Área segurada no campo pode cair abaixo de 3% em 2026, diz Mapfre

O mercado de seguro rural pode registrar nova queda em 2026 e reduzir ainda mais a área agrícola protegida no Brasil, após a retração observada nos primeiros cinco meses do ano. Segundo o diretor de Seguro Rural da Mapfre, Fabio Damasceno, os dados da Susep (Superintendência de Seguros Privados) apontam recuo de 5% no mercado de seguros como um todo e de 15% no seguro agrícola no período. Na avaliação dele, o movimento pode levar o país a encerrar o ano com menos de 3% da área cultivada segurada. 

“É uma preocupação a mais não só para o mercado, mas para o produtor em si, de uma redução ainda maior para este ano, de ficarmos abaixo dos 3% de área segurada”, disse, em entrevista ao CNN Agro News.

Damasceno defendeu o fortalecimento da política de subvenção ao prêmio do seguro rural e citou um estudo da FGV (Fundação Getulio Vargas) que compara o custo da prevenção com o da renegociação de dívidas após eventos climáticos extremos.

De acordo com ele, enquanto o governo aprovou recentemente cerca de R$ 100 bilhões para renegociação de dívidas de produtores, aproximadamente R$ 3,6 bilhões destinados à subvenção ao seguro rural teriam capacidade de proteger mais de R$ 100 bilhões em produção. “Como ferramenta, essa questão de alocação dessas verbas no seguro é uma coisa muito bem vista pelo mercado todo”, disse.

O executivo lembrou ainda que, durante a safra 2021/22, marcada por perdas climáticas generalizadas, o mercado segurador pagou aproximadamente R$ 12 bilhões em indenizações. Segundo ele, naquele momento não houve necessidade de discutir renegociação de dívidas devido à atuação do seguro.

Na avaliação de Damasceno, a retração da contratação de seguros decorre de uma combinação de fatores. Ele afirmou que o mercado atingiu o pico entre 2021 e 2022, quando quase 14 milhões de hectares estavam segurados, mas sofreu impacto após uma sequência de perdas climáticas em diferentes regiões produtoras.

“Tivemos uma grande perda sistêmica. Sul, safrinha e safra de verão tiveram perdas significativas. Isso deu uma retração no mercado como um todo”, afirmou. Segundo ele, o movimento foi seguido por safras com condições climáticas mais favoráveis e por um cenário de maior restrição financeira para os produtores. “O produtor enfrenta este ano um ano super complexo, não só pelo clima, mas também na relação econômica, de crédito e de venda.”

Com a previsão de influência do El Niño sobre a safra 2026/27, a procura por seguro tem se concentrado nas culturas de verão, principalmente soja e milho. Segundo Damasceno, a soja lidera a demanda por proteção, mas as necessidades variam conforme as características climáticas e geográficas de cada região do país.

Ele também observou um aumento da demanda por instrumentos de mitigação de riscos, especialmente no Centro-Oeste. Segundo o executivo, os produtores da região tradicionalmente buscam ferramentas financeiras para reduzir a exposição às perdas, mas a procura crescente por seguro também reflete uma percepção maior de risco para a próxima safra.

“O produtor do Centro-Oeste sempre buscou ferramentas de mitigação e de dispersão de risco, e cada vez mais tem buscado a solução no seguro. Essa demanda oferece oportunidades, mas também acende um alerta de que realmente o produtor está enxergando algo diferente que pode acontecer nessa safra”, afirmou.

Para ampliar a cobertura do seguro rural, Damasceno defendeu maior proximidade entre seguradoras e produtores, além de políticas públicas permanentes que deem previsibilidade ao setor.

Segundo ele, a maior frequência de eventos climáticos extremos exige mudanças na modelagem dos produtos. “Antes víamos catástrofes climáticas com modelagens a cada 50 ou 100 anos. Hoje já fazemos modelagens de três, cinco ou dez anos. Isso muda completamente nosso tipo de abordagem e de construção de produtos”, disse.

O executivo acrescentou que o seguro rural deve ser visto como uma ferramenta de gestão do negócio agrícola, e não apenas como proteção da lavoura. Ele também ressaltou que o sistema depende da diversificação de riscos. “O seguro é nada mais que mutualismo”, afirmou.

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