Em 2021, Marco Antonio Mitidiero Jr. e Yamila Goldfarb mostraram que “O agro não é tech, o agro não é pop e muito menos tudo”.[1] Malgrado o constante bombardeio publicitário do agronegócio na mídia, que assumiu proporções delirantes na COP30,[2] já 30% dos brasileiros indagados por uma pesquisa da Associação Brasileira de Marketing Rural e Agro (ABMRA) têm uma visão negativa do agronegócio e destes, 51% são jovens entre 15 e 29 anos.[3] O Brasil está acordando para os malefícios brutais do agronegócio ao nosso país. Uma reportagem do “De olho nos ruralistas” denunciou o assédio eleitoral e a compra de votos pelo agro nas eleições de 2022 em favor da reeleição de Jair Bolsonaro,[4] e nas eleições de 2026, Flávio Bolsonaro recebeu suas duas maiores doações de campanha (R$ 3,1 milhões) de dois empresários do agronegócio.[5]
1. A vingança dos incendiários e o “Mês do fogo”
A vantagem momentânea obtida por Flávio Bolsonaro no 1º turno das eleições de 2026 reacendeu a sanha dos incendiários, já que durante o “governo” (aspas obrigatórias) de Jair Bolsonaro, o número de multas quitadas por crimes ambientais na Amazônia caiu em 93%.[6] A vitória de Lula em 25 de outubro frustrou a comemoração dos bolsonaristas e a transformou em vingança. Causa indignação que a mídia corporativa, sempre aflita com os “sustos” do mercado financeiro,[7] não dê manchete ao que importa: os incêndios brutais provocados na Amazônia pela demência dos ecocidas. “Em outubro, após o primeiro turno das eleições”, denuncia o Greenpeace, “o Pará e o Amazonas registraram um aumento explosivo de áreas queimadas. (…) Em apenas 20 dias, a área queimada no Pará aumentou 503% em relação ao mesmo período de 2025. No Amazonas, o aumento foi de 1.305%. (…) A Amazônia pode estar enfrentando um ‘Mês do Fogo’, em referência ao ‘Dia do Fogo’, quando o Pará passou por uma série de incêndios criminosos, orquestrados e intencionais, em agosto de 2019”. De seu lado, o Sumaúma postou o veredito certeiro de João Paulo Capobianco, Ministro do Meio Ambiente:[8]
“É clara a percepção de que a mudança do clima se tornou uma aliada dos grileiros, que têm interesse em ocupar terras públicas e passam a utilizar os incêndios, ao invés da derrubada, que é muito mais arriscada. (…) Você vê incêndios propositadamente colocados, inclusive em linha reta, com focos de incêndio a cada 100 ou 500 metros de distância. [Trata-se de] degradar a área, depois você consegue a mudança da categoria de proteção e depois você vai atrás da titulação”.
O agronegócio é inimigo do Brasil também em termos socioeconômicos. De 2008 a 2022, os 50 municípios que mais destruíram sua vegetação original situam-se na Amazônia Legal e no Cerrado. No Rio Grande do Sul, dois municípios integram essa lista sinistra: Alegrete e São Gabriel. Desses 50 municípios, 47 têm renda 27% abaixo da renda média no Brasil. Em 2022, a renda média do trabalho no país era de R$ 2.850,00, enquanto a renda nesses 47 municípios campeões da destruição mantinha-se em R$ 2.092,00, sendo que Lábrea, o município campeão do desmatamento no Amazonas, tem renda média de R$ 1.590,00. E entre esses 50, os três únicos municípios com renda acima da média nacional têm sua riqueza concentrada nas mãos de poucos fazendeiros.[9] O desmatamento não apena inviabiliza o Brasil, mas é uma usina de pobreza para as populações desses municípios.
2. A pecuária bovina contra os 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável
Com suas 169 metas, os 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável da ONU são um apelo global à ação para erradicar a pobreza, proteger o meio ambiente e garantir a paz e a prosperidade, em um mundo dia a dia mais brutalizado pelos desequilíbrios do sistema Terra e pelas guerras.[10] De modo geral, onde o agronegócio avança, os 17 ODS recuam, como mostra um exame dos impactos sociais e ambientais da pecuária bovina no Brasil, a partir do Índice do Desenvolvimento Sustentável das Cidades (IDSC) de 2025, realizado pelo Instituto Cidades Sustentáveis. Este índice avalia os 5.570 municípios do Brasil em função da posição e do desempenho desses municípios no âmbito dos 17 ODS. O IDSC estabelece uma pontuação de 0 a 100, classificando esses municípios a partir da escala de cores mostrada na Figura 1, que sintetiza a posição e o desempenho de cada município em 2024 no quadro geral dos 17 ODS.

