Emprego bate recorde, mas PNAD expõe estagnação da renda e abismo social


O mercado de trabalho brasileiro opera em um paradoxo. Dados da PNAD Contínua divulgados nesta sexta-feira (14) pelo IBGE apontam um cenário mais detalhado sobre a taxa de desemprego, que está em 5,4% no segundo trimestre de 2026, o menor patamar para o período desde 2012.

Segundo o IBGE, a busca por vagas está mais rápida, com queda de 15,6% entre aqueles que procuram trabalho há mais de dois anos. No entanto, o dado otimista não muda a realidade conhecida: o país gera vagas, mas as ineficiências estruturais de gênero, raça e geografia continuam travando o potencial de consumo e pressionando a política monetária.

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Mais vagas, mesmo dinheiro

A força da ocupação não está se convertendo proporcionalmente em qualidade de vida ou poder de compra. A expansão do mercado esteve concentrada em poucos setores, enquanto o emprego privado com carteira assinada permaneceu estável.

E, apesar de o desemprego nacional ter atingido o menor patamar para um segundo trimestre desde 2012, o rendimento médio real segue estagnado, em R$ 3.795.

Neste contexto, o mercado de trabalho está reduzindo a insegurança imediata das famílias, mas não alavanca o varejo. “A estabilidade da renda mostra que a força do emprego já não está se convertendo na mesma intensidade em ganhos adicionais de poder de compra”, afirma Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos.

Letícia Moschioni, sócia da Finscale, observa que a melhora nos indicadores ocorre muito mais pelo volume de pessoas ocupadas do que pelo avanço da remuneração individual.

Sem um salto relevante na renda, o consumo básico é preservado, mas não há espaço para uma expansão generalizada das compras, como aponta Cassio Viana de Jesus, diretor da Pilar Capital.

Dois mercados e o gargalo demográfico

A ociosidade no mercado de trabalho tem CEP, gênero, cor e escolaridade. Homens brancos seguem capitaneando a absorção das vagas, deixando mulheres, pretos, pardos e pessoas com menor nível de instrução na base da pirâmide de contratações.

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Enquanto o desemprego entre os homens foi de 4,6% no segundo trimestre, entre as mulheres o índice bateu 6,4%. Na divisão por raça, a taxa entre brancos ficou em 4,2%, sensivelmente abaixo de pardos (6,1%) e pretos (6,9%). O nível de instrução também dita as regras: a desocupação de quem tem o ensino médio incompleto chega a 9%, caindo drasticamente para 3% entre aqueles com ensino superior completo.

A assimetria se repete na geografia, provando que não existe um único mercado de trabalho no Brasil. As maiores taxas de desocupação ficaram com estados do Norte e Nordeste, com destaque para Amapá (9,8%), Bahia (9,1%), Pernambuco (8,3%), Piauí (8,3%) e Sergipe (7,9%). As menores foram em Santa Catarina (2,1%), Mato Grosso (2,2%), Espírito Santo (2,3%), Rondônia (2,6%) e Mato Grosso do Sul (2,7%).

Leia também: Desemprego de mulheres é 39% maior que de homens no 2º trimestre do ano

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Para Rodolpho Tobler, economista do FGV/Ibre, a janela de mercado aquecido é o momento ideal para desenhar políticas públicas que corrijam essas disparidades estruturais. “Não dá para imaginar que vai ser feita uma ação hoje que no próximo trimestre vai estar resolvida. É algo que tem que ser visto ao longo do tempo”, alerta.

A disparidade regional tem um custo direto para as empresas. Valdir Piran Jr., CEO do Grupo Intra, observa que, enquanto o Norte e Nordeste enfrentam ociosidade, regiões como o Sul e o Centro-Oeste lidam com um “apagão” de mão de obra. Essa escassez obriga as empresas locais a aumentarem os salários para atrair talentos, gerando uma inflação localizada de serviços.

Impacto na Selic

É exatamente essa combinação de desemprego baixo, gargalos regionais de contratação e pressão localizada em serviços que dita a cautela do Banco Central em sua política monetária.

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Edgar Araújo, CEO da Azumi Investimentos, explica que a dificuldade de contratação em certas praças mantém os preços de serviços inflacionados, dificultando a condução da política monetária. Para Piran Jr., a força do emprego é hoje o principal motivador para o Copom “manter os juros em território restritivo e exigir evidências adicionais antes de um novo corte da Selic”.

Apesar de vozes no mercado defenderem que a renda estagnada abre espaço para cortes graduais na taxa básica, que está em 14%, o cenário externo amarra as mãos do BC. O Federal Reserve mantém os juros americanos em patamares restritivos (entre 3,5% e 3,75%) para frear a inflação nos EUA. Como lembra Fábio Murad, sócio da Ipê Avaliações, isso aumenta a sensibilidade do câmbio brasileiro, exigindo um prêmio de risco maior na Selic para segurar o capital estrangeiro no país.

Para 2027, as perspectivas já sinalizam um esfriamento. A projeção de Tobler aponta para uma desaceleração da atividade econômica. Se por um lado isso pode trazer a inflação para uma zona de conforto, por outro, garantirá que o mercado de trabalho passe a registrar números mais tímidos, enterrando de vez as chances de um ganho real no bolso do trabalhador no curto prazo.



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