Durante muito tempo, a política norte-americana foi interpretada a partir de categorias relativamente estáveis. Trabalhadores brancos sem diploma universitário tendiam aos republicanos, minorias raciais aos democratas, mulheres de um lado, homens de outro.
Essas divisões nunca foram absolutas, mas ajudavam a explicar a competição eleitoral. A vitória de Donald Trump, particularmente no pleito de 2024, mostrou que continuam importantes, embora sejam cada vez menos suficientes.
Trump retornou à Presidência com uma coalizão mais diversa do que aquelas que o elegeram em 2016 ou o apoiaram em 2020. Segundo o Pew Research Center, conquistou 48% dos votos latinos, aproximando-se de Kamala Harris, que recebeu 51%. Também ampliou seu desempenho entre homens jovens e eleitores negros, embora a maioria destes últimos tenha permanecido democrata.
O significado dessas mudanças merece cuidado. Não estamos necessariamente diante de uma conversão ideológica duradoura desses segmentos ao conservadorismo. Parte importante do movimento de 2024 resultou de diferenças de participação eleitoral, e não de grandes transferências de votos entre os partidos. Trump conseguiu mobilizar eleitores que os republicanos tradicionalmente tinham mais dificuldade de alcançar.
Essa distinção é fundamental para compreender as Midterms (Eleições de Meio de Mandato) desse ano. Eleições legislativas dependem de coalizões diferentes das presidenciais. A presença de Trump na disputa de 2024 ajudou a atrair eleitores pouco habituados à política. Sem seu nome na cédula, a questão é saber quanto desse engajamento pode ser sustentado pelos candidatos republicanos.
O problema também existe entre os democratas, ainda que por razões distintas. Eleitores jovens e integrantes de minorias raciais costumam demonstrar maior proximidade com o partido, mas essa preferência não se traduz automaticamente em comparecimento. A rejeição a Trump pode funcionar como incentivo, sem necessariamente indicar entusiasmo com a oposição.
Há, além disso, uma transformação mais profunda na maneira como os norte-americanos organizam suas identidades políticas. Escolaridade, território e condição econômica atravessam as diferenças raciais e geracionais. Um latino com diploma universitário, morador de uma grande cidade, pode ter prioridades muito diferentes das de um latino sem formação superior que vive em uma região industrial. O mesmo vale para mulheres, jovens e trabalhadores.
A eleição de 2024 confirmou a relevância da escolaridade. Trump venceu entre pessoas sem diploma universitário, enquanto Kamala obteve vantagem entre os diplomados. Essa divisão está relacionada a experiências distintas com a globalização, a mobilidade econômica e a confiança nas instituições. Reduzi-la a uma oposição entre ricos e pobres, entretanto, seria equivocado. Escolaridade e renda não são sinônimos, afinal.
As pesquisas desse outubro sugerem novos deslocamentos. Entre os eleitores registrados, o Pew identifica preferência democrata de 51% a 24% entre latinos e de 51% a 23% entre jovens de 18 a 29 anos. Entre os homens, há empate de 42% para cada partido. São retratos das intenções atuais, não garantias de comportamento nas urnas.
O erro seria imaginar que cada um desses grupos se move coletivamente, como se compartilhasse as mesmas expectativas sobre economia, imigração, segurança ou direitos individuais. A experiência cotidiana pode aproximar eleitores de origens diferentes e separar pessoas que pertencem à mesma categoria demográfica.
É por isso que a disputa de 2026 não pode ser entendida apenas como uma competição pelo eleitor indeciso. Importa também o eleitor descontente que permanece fiel ao partido, aquele que troca de preferência sem mudar suas convicções fundamentais e, sobretudo, aquele que decide participar ou ficar em casa.
Em 2022, apenas 46% dos eleitores elegíveis participaram das Midterms, segundo o Pew. A composição do eleitorado efetivo, portanto, pode ser tão importante quanto a distribuição das preferências na população.
Talvez a pergunta mais interessante não seja quem é o eleitor decisivo da América de Trump, mas por que continuamos procurando um único perfil capaz de explicá-la. A sociedade norte-americana tornou-se politicamente mais complexa, e as coalizões partidárias combinam lealdades persistentes com vínculos cada vez mais condicionados por circunstâncias específicas.
As urnas, na próxima semana, ajudarão a esclarecer quais mudanças de 2024 expressam realinhamentos duradouros e quais dependeram de uma eleição, de um candidato e de um momento particular. A diferença entre essas duas possibilidades diz muito sobre o futuro dos partidos norte-americanos. Estaremos acompanhando de perto.



