O possível bloqueio do Estreito de Bab el-Mandeb pode afetar toda a cadeia do agro, aumentando os preços de fertilizantes, interrompendo o transporte de grãos pela região, além de alta nos fretes e no diesel.
A passagem marítima, uma das principais rotas do comércio internacional e localizada entre o Iêmen e o Djibuti, conecta o Oceano Índico ao Mar Vermelho e ao Canal de Suez, formando um corredor estratégico para o transporte de produtos.
Segundo o especialista em comércio exterior Jackson Campos, o Bab el-Mandeb é uma das principais passagens do comércio marítimo mundial por conectar importantes regiões produtoras e consumidoras. Por ali circulam petróleo, derivados, gás natural liquefeito, contêineres, veículos, fertilizantes, minérios, grãos e outros produtos agrícolas. A rota é importante para cargas entre Ásia, Europa, Oriente Médio, África Oriental e região do Mar Negro, afirmou à CNN.
Segundo o especialista, “as cadeias que exigem mais atenção são ureia, amônia, fertilizantes fosfatados, gás natural, petróleo, diesel, combustível de aviação, trigo e arroz. A ureia e a amônia são especialmente sensíveis porque dependem do gás natural e têm produção relevante no Oriente Médio”, afirmou Campos. “O comércio não seria totalmente inviabilizado, mas algumas operações poderiam perder viabilidade econômica”, acrescentou.
“O diesel afeta diretamente máquinas agrícolas e transporte rodoviário. Para o Brasil, o maior risco está no aumento dos custos de produção, já que o país importa a maior parte dos fertilizantes que utiliza e depende fortemente do transporte rodoviário para movimentar a safra”, disse.
Fertilizantes
O possível bloqueio preocupa especialmente o mercado de fertilizantes. A Arábia Saudita é uma importante origem de produtos fosfatados e de enxofre para diversos países, incluindo o Brasil. O momento também coincide com uma fase de compras internacionais para a safra de soja 2026/27.
“Nos fertilizantes, o efeito pode ser ainda maior porque existe uma combinação entre energia mais cara, produção concentrada no Oriente Médio e aumento dos custos logísticos”, disse Campos.
Além disso, diante das restrições envolvendo o Estreito de Ormuz, passou a utilizar portos no Mar Vermelho como alternativa para escoar parte das exportações. “No entanto, dependendo da localização das unidades produtoras, o transporte dos produtos até os portos da costa oeste exige a travessia do território saudita, o que impõe custos e limitações logísticas. Assim, embora o país tenha ampliado, na medida do possível, o uso do Mar Vermelho, ainda enfrenta dificuldades para escoar sua produção”, disse à CNN Tomás Pernías, analista de insumos da StoneX.
Segundo Pernías, um novo obstáculo na região poderia comprometer ainda mais o fluxo de exportações sauditas e reduzir a disponibilidade de produto no mercado internacional. “Caso o escoamento seja comprometido tanto pelo Mar Vermelho quanto pelo Estreito de Ormuz, a Arábia Saudita enfrentará entraves severos para enviar seus fertilizantes aos mercados consumidores. Vale lembrar que a Arábia Saudita é uma importante fornecedora de fertilizantes fosfatados e enxofre ao Brasil. Portanto, novos gargalos logísticos que afetem as exportações do país também intensificariam os fatores altistas no mercado global de fertilizantes”, afirmou.
Para Renata Cardarelli, responsável por precificação de agricultura e fertilizantes da Argus, o cenário preocupa o mercado de fosfatados em um momento de oferta global mais ajustada, e o risco é maior para produtos como o DAP (fosfato diamônico).
O movimento poderia também retirar do mercado uma parcela relevante do fornecimento destinado à Índia, em um momento em que outras origens apresentam limitações.
“A medida coloca em risco especialmente as exportações de DAP para o sul da Ásia neste momento, período que já é de oferta global apertada e às vésperas de um provável grande leilão de compra de DAP na Índia”, disse à CNN.
