Economist vê riscos à supremacia financeira dos EUA e destaca papel do Pix no debate


O Pix voltou ao centro do debate internacional sobre soberania financeira. Em reportagem publicada neste fim de semana, a revista britânica The Economist afirma que a crescente disputa entre Estados Unidos e outros países pelo controle dos sistemas de pagamentos digitais é um dos sinais mais visíveis de uma transformação em curso na ordem financeira global.

Segundo a publicação, a recente ofensiva americana contra o sistema brasileiro de pagamentos instantâneos evidencia um movimento mais amplo de fragmentação da infraestrutura financeira internacional, tradicionalmente dominada por empresas americanas como Visa e Mastercard e pela influência do dólar.

A reportagem relembra que Jamieson Greer, principal representante comercial dos Estados Unidos, acusou o Pix de prejudicar empresas americanas do setor de pagamentos. Como resposta, Washington propôs uma tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros. A reação no Brasil, contudo, foi praticamente unânime.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu o sistema, classificando-o como uma conquista nacional. Já o senador Flávio Bolsonaro, um dos principais nomes da oposição, também rejeitou qualquer possibilidade de abandono do Pix, embora tenha sugerido um acordo que limitasse futuras conexões internacionais do sistema.

Para a Economist, o episódio simboliza uma nova fase da geopolítica financeira mundial. À medida que os Estados Unidos utilizam de forma mais explícita seu peso econômico e financeiro como instrumento diplomático, países de diferentes espectros políticos buscam reduzir sua dependência das plataformas controladas por Washington.

Europa e China aceleram busca por alternativas

A reportagem destaca que a preocupação com a dependência da infraestrutura financeira americana já não se limita a países historicamente rivais dos Estados Unidos, como Rússia e China.

Na Europa, autoridades passaram a defender abertamente a criação de sistemas próprios de pagamentos. A presidente do Banco Central Europeu (BCE), Christine Lagarde, afirmou neste ano que é importante que os europeus tenham os pagamentos digitais “sob seu controle”.

O bloco já opera a Área Única de Pagamentos em Euros (SEPA), que reúne 41 países, e trabalha no desenvolvimento da Wero, uma carteira digital que pretende integrar diferentes sistemas nacionais de pagamentos instantâneos. Paralelamente, o BCE planeja lançar um euro digital até o fim da década.

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A China também intensifica seus esforços. O país ampliou a abrangência internacional de seu yuan digital e fortaleceu o Sistema de Pagamentos Interbancários Transfronteiriços (CIPS), apontado pela revista como uma alternativa à rede SWIFT.

Segundo dados citados pela publicação, o CIPS movimentou em março um recorde de 920 bilhões de yuans por dia, equivalente a cerca de US$ 134 bilhões, alta de 20% em relação ao mesmo período do ano anterior.

Pix e UPI ganham relevância internacional

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Na avaliação da revista, outra tendência crescente é a interligação de sistemas nacionais de pagamentos. Nesse contexto, o Pix e o UPI, plataforma indiana baseada em QR Code, aparecem como exemplos de soluções que podem reduzir a dependência dos tradicionais arranjos internacionais de cartões.

O sistema indiano já opera em nove países e busca ampliar sua presença por meio de acordos bilaterais. Já o Pix é citado como uma das principais iniciativas capazes de inspirar plataformas semelhantes ao redor do mundo.

Para Eswar Prasad, professor da Universidade Cornell ouvido pela revista, a infraestrutura de pagamentos tornou-se uma rota mais viável para a busca de independência financeira do que a tentativa de substituir o dólar nos fluxos globais.

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A avaliação é que, ao conectar sistemas nacionais diretamente, os países podem criar canais alternativos para pagamentos transfronteiriços, evitando parte da dependência das redes tradicionais de cartões e bancos correspondentes.

O avanço desses sistemas soberanos representa uma ameaça crescente para Visa e Mastercard, que historicamente dominam os pagamentos eletrônicos globais.

Segundo a Economist, ambas as empresas já reconhecem em seus relatórios anuais que o favorecimento regulatório a sistemas domésticos pode representar um risco relevante aos negócios. As duas companhias possuem margens operacionais superiores a 50%, mas suas ações perderam fôlego nos últimos 12 meses, apesar dos resultados financeiros robustos.

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Como resposta, as gigantes americanas ampliam investimentos em mercados estratégicos. A Visa anunciou recentemente € 500 milhões em infraestrutura na Europa e firmou uma parceria com a chinesa UnionPay para pagamentos em tempo real na China. A Mastercard, por sua vez, está construindo três novos centros de dados na França.

Risco para a economia global

Apesar dos ganhos de autonomia para os países, a revista alerta que a fragmentação dos sistemas de pagamentos também traz riscos.

Segundo o Conselho de Estabilidade Financeira (FSB), a multiplicação de plataformas nacionais pode dificultar o objetivo do G20 de tornar os pagamentos internacionais mais rápidos e baratos. Há ainda preocupações relacionadas à interoperabilidade dos sistemas, aumento de fraudes e maior dificuldade para monitorar fluxos financeiros globais.

Um estudo patrocinado pela SWIFT e citado pela publicação estima que a crescente fragmentação financeira poderá reduzir o Produto Interno Bruto (PIB) mundial em 2,6% até 2030 caso a tendência atual se mantenha.

Desta forma, para a Economist, a busca pela soberania dos pagamentos está redesenhando a infraestrutura financeira global. O movimento pode oferecer maior independência aos países, mas também elevar custos econômicos e reduzir a integração do sistema internacional. E, ao pressionarem seus parceiros comerciais, os próprios Estados Unidos podem acabar acelerando um processo que ameaça a influência financeira que construíram ao longo de décadas.



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