Apenas uma em cada quatro empresas do Brasil incorpora questões ambientais, sociais e de governança à estratégia de negócios.
É o que aponta o Índice de Maturidade ESG, desenvolvido pelo Pacto Global da ONU – Rede Brasil em parceria com o IDIS (Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social).
O levantamento avaliou 765 empresas e identificou que 25,5% chegaram aos dois níveis mais avançados da metodologia: estratégico e civil.
O estudo mostra que a maior parte das organizações ainda concentra as iniciativas de sustentabilidade na gestão interna. Ao todo, 45,8% estão no estágio gerencial, no qual as práticas ESG já fazem parte dos processos e mecanismos de acompanhamento das empresas, mas ainda não estão plenamente incorporadas às decisões estratégicas.
Outras 23,3% estão no estágio de conformidade, caracterizado pelo atendimento a normas, exigências e compromissos. Já 5,5% permanecem no estágio defensivo, em que a atuação é predominantemente reativa às questões de sustentabilidade.
No nível estratégico, que reúne 23% das empresas, a sustentabilidade passa a integrar as decisões e prioridades do negócio. O estágio civil – o mais avançado da metodologia – foi alcançado por apenas 19 organizações, o equivalente a 2,5% da amostra. Nesse patamar, as empresas atuam de forma colaborativa, buscando influenciar suas cadeias de valor, setores econômicos e até políticas públicas.
Para Rodrigo Favetta, diretor-executivo do Pacto Global da ONU, o resultado demonstra que as empresas ainda estão em uma jornada individual para incorporar práticas sustentáveis às operações.
“Estar no estágio mais avançado, o civil, significa influenciar ativamente o seu setor ou mesmo políticas públicas. Para isso, a empresa já precisa estar madura o suficiente para articular essa mobilização”, afirma.
Entre os principais obstáculos identificados estão a distância entre a criação de políticas e sua efetiva implementação, a baixa adoção de metas climáticas validadas por terceiros, a ausência de planos de adaptação e o pouco engajamento das cadeias de valor.
Retorno financeiro e dificuldades internas
A dificuldade de transformar compromissos de sustentabilidade em decisões estratégicas também está relacionada à percepção de retorno financeiro. Segundo Favetta, ainda existe um descompasso entre os resultados de curto e longo prazo das iniciativas ESG, além de poucos mecanismos para mensurar esses benefícios.
O executivo afirma que a evolução depende de as empresas compreenderem não apenas os impactos dessas práticas na gestão de riscos, mas também as oportunidades que podem gerar para os negócios.
O relatório também aponta fragilidades específicas nas diferentes dimensões avaliadas. Em Direitos Humanos e Trabalho e em Meio Ambiente, por exemplo, as empresas demonstram maior maturidade na elaboração de compromissos e identificação de riscos do que em ações de prevenção, remediação, monitoramento e engajamento de partes interessadas.
Na dimensão de Governança, estão entre as práticas menos maduras a vinculação da remuneração de executivos a metas de sustentabilidade e a verificação das informações por organizações independentes.
Bancos e energia têm melhores indicadores
O nível de maturidade também varia de acordo com o setor econômico. Entre os segmentos com melhores resultados estão bancos, com índice de 0,667; petróleo, gás e carvão, com 0,635; e energia elétrica, com 0,633.
Na outra ponta, aparecem mídia, com 0,367; serviços ao consumidor, com 0,397; e serviços de apoio industrial, com 0,422.
De acordo com o levantamento, setores mais regulados e com histórico de divulgação de informações apresentam maior maturidade. A coordenação setorial, a atuação de agências reguladoras e a pressão de diferentes públicos também contribuem para esse resultado.
O porte das empresas é outro fator de influência. Entre as organizações com faturamento anual de US$ 1 bilhão a US$ 5 bilhões, 85,7% estão nos estágios estratégico ou civil. Já entre aquelas que faturam menos de US$ 1 milhão por ano, esse percentual cai para 6,5%.
Apesar da diferença, o estudo ressalta que o tamanho não garante maturidade. Mesmo entre as grandes companhias, persistem lacunas nas áreas de direitos humanos, trabalho e clima.



