Ilha de excelência que impulsiona o agro, Embrapa enfrenta risco de deterioração


Construção de laboratórios sem previsão de receita para manutenção, causando depreciação e ociosidade dos prédios; reagentes laboratoriais para experimentos científicos vencidos devido à demora na tramitação das compras e queda de 80% dos recursos para pesquisa em uma década.

Esse cenário de crise estrutural e da gestão na produção científica, comum no Brasil em universidades e institutos públicos, é atribuído, por um grupo de nove pesquisadores, à Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). A estatal brasileira é considerada no país e internacionalmente uma das maiores e mais bem-sucedidas instituições de pesquisa voltadas para a agricultura tropical do mundo.

No relatório, os pesquisadores colocam em xeque o futuro da estatal, apontando a “deterioração silenciosa das capacidades que sustentaram as contribuições da empresa por décadas” e avaliam que o risco é elevado. O relatório foi coordenado por Ana Célia Castro, professora da UFRJ, e pesquisadora no Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), e Antônio Márcio Buainai, professor da Unicamp.

O levantamento, chamado de “Embrapa entre o legado, o futuro e as transformações necessárias”, foi feito pelo Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Políticas Públicas, Estratégias e Desenvolvimento (INCT/PPED), e é resultado de projeto da Secretaria de Coordenação e Governança das Empresas Estatais). O estudo, realizado entre 2023 e 2024, envolveu outros sete pesquisadores da Unicamp e da UFRJ, além de especialistas da própria Embrapa. O texto foi revelado pela Folha de S.Paulo e confirmado pelo GLOBO.

Segundo o documento, a maior parte dos pesquisadores está no topo da carreira, o que torna cara a folha de pagamentos da empresa, enquanto não há renovação dos quadros. O estudo diz que o plano de cargos permite que muitos pesquisadores alcancem o topo salarial entre dez e 15 anos e, esse “teto precoce” gera uma estrutura rígida, já que não há mais para onde progredir economicamente, o que desincentiva a inovação. O levantamento aponta que há dificuldade em atrair cientistas de dados e especialistas em IA, profissionais mais requisitados pelas empresas de ponta em tecnologia e inovação.

Segundo o documento, a maior parte dos pesquisadores está no topo da carreira, o que torna cara a folha de pagamentos da empresa, enquanto não há renovação dos quadros. O estudo diz que o plano de cargos permite que muitos pesquisadores alcancem o topo salarial entre dez e 15 anos e, esse “teto precoce” gera uma estrutura rígida, já que não há mais para onde progredir economicamente, o que desincentiva a inovação. O levantamento aponta que há dificuldade em atrair cientistas de dados e especialistas em IA, profissionais mais requisitados pelas empresas de ponta em tecnologia e inovação.

“Isso inverte a lógica institucional, fazendo com que as prioridades científicas sejam ditadas pela disponibilidade de recursos externos e não pela estratégia de Estado de longo prazo”, escreveram os pesquisadores no relatório.

A verba destinada às pesquisas, em valores nominais, segundo o relatório, encolheu de R$ 400 milhões em 2010 para R$ 65 milhões em 2024. O orçamento global de custeio (manutenção de laboratórios, campos experimentais e infraestrutura) encolheu de R$ 633,8milhões, em 2011, para R$ 299,7 milhões em 2025.

O relatório diz que a Embrapa não tem estratégia clara para lidar com tecnologias disruptivas, como IA e opera com “mosaico” de plataformas de informática, não integradas, gerando insegurança dos dados nas pesquisas.

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Mesmo enfrentando possíveis problemas citados no relatório, a importância da Embrapa é reconhecida por especialistas do agro. Foi através das pesquisas da estatal, nas últimas décadas, que o Brasil se tornou uma das maiores potências agrícolas do mundo. Com tecnologias de correção do solo e cultivares adaptados, a agricultura ocupou em massa o Cerrado, na década de 70, em áreas antes consideradas inférteis. Hoje, culturas como soja, milho, algodão e sorgo da região Centro-Oeste, respondem por 60% de tudo que é cultivado no país.

Foi também dos laboratórios da Embrapa que saiu a técnica de fixação biológica de nitrogênio, ferramenta que utiliza bactérias para substituir fertilizantes químicos, gerando bilhões de reais em economia aos produtores e reduzindo o impacto ambiental. A criação de centenas de variedades de soja e pastagens (como a braquiária) adaptadas aos diferentes microclimas e biomas do país aumentou a produtividade no campo em mais de 300% em três décadas.

“A Embrapa possui o maior banco de sementes da América Latina e um dos maiores do mundo”, lembra Glaucia Maria Pastore, professora da Faculdade de Engenharia de Alimentos da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).



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