqueiam tudo
Países ricos: admitem a responsabilidade histórica, mas entregam menos do que prometem.
- Emergentes:
dizem que ainda têm milhões de pessoas pobres — e não podem arcar com a conta sozinhos. - Produtores de petróleo e gás:
resistem a qualquer compromisso que limite seus combustíveis. - Países vulneráveis:
pedem ajuda imediata, mas recebem migalhas e muita burocracia.
É exatamente essa paralisia que o comentário de Merz expôs ao mundo: “Não falta ciência. Falta coragem para decidir.”
A COP 30 é decisiva porque o tempo simplesmente acabou. E Lula chega a Belém com o desafio mais complexo da diplomacia moderna: construir consenso num mundo que já não consegue concordar nem sobre a urgência da vida na Terra. Mas a realidade é incontornável: Salvar o planeta custa caro. Não salvá-lo custará muito mais.
Enquanto quase 200 países discutem quem paga a conta, o planeta segue esquentando —
e a COP 30 corre o risco de entrar para a história como mais um capítulo da equação que ameaça o futuro: Muita conversa, pouco dinheiro e nenhum consenso.


*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural
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