Exigências da UE geram impacto limitado nas exportações de carnes do Brasil

A relação comercial entre o Brasil e a União Europeia entra em uma fase de maior exigência regulatória, especialmente no setor de proteínas animais. As novas regras europeias ampliam a pressão sobre rastreabilidade, controle sanitário e comprovação documental em toda a cadeia produtiva, ao mesmo tempo em que o mercado global de carnes passa por ajustes estruturais de oferta e demanda.

Segundo o analista Fernando Henrique Iglesias, da Safras e Mercado, o Brasil não enfrenta um impacto imediato nas exportações, mas precisa acelerar a adaptação às exigências europeias.

Ele destaca que o país deve comprovar, com documentação detalhada, que todas as etapas de produção estão livres de substâncias restritas pelo bloco europeu, especialmente no que diz respeito ao uso de antimicrobianos.

O analista lembra que essas regras não são recentes e já vinham sendo comunicadas pela União Europeia há anos, mas agora entram em fase mais rigorosa de cobrança. No caso de aves e suínos, a adaptação tende a ser mais simples, enquanto na bovinocultura o processo é mais complexo, exigindo maior controle e possível reorganização da produção.

Uma das alternativas discutidas pelo setor é a segregação de rebanhos por região, o que poderia permitir a manutenção parcial do acesso ao mercado europeu.

Apesar disso, Iglesias avalia que a União Europeia atua como um “mercado vitrine”, cujas exigências podem ser replicadas por outros grandes importadores, como a China, ampliando o efeito indireto das mudanças regulatórias.

Na visão de Rodrigo Costa, consultor de mercado, o cenário europeu também precisa ser analisado sob a ótica estrutural. Ele observa que o bloco adota frequentemente medidas com caráter protecionista, em parte por não conseguir competir em igualdade com produtos sul-americanos.

Ainda assim, a Europa enfrenta um problema interno e desde 2018, há redução do rebanho bovino, além de custos elevados de produção e dificuldades de sucessão familiar no campo, com menor interesse das novas gerações pela atividade agropecuária. Isso aumenta a dependência europeia por importações de proteína animal.

Costa destaca que, embora a União Europeia seja um parceiro importante, especialmente na indústria de transformação, ela não é o principal destino da carne bovina brasileira. Em maio, as exportações do Brasil cresceram 5,82% em relação a abril, impulsionadas por um mercado global com oferta restrita e preços elevados, o que favorece a competitividade brasileira.

No acumulado do ano, o Brasil exportou cerca de 22 mil toneladas de carne bovina para a União Europeia, enquanto os Estados Unidos receberam quase 148 mil toneladas, evidenciando maior relevância do mercado norte-americano para o setor.

Segundo Costa, ao dolarizar o preço da arroba do boi, países concorrentes apresentam custos mais elevados, a Argentina é cerca de US$ 19,39/@ mais cara que o Brasil, o Uruguai US$ 15,92/@, a Austrália cerca de US$ 29,88/@ e os Estados Unidos aproximadamente US$ 57,49/@ acima do nível brasileiro.

“Esse diferencial reforça a posição do Brasil como um dos fornecedores mais competitivos do mundo em volume e preço”, informou Costa.

Ele acrescenta que países como Argentina e Paraguai, embora exportadores, também enfrentam limitações de rebanho e acabam pressionando seus mercados internos, o que contribui para inflação doméstica. Nesse contexto, a carne brasileira ganha espaço em um movimento de triangulação comercial, sustentando o fluxo global de exportações.

Já o analista Geraldo Isoldi, da Terra Investimentos, reforça que o debate com a União Europeia vem sendo acompanhado desde meados de maio e está diretamente ligado a uma postura protecionista do bloco, que busca proteger sua produção agrícola por meio de exigências sanitárias e ambientais. Ele lembra que essas práticas são recorrentes na política comercial europeia.

Isoldi contextualiza que o maior volume já exportado pelo Brasil para ao bloco ocorreu em 2006, quando foram embarcadas cerca de 247 mil toneladas de carne bovina, em um período anterior à consolidação da China como principal compradora global. Após esse pico, os volumes caíram e ficaram em patamares mais baixos por muitos anos.

Segundo ele, houve uma recuperação recente, com cerca de 107 mil toneladas exportadas em 2025, movimento que estaria parcialmente relacionado à antecipação de expectativas sobre acordos comerciais entre Mercosul e União Europeia.

Ainda assim, o analista ressalta que a Europa é apenas o terceiro maior comprador da carne brasileira, atrás de mercados como a China, que responde por cerca de 60% das compras, o que reduz o peso estratégico do bloco europeu na balança do setor.

Dados da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) indicam que o consumo per capita de carne bovina na União Europeia está em estagnação ou queda, sendo inferior ao consumo de carnes suína e de frango, o que reforça a pressão estrutural sobre o setor produtivo europeu e a dependência crescente de importações.

As autoridades brasileiras têm prazo até dia 03 de setembro deste ano para reenviar a documentação exigida pela União Europeia e comprovar a conformidade sanitária da carne exportada. Até lá, os analistas apontam que o cenário permanece inalterado, com o comércio ativo e o Brasil mantendo forte posição competitiva.

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