O aumento da inadimplência e do endividamento dos brasileiros têm raiz estrutural no ambiente macroeconômico e soluções como o programa Desenrola ajudam no curto prazo, mas não mudam as condições que levam as pessoas a se afogar em dívidas, de acordo com análises de especialistas ouvidos pelo InfoMoney.
Dados da Confederação Nacional do Comércio (CNC) apontam que 80,9% das famílias têm algum tipo de dívida, 29,7% estão com alguma conta em atraso e 12,3% dizem não ter condições de pagar os boletos. Segundo a Serasa, em julho, 83,9 milhões de pessoas estavam inadimplentes, sendo o cartão de crédito o principal motor do superendividamento.
Em meio a este cenário, o governo lançou o segundo programa Desenrola, para tentar aliviar o bolso dos brasileiros. O balanço do governo aponta que, em três meses, foram renegociados R$ 44,1 bilhões em dívidas de famílias e empresas, com desconto médio de 82%. Comparado ao programa anterior, a adesão é recorde.
Leia também: Para mais da metade dos trabalhadores do país, sobra mês no fim do salário
Adesão recorde não ataca raiz da inadimplência
Apesar de muitos inadimplentes estarem tentando sair do vermelho com o Desenrola, a avaliação de especialistas é de que ele não atua sobre o cerne do problema e, por isso, não deve diminuir substancialmente o índice de inadimplência. “O que está acontecendo é que o Desenrola atua principalmente sobre o estoque de dívidas antigas, mas a inadimplência continua sendo alimentada por novos atrasos”, avalia André Braz, coordenador dos Índices de Preços do FGV/Ibre.
“É como tentar esvaziar uma banheira com a torneira aberta. O programa ajuda a retirar parte da água, mas o estoque não diminui se novas dívidas continuam entrando no sistema”, diz Braz.
O pesquisador do FGV/Ibre João Mário de França, que acompanha o programa de perto, avalia que, com o ambiente macroeconômico inalterado, a tendência é que a dívida volte a tirar o sono do brasileiro assim que ele precisar tomar um novo empréstimo. “O programa acaba com a dívida em atraso, mas quando essas famílias precisam tomar empréstimo de novo, elas caem mais uma vez nos juros altos”, explica.
França destaca que o cenário de taxa básica de juros elevado penaliza, principalmente, as famílias, já que governo e grandes empresas conseguem se financiar com condições diferenciadas. “O governo consegue tomar dívida por meio dos títulos públicos. As grandes empresas têm títulos privados e debêntures, por exemplo. Mas, quando você olha para as famílias, sobra para elas o crédito mais caro, ligado ao crédito não consignado, cheque especial, rotativo do cartão”, explica.
França afirma que é preciso ter uma melhora na incerteza fiscal para que haja uma redução contínua de todas as taxas de juros, que são elevadas pela taxa Selic.
Continua depois da publicidade
Em junho, a taxa média de juros do crédito pessoal não consignado sem garantias estava em 149,5%; o cheque especial, em 139,8%; e o rotativo do cartão, em 442,4% ao ano, segundo o Banco Central.
Crédito fácil nas fintechs eleva inadimplência
Outro ponto que contribui para o aumento da inadimplência é a facilidade de acesso a crédito por meio de plataformas digitais. França destaca que a oferta pulverizada de empréstimos por essas instituições estimula a tomada de crédito pelas famílias de forma insustentável. “O crédito está muito facilitado pelas fintechs, e isso estimula muitas pessoas a tomarem empréstimos”, afirma.
Segundo França, essas financeiras muitas vezes operam com um controle reduzido sobre as garantias oferecidas pelos clientes na hora da concessão do empréstimo, porque o modelo de negócios se baseia na pulverização do risco, compensando a inadimplência com a cobrança de juros excessivos dos pagadores.
Continua depois da publicidade
“Eles [as fintechs] preferem emprestar para uma quantidade de gente muito grande porque, como a taxa de juros é muito elevada, isso absorve as perdas de quem não vai pagar”, explica o pesquisador.
A consequência direta dessa dinâmica é o agravamento das dívidas familiares. Para interromper esse ciclo contínuo de inadimplência, o especialista avalia que as autoridades financeiras precisam intervir na forma como essas empresas liberam recursos, melhorando a regulação do setor.
Enquanto isso, nos bancões, os dados do Banco Central apontam que a oferta de crédito está mais rigorosa, justamente para evitar calotes em meio a um ambiente macroeconômico desafiador. Em um índice que vai de -2 a +2 e que aponta o apetite pela concessão de crédito, os bancos apontaram que a tolerância ao risco foi de -0,18 para -0,41, o que indica um avanço considerável em relação à deterioração das expectativas de pagamento.
Continua depois da publicidade
Leia também: Itaú, Bradesco, Santander e BB: o que balanços do 2T dizem sobre cautela do setor?
No contexto macroeconômico, o Brasil passa por um período de mercado de trabalho aquecido, com taxas de desemprego em mínimas históricas e renda média em alta. Deveria ser o suficiente para manter as contas em dia, mas este cenário pressiona a inflação e eleva o custo de vida, especialmente dos mais pobres, avalia Andrea Angelo, estrategista de inflação da Warren Investimentos.
Nesse contexto, apostas do governo como o programa Desenrola tem performado “aquém do esperado”. Angelo cita que, em conversas com o Ministério da Fazenda, foi avaliado que a adesão ao programa não tem acompanhado o ritmo necessário para reverter o quadro de endividamento.
Continua depois da publicidade
Entre os motivos para esse descompasso, ela cita que muitos potenciais beneficiários hesitam em aderir ao programa por medo das contrapartidas, que incluem retirar o CPF do acesso a plataformas de apostas, para que o alívio econômico não se transforme em outra dívida.
Além disso, Angelo avalia que, mesmo em um ambiente com ganhos reais de salário, o espaço financeiro das famílias ainda é limitado para priorizar a renegociação de dívidas antigas, já que o aperto é para pagar até o consumo imediato.
Para Angelo, o fracasso parcial na adesão ao Desenrola revela que o aumento da renda nominal não é suficiente para resolver o problema da inadimplência se a confiança do consumidor e as condições de crédito não caminharem na mesma direção.
Gastos do governo e juros altos jogam contra
Para os próximos anos, as projeções afastam a perspectiva de um alívio rápido no custo de vida. Andreia Angelo aponta que a trajetória da inflação e dos juros dependerá de fatores de risco iminentes, como os efeitos climáticos severos do El Niño e os desdobramentos de pautas legislativas.
Há também o temor em relação à fuga de capitais ligada ao risco fiscal, o que pode depreciar o câmbio e forçar o Banco Central a manter a taxa Selic mais alta por mais tempo, impactando diretamente o setor de serviços e a atividade econômica.
Diante desse horizonte, o alívio temporário do programa do governo não reestrutura o bolso dos brasileiros. “Para produzir uma redução mais duradoura [da inadimplência], a renegociação precisa ser acompanhada de parcelas compatíveis com a renda, recuperação do orçamento familiar e menor necessidade de recorrer novamente ao crédito caro”, afirma Andre Braz.



