A SRB (Sociedade Rural Brasileira) se manifesta contra mudanças amplas nas regras para o uso de antimicrobianos na bovinocultura e reforça um posicionamento que vem sendo adotado por diferentes entidades do setor pecuário nas últimas semanas.
O principal argumento é que as novas exigências impostas pela União Europeia não devem resultar em alterações na legislação brasileira que afetem toda a cadeia produtiva para atender um mercado que representa uma parcela limitada das exportações nacionais.
Na avaliação da SRB, o Brasil precisa atender às exigências sanitárias de cada destino de forma específica, preservando a competitividade da carne brasileira nos demais mercados internacionais.
A entidade afirma que eventuais adaptações devem ficar restritas às cadeias destinadas à União Europeia, sem impor custos adicionais aos pecuaristas que comercializam para outros compradores.
O posicionamento se soma ao de entidades como a Abiec (Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes), a CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil) e associações estaduais da pecuária, que também defendem uma estratégia de segregação da produção voltada ao mercado europeu.
Para essas organizações, as exigências da UE são legítimas para quem deseja exportar ao bloco, mas não justificam mudanças nacionais capazes de reduzir a eficiência produtiva da pecuária brasileira.
A discussão ganhou força porque as novas regras europeias passam a valer em 3 de setembro de 2026. A legislação proíbe a importação de produtos de origem animal provenientes de sistemas produtivos que utilizem determinados antimicrobianos classificados como de uso restrito na medicina humana.
Segundo a SRB, o cronograma europeu já era conhecido desde 2019 e foi reforçado em 2023, o que permitia planejamento por parte dos exportadores interessados nesse mercado. A entidade avalia, porém, que eventuais atrasos na adaptação não podem justificar mudanças regulatórias que atinjam toda a produção nacional.
Outro ponto destacado pela sociedade é que a discussão sobre antimicrobianos não deve ser confundida com a rastreabilidade da produção. Para a entidade, o fortalecimento de mecanismos como o Sisbov (Sistema Brasileiro de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos), a GTA (Guia de Trânsito Animal) e as auditorias nas propriedades é o caminho para ampliar o controle sanitário, enquanto o uso de antimicrobianos deve continuar sendo tratado como uma questão técnica e baseada em evidências científicas.
A SRB também chama atenção para o peso relativo dos mercados. A China, principal destino da carne bovina brasileira, importou quase 1,6 milhão de toneladas em 2025, gerando cerca de US$ 8,8 bilhões em receita. O valor é mais que o dobro do obtido com as exportações para a União Europeia, segundo a entidade.
Diante desse cenário, a sociedade defende que o governo concentre esforços na abertura de novos mercados de alto valor agregado, especialmente o Japão. Para a entidade, além do potencial comercial, uma eventual habilitação do mercado japonês representaria um reconhecimento da qualidade sanitária da carne brasileira e fortaleceria a imagem do país perante outros importadores.
As negociações com o Japão avançaram após o reconhecimento do Brasil como área livre de febre aftosa sem vacinação. Auditorias e missões técnicas já foram realizadas, e a expectativa do setor é que o atual cenário do mercado internacional, marcado pela necessidade japonesa de diversificar fornecedores e pelos elevados preços da carne nos Estados Unidos, possa acelerar esse processo.
Na avaliação da SRB, a estratégia para ampliar a competitividade da carne brasileira passa pela diversificação de mercados e pela manutenção da segurança regulatória, evitando mudanças generalizadas para atender exigências específicas de um único bloco econômico.



