A ampliação da produção de biocombustíveis e o aproveitamento de matérias-primas agrícolas para gerar energia e insumos estão entre as frentes da transição energética brasileira. Com o aumento das misturas obrigatórias de etanol e biodiesel aos combustíveis fósseis, o agronegócio passou a ocupar espaço também no abastecimento energético, além de fornecer alimentos e matérias-primas para a indústria.
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O tema esteve na pauta da 3ª Reunião Extraordinária do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), realizada nesta sexta-feira (06), em Brasília, na sede do Ministério de Minas e Energia (MME). O encontro contou com a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do vice-presidente Geraldo Alckmin e de representantes do governo federal. Entre os assuntos discutidos estiveram o planejamento energético nacional, a expansão das fontes renováveis e o fortalecimento dos biocombustíveis.
Durante a reunião, Lula defendeu a preservação ambiental como alternativa econômica para os produtores rurais e como possibilidade de atração de investimentos. Segundo o presidente, é necessário demonstrar que conservar a vegetação pode ser mais rentável do que derrubá-la para ampliar áreas de pastagem. Ele também mencionou a existência de linhas de financiamento e oportunidades econômicas associadas à agenda ambiental.
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Alckmin destacou a participação dos biocombustíveis na matriz energética brasileira e citou o percentual de 32% de etanol anidro na gasolina, adotado pelo país em agosto de 2026. O vice-presidente também relacionou a disponibilidade de energia renovável à crescente demanda mundial por eletricidade, especialmente para atender à expansão da inteligência artificial.
Mistura de biocombustíveis
A evolução dos percentuais obrigatórios de mistura de biocombustíveis aos combustíveis fósseis é um dos principais instrumentos utilizados pelo Brasil para ampliar o uso de fontes renováveis no transporte.
Na gasolina, a participação do etanol anidro passou de E27 para E30 e, posteriormente, E32, em vigor desde 1º de agosto de 2026. Há perspectiva de elevação para E35. No diesel, a mistura obrigatória de biodiesel avançou de B10 para B12, B14 e B15, percentual adotado em 1º de agosto de 2025, com possibilidade de novos aumentos.
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O ministro da Agricultura e Pecuária, André de Paula, afirmou que a produção agropecuária contribui simultaneamente para o abastecimento alimentar e energético. Para ele, as duas atividades são complementares, e os biocombustíveis já representam o principal instrumento de descarbonização do transporte no país.
A ampliação dessas misturas permite reduzir as emissões de gases de efeito estufa sem depender da substituição imediata da frota de veículos. Também pode diminuir a necessidade de importação de combustíveis fósseis e estimular investimentos industriais e a geração de empregos no interior do país.
O modelo brasileiro reúne diferentes cadeias produtivas, com destaque para etanol, biodiesel, biometano, bioeletricidade e combustível sustentável de aviação (SAF). Parte da contribuição dessas atividades está no aproveitamento de resíduos e coprodutos que retornam à cadeia agropecuária, especialmente na forma de ingredientes para alimentação animal.
Coprodutos conectam energia e produção de proteína
A integração entre as cadeias de energia e alimentos também ocorre pelo aproveitamento dos coprodutos gerados durante o processamento das matérias-primas agrícolas. Esses materiais agregam valor à produção e fornecem ingredientes para a alimentação de bovinos, suínos, aves e outros animais.
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Na indústria de etanol de milho, cada tonelada de matéria-prima processada rende aproximadamente 420 litros de etanol e 300 quilos de DDG (grãos secos de destilaria). O coproduto é utilizado na alimentação animal e representa uma fonte de nutrientes para as cadeias de produção de carne, leite e outras proteínas.
Na indústria sucroenergética, o processamento da cana-de-açúcar gera açúcar e etanol, enquanto o bagaço é aproveitado na produção de bioeletricidade. Outros resíduos da atividade também podem ser destinados à produção de biogás, biometano e fertilizantes orgânicos.
Na cadeia do biodiesel, o processamento de oleaginosas, como a soja, resulta na produção de farelo proteico, utilizado na alimentação animal. Dessa forma, a mesma matéria-prima atende à indústria de combustíveis e ao abastecimento das cadeias de proteína animal.
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O aproveitamento desses coprodutos amplia o rendimento econômico das matérias-primas, diversifica as possibilidades de receita e reduz o descarte de resíduos. A integração também estabelece uma conexão direta entre a expansão dos biocombustíveis e a disponibilidade de ingredientes para a nutrição animal.
CNPE define medidas para o planejamento energético
Além das discussões sobre biocombustíveis, a reunião do Conselho Nacional de Política Energética incluiu deliberações relacionadas à organização e à governança da política energética brasileira.
Entre os principais pontos esteve a aprovação do Plano Nacional de Transição Energética (Plante), que contará com um grupo técnico responsável por apoiar sua implementação.
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O conselho também tratou de diretrizes para a elaboração de um mapa do caminho para uma transição energética justa e planejada. A proposta prevê a redução gradual da dependência de combustíveis fósseis e a identificação de mecanismos de financiamento para viabilizar as mudanças na matriz energética.
Outro tema foi a Estratégia Nacional de Dados Energéticos 2027–2031, voltada à organização das informações utilizadas no planejamento do setor.
A pauta incluiu ainda a criação de grupos de trabalho sobre eletromobilidade e valorização energética de resíduos, além de medidas relacionadas aos percentuais de mistura de biocombustíveis nos derivados de petróleo.
Também foi discutido o ajuste das regras do Fator de Uso do Combustível Renovável (FUCR), no âmbito do Programa Mobilidade Verde e Inovação (Mover). A alteração prevê estabelecer a aplicação do fator em base energética.
As medidas discutidas pelo CNPE abrangem, portanto, desde o planejamento de longo prazo até regras específicas para combustíveis renováveis, aproveitamento de resíduos e mobilidade. Para o agronegócio, a agenda envolve tanto a ampliação da demanda por matérias-primas agrícolas quanto o aproveitamento industrial de coprodutos destinados à alimentação animal e à geração de energia.
Fonte: O Presente Rural



