A transformação de resíduos industriais em energia renovável é uma das frentes de expansão da Âmbar Energia, unidade de negócios de energia da J&F. A companhia anunciou um investimento de R$ 65 milhões para ampliar a produção de biometano a partir do biogás gerado em operações da Friboi, braço de proteína bovina do grupo.
O projeto será desenvolvido inicialmente em três unidades, Campo Grande II, em Mato Grosso do Sul, e Andradina e Lins, no interior de São Paulo. A expectativa é adicionar mais de 14 milhões de metros cúbicos de biometano por ano à matriz energética da companhia, ampliando a substituição de combustíveis fósseis por uma fonte renovável.
A iniciativa começou a ser estruturada em 2021, quando a Friboi implantou biodigestores em nove plantas frigoríficas para capturar o metano gerado no tratamento de efluentes industriais. O gás, que antes precisava ser queimado para evitar a emissão direta na atmosfera, passou a ser aproveitado como fonte energética.
Segundo Marcelo Dresch, gerente de Sustentabilidade e Biogás da Âmbar, o avanço agora está em transformar esse biogás em biometano, um combustível com maior valor agregado e diferentes possibilidades de aplicação.
“Quando a gente olha para esse investimento, vimos uma oportunidade porque a Friboi já tinha feito os biodigestores para reduzir as emissões de gases de efeito estufa. Esse gás estava sendo queimado e agora conseguimos fazer o tratamento, removendo componentes como CO₂ e H₂S, transformando em biometano”, afirmou.
O processo de purificação permite que o combustível atenda aos padrões exigidos pela ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis), possibilitando o uso em veículos, equipamentos industriais e operações que atualmente dependem de combustíveis fósseis.
Antes da expansão para o biometano, parte do biogás capturado já era utilizada para geração de energia elétrica. Em 2023, quatro unidades da Friboi, localizada em Ituiutaba (MG), Mozarlândia (GO), Barra do Garças (MT) e Andradina (SP), passaram a gerar eletricidade a partir do metano capturado nos biodigestores.
O programa já acumulou mais de 13 mil MWh de energia renovável gerada, volume suficiente para abastecer aproximadamente 7 mil residências brasileiras durante um ano. A iniciativa também evitou a emissão de mais de 3 mil toneladas de gases de efeito estufa.
Com o novo investimento, Campo Grande II será a primeira unidade a receber a ampliação. A segunda máquina de produção deve entrar em operação em agosto. A planta, que já possui uma estrutura instalada há cerca de três anos, deve alcançar a autossuficiência energética com o uso do biometano.
“A primeira máquina já supre cerca de 80% da necessidade de gás natural da planta. Com a segunda, ela passa a ser 100% autossustentável e ainda terá um excedente que poderá ser comercializado para terceiros”, explicou Dresch.
A previsão é que a unidade de Andradina entre em operação em janeiro de 2027, enquanto Lins deve iniciar a produção em janeiro de 2028.
Além do uso nas próprias unidades industriais, a Âmbar também avalia direcionar parte da produção de biometano para a logística do grupo J&F, principalmente no transporte pesado, segmento em que o combustível renovável pode substituir o diesel.
A estratégia está conectada a outros negócios do conglomerado, como a Green Cargo, empresa voltada à locação e venda de caminhões movidos a gás natural e biometano, e a Logás, responsável pela logística do combustível em regiões onde não existe infraestrutura de distribuição por gasodutos.
Segundo o Gerente, a ideia é criar um ciclo integrado, em que o resíduo gerado pelas operações industriais se transforma em combustível utilizado novamente dentro da própria cadeia produtiva.
“Quando a gente olha para cada operação, avaliamos se é possível fazer o consumo internamente, o autoconsumo. Quando isso não for possível, podemos direcionar para terceiros. No transporte pesado, existe uma grande oportunidade, porque é um setor que consome muito diesel e pode fazer essa substituição pelo biometano”, afirmou.
A companhia avalia que essa integração pode criar os chamados corredores verdes, conectando unidades produtoras de biometano a operações logísticas do grupo, com abastecimento de caminhões movidos a gás renovável.
A companhia estima que a produção anual de 14 milhões de metros cúbicos de biometano poderá substituir cerca de 12 milhões de litros de diesel e evitar aproximadamente 30 mil toneladas de CO₂ por ano.
Segundo Dresch, o projeto também abre espaço para novas iniciativas dentro do grupo. A Âmbar avalia o aproveitamento de resíduos de outras operações da J&F, incluindo a Seara, além de estudos envolvendo resíduos de confinamento de gado de corte para produção de biometano.
“A gente tem a matéria-prima para produção do biogás, tem o consumo e consegue criar uma economia circular. Resíduos industriais passam a gerar valor dentro da própria cadeia produtiva”, afirmou.
Para a Âmbar, o biometano representa uma evolução da estratégia de energia renovável do grupo. Enquanto o biogás era utilizado principalmente para geração elétrica, o combustível purificado amplia as possibilidades de uso e pode atender diferentes setores da economia.
“Juntos, conseguimos unir a capilaridade operacional da JBS com a nossa expertise em biogás e biometano para construir uma solução que vai além de um projeto pontual. É uma plataforma de descarbonização com potencial de crescimento dentro do grupo e para o mercado”, destacou Marcelo Dresch.



