Agronegócio vira pilar da matriz renovável – Sociedade Nacional de Agricultura

Estudo da FGV Bioeconomia mostra que a bioenergia de cana, milho, florestas plantadas e celulose chegou a 29,8% de toda a energia ofertada no país em 2025 e abastece quase metade do consumo da indústria – Foto: Canva

O agronegócio brasileiro produz muito mais do que alimentos e fibras. Em 2025, as cadeias agropecuárias, agroindustriais e florestais responderam por cerca de 60% de toda a energia renovável ofertada no Brasil. É o que aponta o estudo “Oferta de energia renovável pelo agronegócio”, do Observatório de Bioeconomia da Fundação Getúlio Vargas (FGV), divulgado em setembro de 2026.

Dos 162,3 milhões de toneladas equivalentes de petróleo (tep) de energia renovável disponíveis no país no ano passado, 97,8 milhões vieram da bioenergia ligada ao agro. Hidrelétricas, eólicas e usinas solares somaram 53,9 milhões de tep. Outros 10,6 milhões vieram de biomassas sem vínculo com a agropecuária, como lenha de vegetação nativa e biogás de aterros urbanos.

O levantamento, assinado pelos pesquisadores Luciano Rodrigues, José Guilherme Belon e Sabrina de Matos Carlos, reorganiza os dados do Balanço Energético Nacional (BEN), da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), para isolar a contribuição do setor ao longo de 55 anos.

Quinze vezes mais energia em cinco décadas

A oferta de bioenergia do agronegócio saltou de 6,5 milhões de tep em 1970 para 97,8 milhões em 2025, o maior volume de toda a série histórica. No mesmo período, a fatia dessas fontes na oferta interna de energia do país passou de 9,7% para 29,8%.

O avanço continuou forte nos últimos anos. Entre 2021 e 2025, a oferta de bioenergia ligada ao agro cresceu cerca de 16%, de 84,2 milhões para 97,8 milhões de tep. Nesse intervalo, o peso das renováveis na matriz brasileira subiu de 45,0% para 49,5%.

A expansão das fontes eólica e solar, que dobraram sua participação conjunta de 2,8% para 5,8% da matriz, não reduziu a importância da biomassa. Segundo os autores, as novas fontes ganham espaço ao lado da bioenergia, e não no lugar dela, num processo de diversificação da matriz renovável.

Etanol de milho, celulose e biodiesel puxam o crescimento

A cana-de-açúcar segue como principal fonte. Somada às outras biomassas usadas na destilação, ofertou 57,8 milhões de tep em 2025, cerca de 59% da bioenergia do agro. A novidade é o milho: o cereal já responde por aproximadamente 30% da produção nacional de etanol, ampliando a base do biocombustível para além da cana.

Outras rotas também avançaram entre 2021 e 2025. O licor negro (lixívia), coproduto da indústria de papel e celulose, passou de 10,1 milhões para 13,2 milhões de tep, alta próxima de 30%. Os óleos vegetais, base do biodiesel, cresceram cerca de 45%, de 5,6 milhões para 8,1 milhões de tep.

Já a lenha e o carvão vegetal de florestas plantadas mantiveram sua posição, com 16,8 milhões de tep em 2025.

Em 1970, cana e lenha de silvicultura respondiam por praticamente toda a bioenergia do setor. Hoje, a oferta é mais diversificada, com espaço crescente para celulose, oleaginosas, grãos e, em menor escala, biogás.

Indústria é a maior consumidora

Ao contrário do que a associação com o etanol e o biodiesel poderia sugerir, o principal destino da bioenergia do agro não são os carros e caminhões. A indústria lidera o consumo ao longo de praticamente toda a série histórica. Os transportes aparecem em segundo lugar, com cerca de 30% do total em 2025, seguidos pelo próprio setor energético.

O dado mais revelador do estudo, porém, é o peso dessa energia dentro de cada setor. Em 2025, a bioenergia do agronegócio respondeu por cerca de 55% do consumo do setor energético e por aproximadamente 45% do consumo da indústria. Nos transportes e na agropecuária, a fatia ficou em torno de 26%.

Na indústria, o índice é o mais alto já registrado. Na prática, quase metade da energia usada pelas fábricas brasileiras teve origem em cadeias do agronegócio, proporção bem superior à observada nos transportes, onde a presença dos biocombustíveis é mais visível ao consumidor.

Do canavial à cerâmica e siderurgia

Nos segmentos ligados diretamente ao campo, a dependência é ainda maior. A bioenergia representa pouco mais de 80% do consumo energético da indústria de alimentos e bebidas e cerca de 74% do setor de papel e celulose, que aproveitam bagaço, licor negro e outros resíduos dos próprios processos.

O estudo chama atenção, no entanto, para a presença dessa energia em atividades sem relação com o agro. Em 2025, a bioenergia do setor respondeu por cerca de 43% do consumo das indústrias de ferroligas e por aproximadamente 41% da cerâmica. Ela também aparece, em proporções menores, na produção de ferro-gusa e aço, cimento, mineração, química e têxtil.

Para os pesquisadores, esse alcance confere à agroenergia um caráter transversal na economia brasileira. O agronegócio deixa de ser apenas fornecedor de alimentos ou de biocombustíveis para o transporte e passa a sustentar parte relevante do suprimento energético de setores industriais muito além de suas próprias cadeias.

Vantagem na transição energética

O estudo destaca que essa característica dá ao Brasil uma vantagem na corrida pela descarbonização. Em muitos países, a transição depende sobretudo da troca de combustíveis fósseis por eletricidade renovável. A bioenergia, por sua vez, também atende demandas por combustíveis líquidos e gasosos e por calor de processo, usos em que a eletrificação direta ainda não é viável técnica ou economicamente.

A conclusão dos autores é que a elevada participação de renováveis na matriz brasileira não decorre apenas da abundância de rios, ventos e sol. Ela depende, em grande medida, da capacidade do agronegócio de produzir energia em escala.

Por Larissa Machado / larissamachado@sna.agr.br
Com informações da FGV Agro

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