Recuperações judiciais no agronegócio sobem 33% no 1º trimestre

Os pedidos de recuperação judicial no agronegócio brasileiro somaram 517 no primeiro trimestre de 2026, alta de 33% em relação ao mesmo período do ano passado, quando foram registrados 389 casos,  segundo levantamento da NEOT Tecnologia e Informação.

Também houve sete pedidos de recuperação extrajudicial, frente a quatro um ano antes, elevando o total de processos para 524, avanço de 33,3%. 

De acordo com o estudo, o passivo total estimado das empresas em recuperação judicial alcança R$ 38 bilhões. Desse montante, R$ 31,5 bilhões estão concentrados em operações com dívidas superiores a R$ 30 milhões, enquanto os demais R$ 6,5 bilhões correspondem a empresas com passivos de até esse valor.

Segundo a NEOT, o aumento dos pedidos ocorre após um ano de recorde histórico em recuperações judiciais no setor. Em 2025, foram registrados 1.990 pedidos, crescimento de 56,4% sobre 2024. A consultoria atribui a continuidade da pressão financeira à combinação de eventos climáticos, queda nos preços das commodities, juros elevados e restrição ao crédito.

Os produtores rurais concentraram 305 dos 517 pedidos de recuperação judicial, o equivalente a 59% do total. As revendas e distribuidoras de insumos responderam por 83 processos (16%), seguidas por agroindústrias e usinas, com 62 casos (12%), empresas de logística, armazenagem e transporte, com 41 (8%), e indústrias de insumos e fertilizantes, com 26 processos (5%).

Na avaliação da consultoria, a predominância dos produtores rurais reflete os impactos da quebra de safra e da redução dos preços das commodities

Já o aumento de recuperações entre revendas de insumos está relacionado ao modelo de financiamento conhecido como barter, no qual empresas recebem grãos como pagamento pelos insumos fornecidos aos produtores. Com safras abaixo do esperado, parte desses contratos não foi cumprida, reduzindo a liquidez dessas companhias.

Atividades econômicas

Entre as atividades econômicas, a cadeia da soja concentrou 45,1% dos casos registrados no trimestre, com El Niño, queda de preço internacional e insumos caros como principais fatores de pressão.

A pecuária de corte respondeu por 16,5%, seguida pela cadeia da cana-de-açúcar, com 9,1%. As demais ocorrências envolveram milho, algodão, revendas e empresas de logística, reunidas na categoria “outras”, com 29,3% dos processos. O relatório ressalta que esses percentuais se referem a toda a cadeia produtiva de cada cultura, e não apenas aos produtores rurais.

Regionalmente, Goiás liderou o número de recuperações judiciais, com 113 pedidos, equivalentes a 22% do total nacional. Mato Grosso aparece na sequência, com 98 casos (19%), seguido por Rio Grande do Sul (12%), Minas Gerais (11%), Paraná (11%) e Mato Grosso do Sul (8%). Os demais Estados, incluindo os da região do Matopiba, concentraram 92 processos.

Perfil dos devedores

O levantamento mostra ainda que as médias empresas representam aproximadamente 54% dos devedores em recuperação judicial, enquanto pequenas empresas e microempreendedores individuais correspondem a cerca de 35% e grandes empresas, a 11%. Entre os produtores rurais, a maior concentração de casos está na faixa de propriedades entre 501 e 2 mil hectares, que reúne 35% das ocorrências.

Em relação ao porte das dívidas, 207 empresas possuem passivos de até R$ 10 milhões e outras 129 acumulam débitos entre R$ 10 milhões e R$ 30 milhões. Na outra ponta, dez empresas registram passivos superiores a R$ 300 milhões. Apesar de representarem apenas 2% dos processos, essas companhias concentram parte relevante da exposição financeira do setor, segundo a consultoria.

A análise das petições judiciais aponta que os fatores mais recorrentes alegados pelos devedores foram frustração de safra e eventos climáticos extremos, presentes em 85% dos processos, seguidos pela queda dos preços das commodities (75%), descasamento entre custos de insumos e preços de venda (68%), juros elevados (60%) e endividamento decorrente de investimentos realizados nos anos anteriores (52%). 

Também aparecem entre os motivos inadimplência de terceiros, restrição ao crédito bancário, exposição cambial sem proteção, custos logísticos elevados e o ciclo desfavorável da pecuária de corte. Uma mesma empresa pode apresentar mais de um desses fatores no pedido de recuperação judicial.

Credores

O levantamento mostra ainda que bancos comerciais e públicos figuram como credores em mais de 90% dos processos. Cooperativas de crédito aparecem em 60% a 70% dos casos, enquanto empresas de insumos estão presentes em cerca de 55% das recuperações judiciais. Tradings de grãos participam de 30% a 40% dos processos e fundos ligados ao mercado de capitais, como Fiagros e FIDCs, aparecem em 15% a 20% das ações analisadas.

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