a cientista que revolucionou os biológicos no Brasil e levou o ‘Nobel da Agricultura’



A trajetória de Mariangela Hungria, pesquisadora da Embrapa e vencedora do Prêmio Mundial da Alimentação — conhecido como o “Nobel da Agricultura” — é uma combinação rara de ciência, resistência e impacto global. De uma infância simples no interior paulista ao reconhecimento internacional, ela transformou desafios pessoais e profissionais em contribuições decisivas para a agricultura sustentável. Essa história está agora em documentário da série Memórias do Brasil Rural, produzido pelo Canal Rural (veja o vídeo abaixo).

Criada em Itapetininga (SP), Mariangela encontrou na avó farmacêutica e “visionária” a primeira fonte de inspiração. Foi ela quem alimentou o gosto pela ciência, apresentou livros de microbiologia e plantou o sonho que guiaria toda a carreira da neta. O caminho, porém, não foi linear: da mudança para São Paulo à formação com bolsa em uma escola de excelência, passando pelo choque que causou ao escolher agronomia — uma área pouco valorizada e dominada por homens à época.

Mesmo enfrentando preconceitos e dificuldades financeiras, especialmente após se tornar mãe de duas meninas — uma delas com necessidades especiais —, Mariangela manteve o foco. A virada decisiva veio com o doutorado orientado pela renomada microbiologista Johanna Döbereiner, referência internacional. Foi Johanna quem a levou para a Embrapa, em 1982, abrindo o primeiro grande capítulo de sua contribuição para o país.

A revolução dos biológicos na agricultura brasileira

Depois de estágios no exterior — incluindo Cornell e Universidade da Califórnia, Davis — Mariangela decidiu voltar ao Brasil movida por gratidão e pela convicção de que poderia gerar impacto real no campo. Em Londrina (PR), montou seu próprio laboratório e iniciou pesquisas que mudariam o uso de insumos biológicos no país.

Seus estudos desenvolveram tecnologias pioneiras de inoculação e coinoculação para soja, milho e trigo, ampliando o uso de bactérias benéficas capazes de:

  • Fixar nitrogênio
  • Estimular crescimento
  • Aumentar produtividade

A partir da combinação de microrganismos, Mariangela comprovou ganhos de até 16% na produtividade da soja, o dobro do avanço alcançado com técnicas anteriores. No milho, as descobertas permitiram que bactérias brasileiras hoje estejam presentes em mais de 40% da safra de inverno e em 30% da safra de verão — quase 8 milhões de hectares.

Impacto climático e econômico: bilhões em economia

O efeito das pesquisas da Embrapa lideradas por Mariangela é monumental. Somente na soja, a substituição de fertilizantes nitrogenados pelos microrganismos desenvolvidos economizou:

  • US$ 27 bilhões, na safra mais recente
  • 260 milhões de toneladas de CO₂ equivalente, evitando emissões que seriam geradas pela produção e uso de adubos

É um dos maiores cases de agricultura de baixo carbono do mundo.

Reconhecimento global e uma bandeira: visibilidade para as mulheres

Em 2025, Mariangela Hungria conquistou o World Food Prize, o principal prêmio global da área de alimentação. O título ampliou sua voz no cenário internacional, permitindo destacar o protagonismo da agricultura brasileira em biológicos, plantio direto e sistemas integrados.

Mas o prêmio ganhou ainda outro significado: foi dedicado às mulheres invisibilizadas no campo — da agricultora familiar às guardiãs de sementes, passando por educadoras e trabalhadoras rurais que sustentam a segurança alimentar.

Resistência, resiliência e perseverança” é o lema que resume sua trajetória. “Ninguém ouviu mais ‘não’ do que eu”, afirma a pesquisadora, lembrando que seguiu firme mesmo quando a área dos biológicos não tinha apoio, dinheiro ou prestígio.

Hoje, seu legado impacta diretamente mais de 1 bilhão de pessoas, ao contribuir para uma agricultura mais produtiva, sustentável e acessível.



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