Crédito próprio do varejo sobe 113% e é saída para fidelizar cliente e manter consumo


O tíquete médio do crédito próprio do varejo disparou e já é 113% superior ao dos cartões de crédito bancários tradicionais. Em um cenário econômico marcado por juros elevados e orçamento familiar restrito, as redes comerciais assumiram o financiamento de seus clientes para fidelizar a clientela, manter o consumo e fazer caixa. Um levantamento da RPE (Retail Payment Ecosystem), feito com base em 15,9 bilhões de registros processados, revela que o gasto médio no cartão da loja atingiu R$ 305,82, contra os R$ 143,52 dos de bancos.

Atualmente, os meios de pagamento proprietários já respondem por 15,52% do volume total vendido pelas redes varejistas, sendo liderado pelo setor de moda (58,77%), seguido pelo alimentar (26,75%) e por eletromóveis e materiais de construção (14,80%). 

Esse avanço, que registrou um crescimento de cerca de 70% nos últimos dois anos, ocorre porque o varejista assumiu as rédeas do financiamento de seus clientes, analisa Lucas Dornellas, Chief Revenue Officer (CRO) da RPE. De acordo com ele, ao integrar serviços financeiros à estratégia comercial, as redes utilizam o crédito em conjunto com benefícios, descontos e programas de cashback para alavancar vendas e aumentar o volume da cesta de compras. 

Leia também: Boleto parcelado e Pix no crédito: empresas estão financiando os próprios clientes

“O cliente com o cartão consegue ter acesso a descontos que ele não teria sem o cartão próprio da marca”, explica. Ele destaca que, além de elevar o tíquete, essa dinâmica fideliza o consumidor e gera maior frequência de visitas às lojas. A prática do “Preço 2”, que são descontos exclusivos para quem usa o cartão da loja, demonstra esse efeito. De acordo com a pesquisa, em redes supermercadistas, a recorrência saltou da média de 15,66 para 29,08 visitas anuais. 

Análise de crédito dribla ameaça de inadimplência

Apesar do aumento do endividamento das famílias, que chegou a 82% em julho de 2026, a perda líquida do varejo permaneceu estável em 2,28%, destaca Dornellas.

O segredo, segundo ele, é o chamado “crédito de precisão”. O executivo afirma que o varejista consegue ser mais assertivo porque utiliza dados que apenas ele possui. “Ele conhece o consumidor e consegue usar os dados de consumo. Ou seja, eu consigo saber que o João vem três vezes por mês no meu supermercado”, pontuou Lucas, ressaltando que isso permite dar um limite mais adequado à capacidade real de cada cliente. “É um crédito de precisão efetivamente”, destaca Dornellas.

Essa tese é reforçada pelos dados históricos: 83,06% dos clientes com mais de dez anos de vínculo com as redes estão rigorosamente em dia com seus pagamentos, segundo a pesquisa.

Juros, bancos e o efeito ‘Desenrola’

Com a taxa Selic ainda em patamar restritivo e perspectivas macroeconômicas complexas para os próximos anos, o acesso ao crédito bancário chega de forma limitada à maior parte da população, com cartões populares oferecendo margens estreitas, muitas vezes entre R$ 100 e R$ 200.

Continua depois da publicidade

No crédito varejista, explica Dornellas, esse mesmo consumidor consegue aprovação de R$ 400 a R$ 500, o que o incentiva a priorizar o pagamento da fatura da loja antes mesmo de quitar o cartão do banco, segundo ele. 

Embora o foco da operação seja reter o cliente e fomentar o comércio, o bom desempenho dessas carteiras tem levado redes a venderem seus recebíveis para grandes bancos como forma de fazer caixa, por meio de FIDCs. Segundo o levantamento, ao estruturar um FIDC próprio, a varejista consegue captar recursos diretamente no mercado financeiro a custos mais baixos, transformando o cartão de loja em uma unidade geradora de lucro.

Entenda melhor: FIDCs: entenda como funcionam esses fundos de renda fixa

Continua depois da publicidade

Na outra ponta, programas governamentais de renegociação de dívidas, como o Desenrola, têm injetado fôlego na economia ao limpar o nome dos consumidores, gerando um efeito positivo de curto prazo no volume de venda.

O varejo, no entanto, observa o movimento com cautela. Há o receio de uma “ressaca no crédito”, onde o estímulo excessivo ao consumo de um público recém-saído da inadimplência resulte em uma nova onda de calotes. “O varejo está tomando esse cuidado e tendo muita cautela em receber esse público que está voltando às compras”, pontua o CRO. 



Veja matéria completa!

Cookie policy
We use our own and third party cookies to allow us to understand how the site is used and to support our marketing campaigns.

Hot daily news right into your inbox.