O Carnaval da Bahia e o racismo que patrocina uns e invisibiliza outros


Por Zé Américo Silva*

O Carnaval da Bahia é vendido ao mundo como a maior celebração popular do planeta, símbolo de alegria, diversidade e identidade cultural. Mas por trás da festa, dos trios elétricos e da estética que encanta turistas, existe uma contradição profunda, histórica e vergonhosa: o racismo estrutural que define quem recebe patrocínio, quem ocupa os espaços de poder e quem segue sendo apenas força de trabalho invisível.

Os blocos afros — pilares da identidade cultural do carnaval baiano — enfrentam, ano após ano, enorme dificuldade para captar recursos junto à iniciativa privada. Falta patrocínio, falta apoio institucional, falta reconhecimento econômico. Ao mesmo tempo, camarotes milionários, voltados quase exclusivamente para turistas e elites econômicas, concentram volumosos investimentos de grandes marcas nacionais e multinacionais.

A contradição salta aos olhos. Nos camarotes patrocinados, majoritariamente brancos se divertem. Do lado de fora — e também dentro deles — homens e mulheres negros trabalham: fazem a segurança, servem bebidas, cozinham, limpam, fazem manutenção e lavam sanitários. A cena se repete como um retrato fiel da desigualdade racial brasileira. É o carnaval como metáfora do país.

Isso não é acaso. É racismo estrutural operando com naturalidade, travestido de “estratégia de marketing”, “retorno de marca” ou “perfil de público”. Quando empresas escolhem investir milhões em espaços elitizados e ignorar manifestações culturais que representam a alma do povo baiano, elas fazem uma escolha política — ainda que tentem negá-la.

Mais recentemente, essa realidade foi denunciada publicamente por Vovô do Ilê, presidente do Ilê Aiyê – Associação Cultural, primeiro bloco afro do Brasil, ativista histórico do movimento negro e referência na luta pela valorização da cultura afro-brasileira, membro do Conselho da República. Seu alerta não é novo, mas segue atual: os blocos afros sobrevivem à base da resistência, do voluntarismo e do amor à cultura, enquanto o mercado fecha portas, impõe barreiras e trata essas manifestações como periféricas.

É preciso dizer com todas as letras: sem a cultura africana, o carnaval da Bahia não existiria como o conhecemos. O samba-reggae, os tambores, os ritmos, as danças, a estética, a corporeidade, a religiosidade e até a organização dos desfiles têm origem direta nas tradições africanas e afro-brasileiras.

A própria popularidade internacional do carnaval baiano nasce dessa herança.

No entanto, essa mesma cultura que gera bilhões em turismo, mídia espontânea e consumo é empurrada para a margem quando se trata de investimento e reconhecimento financeiro. As empresas exploram o imaginário negro para vender produtos, mas se recusam a financiar os sujeitos e instituições que mantêm essa cultura viva.

Mais grave ainda é a ausência de uma política pública robusta, contínua e estrutural que faça jus à importância dos blocos afros. O apoio governamental, quando existe, é pontual, insuficiente e frequentemente tratado como favor — e não como dever do Estado. Cultura afro não pode ser vista como “segmento”; ela é base fundante da identidade baiana.

Não se trata de caridade empresarial, mas de responsabilidade social, econômica e histórica. Patrocinar blocos afros é investir em identidade, pertencimento, educação cultural e reparação simbólica. É reconhecer que o lucro do carnaval não pode continuar sendo apropriado por poucos enquanto a cultura que o sustenta permanece precarizada.

Denunciar esse modelo é urgente. Gritar sobre isso é necessário. O silêncio apenas perpetua a desigualdade. O carnaval da Bahia não pode continuar reproduzindo, em pleno século XXI, a lógica da senzala modernizada, onde uns festejam e outros apenas servem.

Valorizar os blocos afros não é apenas uma questão cultural — é um ato de justiça histórica. Sem eles, o carnaval perde sua alma. E uma festa sem alma pode até dar lucro, mas jamais representará o povo que a criou.

*Zé Américo Silva é jornalista e publicitário



Veja a Matéria Completa

Cookie policy
We use our own and third party cookies to allow us to understand how the site is used and to support our marketing campaigns.

Hot daily news right into your inbox.