3. Posição dos 10 municípios com maior concentração de gado bovino nos 17 ODS
A Tabela 1 mostra os dados do IDSC para os 10 municípios que mais concentram gado bovino no Brasil no que tange a seis ODS: ODS 2 (fome zero e agricultura sustentável), 4 (educação de qualidade), 10 (reduzir as desigualdades), 13 (ação climática), 15 (proteger vida terrestre) e 16 (paz, justiça, instituições eficazes). Esses seis ODS são os mais importantes no que se refere ao impacto socioambiental da pecuária bovina no Brasil.

O quadro socioambiental revelado pela Tabela 1 é desolador. Ela mostra que na pontuação geral do IDSC, nenhum desses 10 municípios mais ricos em gado do Brasil apresentam uma pontuação “Alta ou “Média”. Seis deles têm uma pontuação “Muito baixo e quatro pontuam “Baixo”. O município menos mal situado no conjunto desses 10 municípios brasileiros (Corumbá – MS) situa-se na posição 4.128. Isso significa que há 4.127 municípios no Brasil, dentre os 5.570 da federação, que apresentam melhores indicadores de desenvolvimento sustentável. E Santana do Araguaia (PA) é o pior município em absoluto dos 5.570 municípios do Brasil em termos de desenvolvimento sustentável.
4. Agronegócio, o maior responsável no Brasil pelo aquecimento global
No que se refere ao ODS 13 (ação climática), a Figura 2 comprova a culpa maior do agronegócio em nosso país pelo aquecimento global.

Em 2024, as emissões brutas de GEE do Brasil montaram a 2,145 bilhões de toneladas de CO2 equivalente, o que faz do Brasil o quinto maior emissor desses gases no mundo, após a China, os EUA, a Índia e a Rússia. Desse total, a agropecuária emitiu 626 MtCO2e (29,2%) e a mudança do uso da Terra, 906 MtCO2e (42,2%), com 98% dessa mudança (887 MtCO2e) causada por desmatamento. Portanto, as emissões decorrentes da agropecuária e do desmatamento causado por ela responderam por mais de 70% das emissões brutas de GEE do Brasil. De fato, mais de 90% da destruição da floresta amazônica teve por objetivo primeiro a abertura de pastagens.[11] Enfim, os ODS 15 (proteger vida terrestre) e 16 (paz, justiça, instituições eficazes) têm avaliações quase tão negativas quanto o ODS 13 (ação climática), pois trazem concentrações equivalentes de pontuações “Muito baixo”.
O governo Lula 4, que veio para salvar o Brasil do abismo bolsonarista, não pode mais ser fagocitado por um agronegócio cada vez mais destrutivo da natureza e mais parasitário dos recursos do Estado. O governo Lula deve, ao contrário, democratizar a terra e impulsionar uma rápida transição em direção a uma agricultura genuína, saudável, variada, livre da monocultura de escala, que implica uso crescente de agrotóxicos, e próxima ao consumidor, de modo a gerar prosperidade e saúde para os que produzem alimentos (e não commodities para o mercado externo) e para a sociedade como um todo.
Esse texto não reflete necessariamente a opinião da Unicamp.
[1] Cf. M. A. Mitidiero Jr. & Y. Goldfarb, “O agro não é tech, o agro não é pop e muito menos tudo”. Friedrich Ebert Stiftung, São Paulo, set. 2021.
[2] Cf. TJ Jordan, Akhil Ranjan, Rachel Sherrington, Clare Carlile & DeSmog, “O agro é publi: gigantes do agronegócio pagam personalidades brasileiras antes da COP30”. Agência Pública, 17 nov. 2025.
[3] Cf. “Produtores acham que população urbana os vê de forma negativa”. CNN Brasil, 27 julho 2026.
[4] Cf. Mariana Franco Ramos e Luís Indriunas, “Por Bolsonaro, fazendeiros reeditam voto de cabresto em todo o país”. De Olho nos Ruralistas, nov. 2022.
[5] Cf. Vinicius Madureira, “Maiores doadores de Flávio Bolsonaro já foram denunciados por corrupção e contrabando”. Intercept Brasil, 21 out. 2026.
[6] Cf. Júlia Marques, “Na gestão Bolsonaro, número de multas pagas por crimes ambientais na Amazônia cai 93%”. O Estado de São Paulo, 19 de julho de 2021.
[7] Cf. Tamara Nassif, Alexa Salomão, Douglas Gravas e Catia Seabra, “Proposta de Lara Resende para limitar Selic assusta mercado”. Folha de São Paulo, 2 de novembro 2026.
[8] Cf. Sumaúma jornalismo.
[9] Cf. Gabriel Gama & Gustavo Queirolo, “Cidades que mais desmatam têm renda 27% abaixo da média”. Folha de São Paulo, 29 março 2026.
[10] Cf. Nações Unidas Brasil.
[11] Cf. “Mais de 90% do desmatamento da Amazônia é para abertura de pastagem”. MapBiomas, 3 out. 2024.
Foto de capa:




