A bolsa brasileira continua surfando a onda da diversificação internacional, que vem ganhando ainda mais impulso diante de um cenário geopolítico cada vez mais crítico. O movimento de investidores globais de reduzir a concentração dos portfólios nos EUA continua empurrando a bolsa para novos níveis – e o Ibovespa, nesse cenário, passou pela primeira vez a histórica marca dos 171 mil pontos.
O principal índice da B3 fechou o pregão de hoje aos 171.817 pontos, em alta de 3,33%, amparado pelas ações das maiores empresas da bolsa, sobretudo a Vale. Em um movimento de maior procura por ativos de risco, o dólar também manteve a trajetória de queda frente ao real. A moeda americana caiu 1,13%, cotada a R$ 5,32.
No entanto, quando outros elementos entram na conta, a história muda bastante. Apesar de ter alcançado a maior pontuação nominal da história, o Ibovespa ainda está longe de seus recordes quando ajustado pela inflação ou convertido para dólares.
O nível de 171.817 pontos representa apenas o recorde nominal, sem considerar esses efeitos. O recorde real é bem mais alto.
Em 20 de maio de 2008, o Ibovespa chegou a 73.517 pontos. Corrigido pelo IPCA acumulado desde então, esse patamar equivale hoje a cerca de 193 mil pontos. Para superá-lo, o índice ainda precisaria subir aproximadamente 12,5%.
Há também outra forma de olhar o recorde: o pico do índice em dólar. Nesse critério, a distância é ainda maior. Em 2008, o Ibovespa equivalia cerca de 44,5 mil pontos em dólar, num momento em que a moeda americana era negociada a R$ 1,65.
Com o dólar em torno de R$ 5,32, os 171 mil pontos atuais do Ibovespa correspondem a 32,3 mil pontos em dólar. Isso significa que o índice ainda teria de avançar cerca de 27,5% em moeda americana para igualar o recorde – o que, aos preços de hoje, implicaria superar a faixa dos 237 mil pontos.
A geopolítica tem sido o principal fator de influência no comportamento dos mercados recentemente. A retórica do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre uma eventual anexação da Groenlândia, que faz parte da Dinamarca, tem inspirado temores sobre uma guerra comercial internacional.
Sob esse pano de fundo, investidores vêm a possibilidade de uma intensificação do fluxo comercial entre a Europa e os países do Mercosul após a aprovação do acordo entre os blocos. A aposta é que as ações de Trump acabem por reforçar ainda mais a corrente de negócios entre Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai e as nações da União Europeia.
No discurso em Davos nesta quarta-feira (21), Trump deu um passo atrás na escalada dos conflitos ao descartar o uso da força militar para obter o território autônomo, o que contribuiu para um dia mais favorável a ativos de risco hoje. Mesmo assim, o republicano tem sustentado as ameaças tarifárias que pretende usar para anexar a Groenlândia. Trump afirmou que “não há volta” em seu objetivo de controlar a ilha.
O uso de um tom menos agressivo no dia sobre o tema ajudou a impulsionar não só a bolsa brasileira, mas também os principais índices do mercado americano. As bolsas de Nova York reforçaram as altas após o discurso: o S&P 500 subiu 1,16%, o Nasdaq avançou 1,18% e o Dow Jones teve alta de 1,21%.
Na cena local, os investidores avaliam os dados da mais recente pesquisa eleitoral da Atlas/Intel. O levantamento mostrou queda na vantagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre Flávio Bolsonaro, o filho mais velho do ex-presidente Jair Bolsonaro, em um eventual embate entre os dois nas urnas.
Segundo a sondagem, a diferença no segundo turno caiu para 4 pontos percentuais, com o petista marcando 49% dos votos contra 45% do senador.



