Logística do agronegócio: tecnologia para evitar atrasos

O uso de tecnologia na logística do agronegócio pode ajudar produtores, cooperativas e empresas agrícolas a planejar o transporte da safra, acompanhar cargas e identificar atrasos antes que eles comprometam as entregas. Com a produção de grãos em crescimento, a circulação de mercadorias entre propriedades rurais, armazéns, indústrias e portos exige maior coordenação.

Segundo o primeiro levantamento da safra 2026/27, divulgado pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) em 15 de outubro de 2026, o Brasil deve produzir 367,1 milhões de toneladas de grãos, aumento de 1,4% em relação ao ciclo anterior.

O volume previsto reforça uma preocupação conhecida do setor: como movimentar a produção dentro dos prazos e sem comprometer a rentabilidade. Sistemas de agendamento, monitoramento de cargas e compartilhamento de informações estão entre as ferramentas que podem auxiliar nessa tarefa.

Os custos da logística do agronegócio

O transporte rodoviário ainda enfrenta dificuldades relacionadas às condições das estradas, às distâncias entre regiões produtoras e mercados consumidores e à concentração das operações durante a colheita.

De acordo com a Pesquisa CNT de Rodovias 2025, as condições inadequadas do pavimento aumentam, em média, 31,2% os custos operacionais do transporte rodoviário, conforme a metodologia do levantamento. O indicador considera o transporte de cargas em geral e não representa um aumento específico do frete agrícola.

Essas deficiências nas estradas se somam aos gargalos de logística e armazenagem que afetam a rentabilidade no campo. Embora a digitalização não resolva problemas de infraestrutura, o uso de informações operacionais pode ajudar a identificar falhas no planejamento, reduzir deslocamentos improdutivos e organizar melhor os horários de carregamento e descarga.

Como a integração de dados pode melhorar o transporte agrícola?

Uma operação agrícola pode envolver diferentes transportadoras, unidades armazenadoras, cooperativas e empresas compradoras. Quando cada participante trabalha com informações isoladas, alterações nos horários de carregamento, na disponibilidade de veículos ou nas condições de recebimento podem demorar a chegar aos demais envolvidos.

O compartilhamento de dados permite que essas mudanças sejam comunicadas com maior rapidez. Um sistema de agendamento, por exemplo, pode organizar a chegada de caminhões conforme a capacidade de carregamento ou descarga, diminuindo a possibilidade de filas provocadas por falhas de programação.

Para Thiago Cardoso, executivo responsável pelo segmento de agronegócio da nstech, empresa de tecnologia para a cadeia logística, o compartilhamento das informações entre os participantes merece atenção.

“O agronegócio brasileiro avançou muito em produtividade dentro da porteira, mas ainda existe um potencial importante de eficiência na conexão entre os diferentes elos da cadeia. Não basta uma transportadora ter tecnologia ou uma indústria ter visibilidade da sua operação. O ganho acontece quando essas informações se conectam e permitem decisões coordenadas, desde a origem até o destino”

O benefício depende, entretanto, da participação das empresas envolvidas e da qualidade dos dados disponíveis. Ter um sistema digital em apenas uma etapa da operação não garante que as informações cheguem aos demais participantes.

Planejamento da safra exige maior previsibilidade no transporte

Durante os períodos de colheita, a demanda por caminhões aumenta e diferentes cargas podem disputar a mesma infraestrutura de recebimento, armazenagem e transporte.

A programação antecipada permite avaliar a disponibilidade de veículos, os horários de entrega e as restrições de capacidade dos destinos. Sistemas de monitoramento também podem indicar atrasos em trânsito e auxiliar no remanejamento das operações quando necessário.

O acompanhamento ganha importância nas rotas que envolvem diferentes modalidades de transporte, como o deslocamento rodoviário até terminais ferroviários ou hidroviários. Nesses casos, atrasos em uma etapa podem comprometer o planejamento das seguintes.

“Em operações de grande escala, pequenos ganhos de eficiência podem representar impactos importantes no resultado. A tecnologia permite antecipar situações que antes eram identificadas apenas quando já haviam comprometido a operação, tornando o planejamento mais preciso e a utilização dos recursos mais eficiente”, destaca Cardoso.

O uso dessas ferramentas, porém, precisa considerar as condições reais do transporte. Restrições de infraestrutura, eventos climáticos e mudanças na disponibilidade de veículos podem exigir ajustes mesmo em operações planejadas digitalmente.

Rastreamento de cargas e segurança no transporte

Outro campo de aplicação da tecnologia é o acompanhamento das cargas agrícolas ao longo do percurso. Sistemas de rastreamento permitem verificar a localização de veículos, registrar eventos durante o transporte e identificar alterações na rota prevista. Dependendo da tecnologia utilizada, os registros podem auxiliar na apuração de ocorrências e no controle das entregas.

As necessidades variam conforme o produto transportado. Na movimentação de grãos, o acompanhamento pode contribuir para o controle de volumes e a identificação de divergências entre origem e destino. No transporte de produtos perecíveis, informações sobre tempo de viagem e condições de conservação também podem ser necessárias.

O rastreamento, isoladamente, não impede perdas, furtos ou danos à carga. Seus benefícios dependem de procedimentos de segurança, capacidade de resposta às ocorrências e atuação coordenada entre os responsáveis pelo transporte.

Como avaliar se a tecnologia trouxe resultados?

Antes de investir em ferramentas de gestão logística, produtores e empresas agrícolas precisam identificar quais problemas pretendem resolver e quais etapas do transporte estão sob sua responsabilidade.

Entre os indicadores que podem ser acompanhados estão o tempo médio de espera para carregamento e descarga, o custo do frete por tonelada, o cumprimento dos horários de entrega, a ocorrência de viagens improdutivas e a quantidade de cargas com divergências ou avarias.

Comparar esses dados antes e depois da adoção de um sistema pode ajudar a verificar se houve melhora no desempenho operacional. A análise também deve considerar mudanças de rota, volume transportado, sazonalidade e condições de mercado, que podem influenciar os resultados.

A contratação de uma ferramenta digital exige atenção à integração com os sistemas existentes, aos custos de implantação e manutenção, ao treinamento das equipes e à conectividade disponível nas regiões atendidas.

Para produtores que contratam o transporte de terceiros, o acesso às informações dependerá ainda dos acordos estabelecidos com transportadoras, cooperativas ou empresas compradoras.

Com a previsão de mais uma safra de grande volume, o planejamento logístico continuará a influenciar os custos da atividade agrícola. O desafio para os participantes da cadeia é identificar quais informações precisam ser compartilhadas, quem será responsável por cada decisão e como medir os resultados obtidos com a tecnologia.

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