Hoffman D´Avila é o 1º delegado de Polícia Civil de MS a ocupar cela no Presídio Federal de Segurança Máxima

Em 40 dias, Hoffman D´Ávila passou de chefe da principal unidade de combate ao tráfico de drogas no Estado para a condição de primeiro delegado de Polícia Civil de Mato Grosso do Sul a ficar custodiado no Presídio Federal de Segurança Máxima. A penitenciária, inaugurada em 2006, é para onde vão os presos considerados muito perigosos, para os quais é imposto o grau mais alto de isolamento do sistema prisional brasileiro.
O delegado Hoffman D’Ávila, ex-chefe da Delegacia Especializada de Narcóticos, tornou-se o primeiro delegado da Polícia Civil de Mato Grosso do Sul levado a um presídio federal de segurança máxima. Preso em 24 de setembro por suspeita de desviar cocaína apreendida, ele foi transferido em 4 de novembro após a Operação Ifrit, da Polícia Federal, que o aponta como ligado a esquema de tráfico na fronteira. Segundo a PF, teria lucrado R$ 15 milhões. Ele nega, e a defesa contesta a transferência.
Hoffman está no mesmo modelo de prisão que personagens temidos como Fernandinho Beira-Mar e Marcos Willians Herbas Camacho, tidos como os cabeças das duas facções mais violentas e poderosas do país, o Comando Vermelho e o PCC (Primeiro Comando da Capital.
A queda do delegado afastado começou no dia 24 de setembro, quando foi preso pela Operação Infiltrados, do Gaeco (Grupo de Atuação Especial e Repressão ao Crime Organizado) do MPMS (Ministério Público de Mato Grosso do Sul), por suspeita de desviar e revender cocaína apreendida exatamente pela unidade onde trabalhava, em conluio com outros colegas da Polícia Civil. Foi levado para cumprir a prisão preventiva na sede de outra delegacia onde já havia atuado como chefe, a Garras (Delegacia Especializada de Repressão a Roubo a Banco, Assaltos e Sequestros).
Na semana passada, no dia 4 de novembro, a situação de Hoffman escalou para um patamar mais grave. Enquadrado pela Polícia Federal como linha auxiliar de uma organização criminosa do narcotráfico sediada na fronteira com o Paraguai, foi alvo de um segundo mandado de prisão, e transferido para o presídio federal. Teve o mesmo tratamento dos chefes do esquema, os irmãos Haidar, de Ponta Porã.
Lá, as regras são muito mais duras que nas cadeias comuns. Outros policiais do Estado já estiveram nesse tipo de prisão, incluindo investigadores da Polícia Civil, guardas civis metropolitanos, policiais penais e oficiais da Polícia Militar, mas não há registro de outro delegado submetido ao mesmo regime.
A transferência coloca Hoffman sob medidas de segurança iguais às aplicadas a presos cuja comunicação com o mundo exterior precisa ser rigorosamente controlada. A rotina prevê cela individual e banho de sol de até duas horas por dia.
As visitas são diferentes, sem contato físico. Preso e familiares ficam separados por um vidro. O contato com o advogado, igualmente, é feito no parlatório. A conversa ocorre por interfone, sob monitoramento e gravação, método altamente questionado pelos advogados, mas mantido pelo Judiciário.
A permanência nesse sistema pode chegar a três anos, com possibilidade de prorrogação por decisão judicial. O objetivo é impedir que presos de alto risco para a sociedade continuem comandando atividades criminosas de dentro das cadeias.
Em relação à investigação do Gaeco, focada no esquema de desvio de drogas da Denar (Delegacia Especializada de Narcóticos), o delegado afastado já é réu. O processo vai para a fase de apresentação de defesa prévia dos 23 acusados..
Na Operação Ifrit, desenvolvida a partir de trabalho do Gise (Grupo de Investigações Sensíveis) da PF, Hoffman está preso de forma preventiva, dada a gravidade das suspeitas. O escopo dessa investigação é mais amplo, envolvendo clã familiar apontado como responsável por um esquema de tráfico transnacional de drogas e armas, com o apoio de milícia integrada por agentes de segurança pública, alto poder bélico e movimentação de meio bilhão de dólares em dois anos.
Segundo a PF, Hoffman teria lucrado R$ 15 milhões com o desvio de aproximadamente duas toneladas de cocaína. Ele nega as acusações.
Defesa contesta – Para o advogado José Roberto da Rosa, representante legal de Hoffman, não existe justificativa para colocar o cliente em uma penitenciária federal. Ele argumenta que o delegado já estava preso, afastado do cargo e sem condições de interferir nas investigações.
“E mais: o ingresso dele no presídio federal, ao meu ver, é completamente fora do game jurídico, não encontra amparo em nada”, declara. “Nós não estamos diante de um sujeito perigoso, nós não estamos diante de um malfeitor que já tem antecedentes criminais. Muito pelo contrário, há dois meses, três meses atrás, ele era o titular de uma delegacia”, afirmou.
O defensor diz que a prioridade é combater a permanência do assistido na unidade federal. “Eu acho desnecessário, é isso que nós vamos nos insurgir”
O advogado contesta ainda os R$ 15 milhões atribuídos ao delegado, afirma que não há comprovação do recebimento do dinheiro e sustenta que o patrimônio do cliente é compatível com seus rendimentos.
Sobre as imagens de Hoffman em confraternizações com integrantes da família Haidar, o advogado reconhece os encontros, mas diz que as circunstâncias ainda precisam ser esclarecidos.
Com a fase de campo concluída e as buscas e apreensões feitas, a Polícia Federal agora precisa concluir o inquérito e relatar ao MPF (Ministério Público Federal), responsável por apresentar a denúncia ao Judiciário Federal.



