As Eleições de Meio de Mandato nos Estados Unidos devem trazer mudanças no controle do Congresso americano e limitar o poder de Donald Trump nos dois últimos anos do seu mandato, com impactos sobre a economia.
Apesar de historicamente a bolsa americana subir após as Midterms por causa da redução das incertezas, especialistas consultados pela CNN Brasil acreditam que menos poder no Capitólio pode trazer volatilidade e dificultar a aprovação de reformas voltadas a solucionar os problemas fiscais enfrentados pelo país hoje.
O partido que está na presidência costuma perder assentos na Câmara dos Representantes nas Midterms. Desde a Segunda Guerra Mundial essa tendência não se confirmou apenas em duas eleições: em 1998, com o democrata Bill Clinton, e em 2002, com o republicano George W. Bush.
Com a aprovação de Trump em 32%, o menor patamar de seus dois mandatos, segundo pesquisa da CNN, a perda de assentos republicanos neste ano pode ser ainda maior.
Segundo Clifford Young, diretor de pesquisas da Ipsos, os democratas têm uma probabilidade de 85% de conquistar a maioria na Câmara dos Representantes e de 60% no caso do Senado.
Nos Estados Unidos, projetos de leis tributárias e orçamentárias dependem da aprovação das duas casas legislativas e da sanção presidencial. Uma mudança no comando do Congresso, portanto, pode dificultar a aprovação de novas leis.
Com um Congresso rachado, Trump teria dificuldade para aprovar novos cortes de impostos para empresas, por exemplo. E os democratas não conseguiriam aprovar um projeto de taxação de bilionários, porque o presidente certamente usaria seu poder de veto.
Para Wall Street, menos mudanças na legislação podem significar mais previsibilidade no curto prazo, segundo um relatório da corretora Charles Schwab.
Os economistas preveem uma situação de paradoxo na economia: sem grandes reformas, Wall Street pode sentir alívio com a redução da incerteza e o cenário mais previsível, mas o eleitor deve seguir insatisfeito com a crise do custo de vida.
A previsibilidade também não é garantia de mais estabilidade fiscal, segundo Thiago de Aragão, CEO da consultoria Arko Internacional.
“Pode ficar mais difícil aprovar novos cortes de impostos ou aumentos de gastos, mas o déficit continua lá, assim como as brigas pelo orçamento”, avalia Aragão. “O mercado pode gostar de ter menos mudanças pela frente, mas daí a isso trazer tranquilidade para os juros tem uma boa distância”, conclui.
O déficit fiscal americano – saldo negativo entre as receitas e as despesas – ficou em US$ 1,99 trilhão no ano fiscal de 2026, que terminou em setembro. É o terceiro maior déficit anual da história dos EUA, atrás apenas dos anos de pandemia, em 2020 e 2021.
A dívida federal em poder do público do país (que exclui os valores que o governo deve a seus próprios órgãos) chegou a US$ 32,5 trilhões e ultrapassou o tamanho da economia dos EUA pela primeira vez desde a Segunda Guerra Mundial.
Sem a perspectiva de reformas estruturais, por causa da falta de consenso, não há expectativas de grandes mudanças na trajetória de gastos e da dívida. E a política tarifária de Donald Trump também não foi capaz de reduzir o déficit dos Estados Unidos, como esperava o presidente.
O desequilíbrio das contas públicas leva investidores a exigirem mais retornos para aplicar no país, até mesmo na maior economia do mundo.
Se os democratas de fato tiverem mais poder no Congresso, as disputas pelo orçamento podem se ampliar e provocar novos “shutdowns“, as paralisações da máquina pública que interrompem serviços do governo. A instabilidade poderia elevar ainda mais a percepção de risco.
A inflação pressionada, em 3,7% nos 12 meses até setembro, tem atrasado a redução dos juros que era esperada após a pandemia. A taxa básica do país segue elevada, na faixa de 3,75% a 4%, e encarece o custo dos empréstimos.
Se o conflito no Irã se prolongar ainda mais ou se agravar, o petróleo pode continuar pressionado, mantendo a inflação elevada. Fontes relataram à CNN que Trump pode estar apenas esperando as Midterms passarem para retomar os ataques, ainda que uma decisão final não tenha sido tomada.
Reação de Trump pode trazer mais volatilidade
Além das complexidades do ponto de vista econômico, a turbulência política pode tornar o cenário mais nebuloso.
Especialistas avaliam que se os republicanos perderem espaço no Congresso, Trump pode tentar governar ainda mais por meio de medidas unilaterais, principalmente em áreas como tarifas e imigração.
Um governo Trump sem maioria no Congresso, portanto, pode significar menos mudanças nas leis, mas possivelmente mais imprevisibilidade nas decisões da Casa Branca.
“Minha aposta é que ele [Trump] tentaria compensar a perda de espaço no Congresso nas áreas em que consegue agir por conta própria, dentro dos limites legais e ilegais. E politicamente teria incentivo para isso: mostrar força e jogar nos democratas a responsabilidade pelo que não consegue entregar”, afirma Thiago de Aragão.
Um Congresso mais democrata também poderia iniciar investigações contra o presidente e até abrir um processo de impeachment.
Como só um terço do Senado é renovado agora, seria matematicamente impossível a oposição alcançar a maioria qualificada de 67 senadores para aprovar um impeachment. Não haveria uma destituição, mas o espetáculo político seria o suficiente para trazer mais turbulência.
James Henson, professor da Universidade do Texas, acredita que o resultado das Midterms pode deixar o governo Trump em uma situação que acontece tipicamente quando se sabe que o presidente não voltará ao cargo: ele se torna um ‘pato manco’, alguém que está na presidência, mas tem governabilidade.
É nesse contexto de perda de poder que as reações unilaterais podem se tornar mais frequentes, segundo Henson: “Isso [derrota republicana] tem o potencial de tornar Trump mais perigoso, em termos de seu desejo de agir fora do processo e de violar as normas da política e da democracia que existem há muito tempo nos Estados Unidos”, diz.
Uma vitória democrata poderia ter consequências ainda no setor privado. Com o controle da Câmara, espera-se que a oposição aumente a fiscalização sobre empresas de tecnologia. E essas investigações podem impactar o boom da inteligência artificial, que vem sustentando o avanço da economia e da bolsa.

Mercado pode ter alívio temporário
Apesar de todas as incertezas, os índices acionários costumam subir após as Midterms porque uma parte das dúvidas se dissipa.
Segundo a Charles Schwab, desde 1974, o S&P 500, principal índice da bolsa americana, subiu em média 12% nos seis meses seguintes às Eleições de Meio de Mandato. E teve retorno positivo nas 13 eleições desde então.
Mas como diz uma máxima muito usada nas finanças: “resultado passado não é garantia de retorno futuro”.
Thiago de Aragão afirma que a sequência positiva não significa que a eleição, sozinha, tenha provocado as altas. “Acho perfeitamente possível Wall Street comemorar um Congresso dividido e, pouco depois, voltar a se preocupar com inflação, juros ou alguma decisão do próprio Trump. O alívio com o resultado pode chegar antes de ficar claro como ele vai governar com esse resultado”, pondera.
Economistas também afirmam que no fim das contas, quem controla o Congresso importa, mas não determina sozinho o futuro da economia.
O conflito no Irã e seus efeitos sobre a inflação, as decisões do Federal Reserve sobre os juros e o desempenho do mercado de trabalho continuam sendo fatores fundamentais.



