Um ofício obtido pela CNN Brasil e enviado em 9 de dezembro de 2025 pela NAV Brasil (Serviços de Navegação Aérea) — estatal responsável pelo controle do tráfego aéreo — ao Centro Regional de Controle do Espaço Aéreo Sudeste (CRCEA-SE), da Força Aérea Brasileira (FAB), alertou para o aumento do número de voos de helicóptero na região do Aeroporto de Jacarepaguá.
É de lá que partiu uma das aeronaves envolvidas na colisão entre dois helicópteros no dia 14 de junho. O acidente deixou seis mortos, entre eles o cantor norte-americano Oliver Tree, os argentinos Lucas Vignale e Gaspar Prim, o produtor musical Lucas Brito Chaves, conhecido pelo nome artístico Lucas Frota e os pilotos das duas aeronaves.
Vinculado à FAB, o CRCEA-SE respondeu 14 dias depois, em 23 de dezembro de 2025, ao ofício. Reconheceu a situação e afirmou que mudanças só devem ser implementadas a partir de junho de 2027.
“Quanto ao assunto, informo que já estão em andamento as atividades do Projeto de Reestruturação da TMA-RJ (Área de Controle Terminal do Rio de Janeiro) para o desenvolvimento do novo Conceito de Espaço Aéreo da Terminal Rio de Janeiro, com implementação programada para junho de 2027, cujo escopo engloba o estudo da circulação aérea do aeródromo de Jacarepaguá”, diz trecho do documento obtido pela CNN.
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Segundo o alerta, o número de cruzamentos de voos na região próxima ao acidente teve picos de alta superiores a 150% em vários meses de 2025, na comparação com 2024. Os chamados voos cruzados ocorrem quando aeronaves que partem de aeroportos e helipontos distintos se encontram no ar.
Fora do perímetro controlado pelos operadores de tráfego, os pilotos precisam seguir as normas gerais da aviação e operar na frequência de autocoordenação — prática comum em várias regiões do país.
Entre janeiro e outubro do ano passado, o documento registra 141.853 operações controladas em Jacarepaguá. “Desse total, 89.077 corresponderam a operações de pouso e decolagem, e 49.101 a operações de cruzamento, representando, respectivamente, 63% e 34% do volume total de tráfegos atendidos”, aponta o alerta.
Procurada, a FAB não se manifestou até a publicação desta reportagem. O espaço permanece aberto.
Posicionamento de aeronaves
O ofício também alerta para falhas no posicionamento das aeronaves. “Observa-se, com frequência, limitada consciência situacional dos pilotos acerca da existência de outras aeronaves evoluindo nesse espaço aéreo, o que, em determinadas situações, resulta na sobreposição de comunicações, na tentativa de obtenção célere da autorização para cruzamento”, diz o texto.
O Aeroporto de Jacarepaguá é um dos principais pontos da aviação no Rio. O terminal atende sobretudo voos executivos, táxi aéreo, deslocamentos para plataformas em alto-mar e atividades de turismo, como os voos panorâmicos.
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Operação sem controle de tráfego
A CNN Brasil conversou com uma pessoa ligada à NAV, que pediu para não se identificar. Para ela, a situação não é, em si, perigosa: mas sem informação precisa, nem restrições de um controlador, as aeronaves sobem no ritmo, na velocidade e na posição que quiserem.
O acidente ocorreu em um trecho sem orientação de controladores de voo. No mapa abaixo, a figura em “meia-lua”, em azul, marca a única área controlada pela equipe de tráfego aéreo de Jacarepaguá.

A colisão aconteceu perto da Avenida das Américas, na altura do Recreio dos Bandeirantes, fora da jurisdição controlada (delimitada pelo pontilhado azul). Nessa rota, os pilotos seguem as regras gerais de operação (norma RBAC 91), que incluem, por exemplo, os limites de altitude dos corredores visuais para aeronaves de asa fixa e helicópteros, os pontos de notificação obrigatórios e as condições meteorológicas para voo visual ou por instrumentos.
Diferentemente de São Paulo, o Rio de Janeiro não tem um ponto central de controle dedicado exclusivamente para helicópteros. O Helicontrol, sistema de monitoramento e controle desse tipo de voo, fica no Aeroporto de Congonhas, na capital paulista. Só em 2025, registrou 39.581 voos em São Paulo.
Aumento de acidentes
A Polícia Civil investiga os planos de voo e as rotas percorridas pelos dois helicópteros. A apuração técnica das causas caberá ao Cenipa (Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos).
Dados obtidos pela reportagem mostram 12 atendimentos envolvendo ocorrências com aeronaves no Rio em 2026 até agora — alta de 300% sobre o mesmo período de 2025, quando houve três ocorrências.
Cinco vítimas estavam em um dos helicópteros que colidiram no ar; o piloto Charles Marsillac estava sozinho na outra aeronave.
- Oliver Tree Nickel — passageiro
- Lucas Vignale — passageiro
- Gaspar Prim — passageiro
- Lucas Brito Chaves — passageiro
- Alexandre Souza — piloto
- Charles Marsillac — piloto
*Com informações de Camille Barbosa e Cleber Rodrigues



