O Banco Central surpreendeu o mercado ao indicar piora nas condições para a inflação e mesmo assim reduzir a Selic mais uma vez, e um novo corte na próxima reunião do Copom parecerá flertar com um maior risco de desancorar todo o processo de controle das expectativas de inflação, avalia Adauto Lima, economista-chefe da Western Asset, braço da Franklin Templeton no Brasil. A casa trabalha com a projeção de pausa nos atuais 14,25%.
Segundo ele, foi a primeira vez que o Copom disse em seu comunicado e na ata da reunião que o balanço de riscos para a inflação apontava para alta e não subiu os juros no próprio encontro. “Ele poderia ter dito que faria uma pausa para averiguar os efeitos dos choques do petróleo e da própria atividade com o choque da expansão fiscal, que eles foram corretos de reconhecer”, avalia. “A sensação é que a comunicação combinaria mais com uma pausa do que uma queda dos juros”, diz.
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Para Lima, a mudança no horizonte relevante para a meta, para o primeiro trimestre de 2028, também pareceu “forçar um pouco a barra”, mesmo com a justificativa de que até lá o efeito do El Niño nos alimentos será menor. “Mas todo o resto da avaliação não combina com a queda dos juros”, afirma, citando o Relatório de Inflação divulgado hoje, no qual o BC eleva a projeção de crescimento do PIB deste ano de 1,6% para 2,0%. “A atividade está mais forte, a projeção para o consumo das famílias cresceu de 1,7% para 2,8%, isso é demanda, estamos vendo a demanda mais forte e o hiato do produto mais aberto”, afirma.
Ele diz que a comunicação do Copom ficou confusa e isso tem um custo de credibilidade para o BC. Mesmo assim, observa que “não estamos com uma política monetária expansionista e nem em uma guinada de política monetária”. O economista acredita que o principal problema hoje para a queda dos juros é o excesso de estímulos fiscais e parafiscais, que amplia os gastos do governo. “Se no ano que vem não houver uma mudança na dinâmica fiscal, a queda do juro será mais limitada e podemos ter novamente o chamado voo de galinha, com os juros caindo e depois tendo de voltar a subir para conter a inflação”, diz.
Segundo ele, o país está “como o sapo na panela de água quente”, já que a situação econômica não está tão ruim, a inflação está controlada e a população não cobra uma mudança na política econômica. E os candidatos à Presidência não devem querer discutir medidas de cortes de gastos durante a campanha, o que deve manter as incertezas por mais tempo.
Diante disso, o economista espera maior pressão de alta no câmbio por conta da eleição. Mas não vê o real muito apreciado, o que limitaria espaço para desvalorização. “O risco maior é o dólar se fortalecer lá fora e pressionar aqui, mas a eleição no Brasil também aumenta a volatilidade da moeda”, diz.
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