Segundo Cardarelli, uma interrupção completa das exportações sauditas pelo Mar Vermelho poderia retirar do mercado uma parcela relevante do fornecimento destinado ao país asiático. No Brasil, o impacto dependerá da intensidade do movimento, mas uma alta nos preços internacionais tende a influenciar as negociações domésticas.
“Caso os preços para outros mercados globais subam, a tendência é que o mercado brasileiro acompanhe esse movimento de alta, porém deve continuar havendo uma resistência de importadores brasileiros para aceitar preços mais elevados”, afirmou Cardarelli.
“Se as exportações sauditas de DAP sejam obrigadas a evitar o estreito de Bab el-Mandeb, a alternativa de navegar pelo Canal de Suez e contornar todo o continente africano aumentaria significativamente o tempo de viagem até os mercados asiáticos. Além disso, isso elevaria os custos do transporte terrestre do produto através do deserto até os portos do Mar Vermelho, um desafio que os produtores sauditas já enfrentam atualmente, e daria sustentação aos preços finais do produto nos mercados asiáticos e, consequentemente, em outros mercados globais, incluindo no Brasil”, explicou.
A analista aponta, no entanto, que ainda faltam informações sobre como o bloqueio funcionaria para dimensionar os efeitos. “Os houthis não especificaram como pretendem implementar essa proibição, nem se ela se aplicará apenas a navios sauditas ou também a qualquer embarcação que faça escala em portos da Arábia Saudita, como Yanbu, na costa do Mar Vermelho”, disse.
Grãos
Além dos fertilizantes, Campos aponta que produtos agrícolas de grande volume e baixo valor por tonelada são mais sensíveis a alterações logísticas. “Os produtos mais vulneráveis são aqueles de grande volume, baixo valor por tonelada e forte dependência do transporte marítimo, como grãos e fertilizantes. Trigo, arroz e parte dos fluxos de milho podem sofrer mais em determinadas rotas”, disse.
No caso brasileiro, soja e milho não dependem diretamente do Bab el-Mandeb para chegar aos principais mercados asiáticos, mas podem ser afetados por efeitos indiretos, como aumento do custo global de transporte, combustíveis e insumos agrícolas.
Frete e transporte marítimo
Jackson Campos explica que um eventual fechamento do estreito teria efeitos imediatos sobre os custos do transporte marítimo. “Um fechamento do estreito tende a elevar inicialmente o seguro marítimo, o preço do frete e o custo do combustível usado pelos navios. No petróleo, o mercado pode reagir rapidamente com alta das cotações, mesmo que parte das cargas consiga seguir por rotas alternativas”, disse.
A principal alternativa para as embarcações seria contornar o continente africano pelo Cabo da Boa Esperança. O desvio acrescentaria cerca de 6 mil quilômetros aos trajetos e poderia aumentar o tempo de navegação entre uma e três semanas, dependendo da origem e do destino da carga.
Esse cenário elevaria o consumo de combustível, os custos com tripulação, seguros e afretamento dos navios. Além disso, viagens mais longas reduzem a disponibilidade de embarcações para novos carregamentos, o que pode pressionar os valores dos fretes internacionais.
“Mesmo sem a retirada física de embarcações da frota, viagens mais longas significam menos capacidade disponível para novas cargas, o que pressiona o frete”, explicou Campos.
O Bab el-Mandeb e o Canal de Suez fazem parte do mesmo corredor logístico. Embora o canal pudesse continuar aberto, a restrição no acesso pelo sul do Mar Vermelho reduziria a movimentação entre Ásia e Europa.
Para cargas brasileiras destinadas ao Oriente Médio, a rota mais utilizada passa por portos do Mediterrâneo, Canal de Suez, Bab el-Mandeb e, posteriormente, pelo Golfo Pérsico. As alternativas pelo sul da África existem, mas representam uma parcela menor dos fluxos comerciais.
Campos destaca que os impactos também poderiam aparecer em outros pontos da cadeia. “O efeito pode aparecer também em portos africanos, mediterrâneos, asiáticos e europeus, com congestionamentos, atrasos e mudanças nas escalas programadas”, disse.



