Apesar de a China concentrar 80% das exportações de soja e 86% das vendas externas de carne bovina brasileira, o agro brasileiro demonstra maior confiança nos Estados Unidos do que no país asiático. O resultado faz parte de uma pesquisa da FGV RI (Escola de Relações Internacionais da Fundação Getulio Vargas) realizada em municípios da fronteira agrícola no Centro-Oeste e do Norte do país no fim de 2025.
Segundo o levantamento, 21,8% dos entrevistados classificam os Estados Unidos como “muito confiáveis”, enquanto 12,6% atribuem a mesma avaliação à China. A diferença supera nove pontos percentuais.
O estudo também aponta que a confiança na China caiu quase 20 pontos percentuais em relação a 2017, período em que as relações comerciais entre os dois países continuaram a se expandir.
Para os pesquisadores, os resultados indicam que a forte dependência comercial da região em relação ao mercado chinês não se traduz necessariamente em maior alinhamento político ou confiança entre os entrevistados.
“A fronteira agrícola vende para a China sem confiar nela e confia nos Estados Unidos sem depender deles comercialmente. A pesquisa mostra que confiança política e dependência econômica são coisas distintas e seguem lógicas diferentes”, disse Matias Spektor, diretor da FGV RI e um dos autores da pesquisa.
União Europeia
A percepção dos brasileiros em relação às exigências ambientais impostas pela UE (União Europeia) é marcada por pragmatismo e ambivalência. Embora a maioria dos entrevistados reconheça benefícios estratégicos na adequação às normas europeias, também há um entendimento significativo de que essas regras podem trazer custos econômicos e atender a interesses próprios do bloco europeu.
De acordo com os dados, 74,3% dos entrevistados concordam que o cumprimento dos requisitos ambientais da UE contribuiria para fortalecer a reputação internacional do Brasil.
Por outro lado, 66,9% acreditam que a conformidade com essas normas reduziria a competitividade dos produtos brasileiros, indicando preocupações com possíveis impactos econômicos e custos adicionais para os setores exportadores. Além disso, 61,5% dos participantes afirmam que as regulações ambientais europeias servem principalmente aos interesses econômicos da própria União Europeia.
Segundo os pesquisadores, essas avaliações não são contraditórias, e revelam uma “conformidade pragmática”. Na interpretação do estudo, os entrevistados enxergam as exigências europeias como uma condição necessária para manter o acesso a um mercado considerado estratégico e valioso, mas não necessariamente como a expressão de princípios ou valores compartilhados entre as partes.
Alinhamentos políticos
O relatório também apresenta um retrato do perfil político da região. Segundo o levantamento, 83,5% dos moradores se identificam como de direita ou centro, enquanto 16,5% se declaram de esquerda.
A pesquisa mostra ainda que 55,9% consideram que o governo interfere excessivamente na vida das pessoas e 64,3% avaliam que a regulação estatal dos negócios gera mais efeitos negativos do que positivos.
Os autores do estudo apontam que essas percepções influenciam a forma como a população da região avalia atores e modelos externos, incluindo Estados Unidos, União Europeia e China.
O levantamento destaca ainda que o aumento da relevância eleitoral da fronteira agrícola, uma vez que seus estados representam cerca de 15% do eleitorado nacional, pode ampliar o peso político das preferências da região nos debates sobre política externa e relações com Washington, Pequim e Bruxelas.
“Uma política externa que presume que a fronteira agrícola seguirá seus interesses comerciais em direção ao alinhamento político com qualquer parceiro individual interpreta equivocadamente a realidade da região”, afirmou Spektor.



