Acordo EUA-Irã e estreia de Kevin Warsh marcam decisão sobre juros americanos


Diretores do Federal Reserve (FED, o Banco Central dos Estados Unidos) vão se reunir nesta terça (16) e quarta-feira (17) para decidir os juros do país. Mas não é a decisão, em si, que atrai a atenção do mercado. Já é consenso que a opção deve ser pela manutenção do juro no atual patamar, de 3,5% a 3,75% ao ano.

O que todos estão de olho é na comunicação da decisão para saber quais serão os próximos passos da política monetária, após acordo de paz firmado entre EUA e Irã, e no pronunciamento do novo presidente Kevin Warsh, que tomou posse em maio, sucedendo Jerome Powell. 

Inflação resiliente e o choque de energia

A economia americana tem exibido dados de atividade intensos, que desafiam as projeções de desaceleração. O Índice de Preços ao Consumidor (CPI) subiu 0,5% em maio, acumulando alta de 4,2% em 12 meses. Como pontua o Bank of America (BofA), embora o setor de energia componha apenas 7,5% da cesta do CPI, ele foi responsável por mais de 60% do aumento mensal, com a gasolina acumulando alta de 30% no período.

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O conflito no Oriente Médio, que já ultrapassa 100 dias, é apontado pelo economista-chefe da Blue3 Investimentos, Roberto Simioni, como o principal vetor dessa escalada, com o barril do tipo Brent acumulando um salto de 42%. Ainda que um acordo para a reabertura do Estreito de Ormuz tenha provocado uma queda de 4% no preço do petróleo na segunda-feira (15), segundo José Faria Júnior, da Wagner Investimentos, a cautela permanece. Em análise enviada ao mercado, Luis Ferreira, do EFG Group, alerta que o núcleo do CPI, que exclui energia e alimentos, subiu 2,9% em 12 meses, com evidências claras de repasse de custos para o setor de serviços, especialmente em passagens aéreas e hospedagens.

O mercado de trabalho, por sua vez, segue como uma barreira ao afrouxamento monetário. Classificada pelo Goldman Sachs como “impressionante”, a recuperação na geração de vagas é, para Rafael Rondinelli, da MAG Investimentos, resultado da “robustez da demanda no setor de serviços”, o que gera pressões inerciais sobre a economia.

Esse dinamismo encontra eco no “super ciclo de inteligência artificial”, segundo Shinichiro Fukui, sócio da Stratton Capital. Ele explica que investimentos massivos em data centers — com quase 500 bilhões de dólares anunciados este ano — estão absorvendo mão de obra e mantendo a economia ativa, desafiando previsões de desaceleração. O resultado é uma “economia em forma de K”: enquanto uma parcela da população enfrenta endividamento, outra, ligada ao setor tecnológico e ao consumo discricionário, sustenta números robustos de emprego e atividade.

‘Era Warsh’ e a independência do Fed

A reunião desta semana será a primeira sob liderança de Kevin Warsh, que assumiu o cargo em maio, sucedendo a Jerome Powell. A expectativa de economistas como Andressa Durão, do ASA, e analistas do BofA e Goldman Sachs é de que a instituição abandone o “viés de flexibilização” em seu comunicado oficial, omitindo ou alterando termos que sugeriam ajustes adicionais na taxa de juros. No gráfico de pontos (dots), a previsão é de que as indicações de cortes para 2026 sejam eliminadas.

Fukui destaca que Warsh é um crítico do forward guidance e do uso exclusivo do dot plot, defendendo uma comunicação mais enxuta e o uso de indicadores forward-looking em vez de olhar apenas para o “espelho retrovisor” dos dados passados. Fukui destaca que a liderança de Warsh deve focar em eficiência, independentemente das pressões políticas sobre a autarquia.

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Juros no Brasil

O cenário americano de juros elevados por mais tempo reverbera diretamente na decisão de juros do Brasil, que também ocorre nesta quarta. Isso porque o diferencial de taxas pressiona o fluxo de capital para emergentes e levou o mercado a aumentar as  projeções para a inflação, o dólar e a Selic para os próximos anos, segundo o boletim Focus.

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O Copom terá duas frentes para avaliar e resta saber qual cenário irá pesar mais. De um lado, a reabertura do Estreito de Ormuz impulsionou expectativas de corte. A Wagner Investimentos estima 68% de chance de uma redução de 0,25 ponto percentual na Selic, cenário acompanhado pelo Bradesco, que projeta a continuidade da calibração iniciada em março.

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Contudo, a deterioração das métricas de preço internas atua em sentido contrário. Bruno Perri, sócio-fundador da Forum Investimentos, ressalta que a composição do IPCA de maio é desfavorável e sustenta a possibilidade de interrupção do ciclo de afrouxamento. “Isso reforça a percepção de que é possível que não haja cortes. É provável que a gente veja uma pausa”, conclui Perri.



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