Por trás da cerveja sem álcool, uma nova oportunidade de vender | Blogs | CNN Brasil


Uma cerveja no almoço durante a semana ou uma rodada sem álcool no encontro com amigos. Para o consumidor, essas escolhas podem representar maneiras de adaptar a bebida à rotina. Para as fabricantes, abrem uma possibilidade valiosa: vender em momentos nos quais a cerveja talvez nem entrasse no pedido.

Os resultados divulgados por Heineken e Ambev na quarta (28) e na quinta-feira (29), respectivamente, mostram que a aposta nas versões sem álcool já se traduz em crescimento das vendas.

Na Ambev, o volume de cervejas zero álcool vendido no Brasil cresceu 42,9% no terceiro trimestre, em relação ao mesmo período de 2025. O contraste chama atenção: o volume total da operação de cerveja da companhia no país avançou apenas 0,5%.

Na Heineken, o volume global do portfólio de bebidas de baixo e zero teor alcoólico também cresceu na casa dos dois dígitos no trimestre, acima da expansão de 4,8% do volume total do grupo. O recorte inclui produtos com menos álcool, além das versões zero e também reforçam a importância dessas alternativas para o crescimento das fabricantes.

Mas de onde vêm essas vendas? A resposta para essa pergunta ajuda a entender por que a categoria interessa tanto às empresas.

Segundo Anna Paula Alves, diretora de Categoria da Ambev, dados globais da AB InBev, controladora da companhia, indicam que cerca de 60% do volume do segmento nasce de novas ocasiões e novos consumidores. É uma estimativa mundial, que não deve ser tomada como retrato específico do Brasil.

“Ela funciona como uma ponte direta para novos momentos de consumo para a cerveja”, afirma a executiva.

A diferença faz sentido na prática. Se alguém decide apenas trocar a cerveja tradicional pela zero da mesma fabricante, a empresa mantém a venda. Quando conquista um pedido que antes iria para outra bebida, pode ampliar seu negócio.

Rafael Rizzi, vice-presidente de Sustentabilidade e Assuntos Corporativos da Heineken no Brasil, vê uma mudança na maneira como o consumidor escolhe a bebida.

“O consumidor não deixou de valorizar a socialização ou a experiência de tomar uma cerveja, o que mudou é que hoje há uma procura maior por liberdade para escolher o que beber de acordo com cada ocasião”, afirma.

Na avaliação do executivo, a versão zero está ampliando sua presença para além das situações em que a pessoa precisa evitar o álcool, como quando vai dirigir. A oportunidade está em participar de outros momentos da rotina, mesmo entre consumidores que continuam escolhendo a cerveja tradicional em outras ocasiões.

A Ambev relata também o comportamento chamado de “zebra”: alternar versões com e sem álcool durante um encontro. Nessa leitura, o público potencial vai além de quem deixou de beber. Inclui quem quer escolher quando consumir álcool.

A multiplicação de rótulos faz parte dessa estratégia. Na Heineken, Rafael explica que a atuação deixou de se concentrar em um único produto e passou a envolver um portfólio, com Heineken 0.0, Sol Zero e a recém-lançada Amstel 0.0, para alcançar diferentes públicos.

Na Ambev, Anna Paula destaca a oferta em diferentes ocasiões e preços. A Skol Zero Zero já representa mais de 10% do volume de cervejas zero álcool da companhia. O dado mostra como um lançamento pode ganhar espaço dentro do segmento, apesar de não revelar quanto dessas vendas foi acrescentado ao negócio.

Também há sinais de experimentação. Entre os primeiros compradores de Spaten Pro no Zé Delivery, 51% em São Paulo e 44% no Rio de Janeiro estavam comprando a categoria zero álcool pela primeira vez na plataforma, de acordo com a Ambev.

Isso não significa que nunca tivessem consumido cerveja sem álcool, mas mostra a chegada de compradores à categoria através deste canal.

O próximo desafio é transformar a experimentação em compras recorrentes. Para Anna Paula, isso depende da combinação da experiência com o produto e com a facilidade de encontrá-lo.

“O consumidor adota a cerveja zero de forma recorrente quando prova a qualidade do líquido e a encontra facilmente no seu bar favorito ou no mercado do bairro”, afirma.

A Ambev diz concentrar esforços na ampliação da distribuição e na presença das marcas em eventos. Na Heineken, Rafael aponta também uma barreira cultural: tornar a categoria mais familiar e mostrar que ela pode fazer parte de diferentes momentos, sem ficar associada apenas a situações de restrição.

Ou seja, o desafio agora passa por duas etapas: entrar nas opções que o consumidor considera e estar disponível quando ele decidir comprar. É assim que as fabricantes pretendem transformar uma mudança de hábito em mais vendas nos próximos trimestres.



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