Fed mantém juros, mas tom duro e revisão da inflação elevam cautela no mercado


A decisão do Federal Reserve (Fed) de manter a taxa básica de juros entre 3,50% e 3,75% veio em linha com o esperado, mas o conjunto da comunicação, com novas projeções econômicas e mudança de tom, foi interpretado como mais duro (hawkish) do que o antecipado pelos investidores.

O destaque ficou com a revisão altista da inflação. Segundo o Comitê Federal de Mercado Aberto (FOMC), os preços seguem acima da meta de 2% e devem permanecer pressionados por mais tempo, refletindo, entre outros fatores, choques de oferta no setor de energia. A projeção para o índice cheio saltou para 3,6% neste ano, ante 2,7% anteriormente, enquanto o núcleo avançou de 2,7% para 3,3%.

A decisão de manter os juros foi unânime, mas o chamado “dot plot” revelou um comitê dividido sobre os próximos passos: metade dos dirigentes prevê ao menos uma alta adicional até o fim de 2026, enquanto a outra metade aposta na manutenção das taxas. Para 2027, também há expectativa relevante de elevação em relação ao patamar atual.

Na leitura de Andressa Durão, economista do ASA, a combinação de manutenção da taxa com projeções mais restritivas reforça o caráter hawkish da decisão. “A mediana das projeções veio indicando uma alta este ano, enquanto as estimativas de inflação foram significativamente revisadas para cima e permanecem acima da meta até 2028”, afirma.

“O comitê surpreendeu com um tom mais duro, tanto no comunicado quanto nas projeções”, reforça Marianna Costa, economista-chefe da Mirae Asset, que destaca que o comunicado trouxe ênfase clara no compromisso com a estabilidade de preços.

Os mercados reagiram imediatamente, com o dólar e os juros dos Treasuries avançando na sequência, e impactando na Bolsa brasileira. “As novas projeções indicam juros mais elevados por mais tempo, o que aumenta a atratividade dos ativos americanos e pressiona moedas emergentes”, explica Leonel Oliveira Matos, da Stonex. O dólar voltou a operar acima de R$ 5, e o índice DXY superou os 100 pontos.

Mudanças na comunicação

Além do conteúdo econômico, a reunião marcou mudanças relevantes na comunicação institucional do Fed sob Kevin Warsh. Em sua primeira decisão à frente do banco central americano, o novo presidente adotou um comunicado mais curto e simplificado, sem indicações explícitas sobre os próximos passos da política monetária.

Gustavo Sung, economista-chefe da Suno Research, avalia que a ausência de indicações futuras foi deliberada. “Warsh entende que esse instrumento não é adequado para o momento atual”, afirma. O presidente também optou por não divulgar suas próprias projeções de juros, postura coerente com convicções de longa data sobre comunicação colegiada e, possivelmente, uma forma de evitar ruídos com a Casa Branca.

Warsh também anunciou a criação de cinco forças-tarefa independentes para revisar aspectos centrais da atuação do Fed: comunicação, uso de dados, mercado de trabalho, produtividade e o regime de metas de inflação. As propostas podem alterar o formato do Sumário de Projeções Econômicas, redesenhando indicadores como o dot plot.

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“O comitê deixou claro que a inflação deve permanecer acima do desejado por mais tempo, o que exige uma política monetária mais restritiva”, afirma Camilo Cavalcanti, gestor da Oby Capital.

Apesar do tom restritivo, Vinicius Flores, analista de investimentos e sócio da Stratton Capital, aponta um contraponto a ser monitorado: com o conflito no Oriente Médio dando sinais de arrefecimento, um dos principais vetores de pressão inflacionária pode perder força nas próximas reuniões. Segundo Flores, o arrefecimento do conflito pode remover esse vetor de pressão já na próxima reunião do Fed, prevista para daqui a cerca de um mês e meio. “Isso pode tirar pressão inflacionária e gerar alguma surpresa à frente”, afirma.

Para os mercados emergentes, incluindo o Brasil, o recado segue desafiador: juros elevados nos Estados Unidos tendem a reduzir o fluxo de capital e pressionar ativos locais, além de reforçar a valorização do dólar.

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