Foram três blocos de debate razoavelmente civilizado, ainda que duro, até que os últimos minutos de Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) se tornaram o momento em que ambos abriram a caixa de ferramentas com as acusações mais duras, com referências ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro e outros personagens da crônica política-policial que se tornou a campanha do segundo turno.
Com regras mais rígidas, os candidatos puderam iniciar um debate duro como esperado, mas tratando minimamente de problemas reais do eleitor e do país, como custo de vida, obras de infraestrutura e políticas fiscais e de correção de salário mínimo, aposentadorias e pensões.
Nem sempre de forma clara ou compreensível para o eleitor não familiarizado com reforma tributária, marco legal do saneamento ou Plano Safra. Mas certamente sem provocar o mal-estar das provocações estéreis do debate da semana passada.
Lula tentou colar em Flávio a pecha de não conhecer o país ou de apenas decorar soluções sem vivenciar a realidade das variadas regiões brasileiras.
O candidato do PL pareceu demorar a achar a saída da armadilha, mas depois encaixou o discurso ao listar nomes de governadores aliados eleitos e questões locais, como as enchentes no Rio Grande do Sul ou o déficit de saneamento em Belém.
O candidato do PT jogou em terreno conhecido e seguro a ele, como falar dos avanços sociais nos mandatos comandados pelo partido desde 2003 ou de constranger o adversário do PL com os pontos fracos da gestão Jair Bolsonaro, como o enfrentamento da pandemia.
Houve um esboço de tensão quando Lula pediu direito de resposta ao se queixar da menção de Flávio a cobrança de impostos com os “nove dedos das mãos” do presidente. Indignado, o petista fez um discurso firme ao afirmar ter sofrido um acidente de trabalho quando era menor de idade e buscou a empatia do espectador ou espectadora que tenha vivido situação semelhante.
Mas, ao chamar o adversário de “miliciano”, Lula deu ao candidato do PL o direito de resposta no qual Flávio vestiu o figurino da moderação, disse querer pedir desculpas sinceras e aproveitou para entrar em outro tema alheio à ofensa.
À medida que o tempo avançava, Lula demonstrou mais impaciência que Flávio, como ao criticar o tema “ensino integral” previsto pela TV Globo como uma opção, pois o candidato queria tratar de educação de forma mais ampla.
O petista trouxe ao debate, como havia feito na semana passada, a morte da menina Ana Clara, de 5 anos, vítima de um disparo de fuzil em Niterói. O cabo da PM acusado pelo crime teve na equipe de advogados Flávio Bolsonaro. O candidato do PL se preparou para responder com serenidade, mas escorregou ao chamar a mãe da vítima pelo nome da filha morta no tiroteio.
O final do debate foi uma troca de acusações que preencheu praticamente todo o check-list previsto por quem acompanha as minúcias da política e de Brasília. Como esperado, a batalha de abertura de sigilos travada na semana também deu as caras, mas o eleitor seguiu sem saber o que de fato isso mudará: seja em regras mais rígidas contra a corrupção e as relações de lobby, seja em instituições e integrantes que de fato façam jus aos cargos que ocupam.
Quem esperou até quase meia-noite o fim do último debate de 2026 ao menos não dormiu com o mal-estar de uma semana atrás. Para conseguir vislumbrar bem-estar nos próximos quatro anos, ainda falta muito debate.



