O que esperar da Era Warsh no Fed e o impacto nos juros e no Brasil


A decisão sobre os juros norte-americanos, que deve ser divulgada nesta quarta-feira (17), mobiliza a atenção do mercado global não apenas pelo patamar das taxas, mas pela estreia de Kevin Warsh no comando do Federal Reserve (Fed). A expectativa é de uma mudança na condução da política monetária dos Estados Unidos: sai a dependência excessiva de dados passados, entra uma postura mais ortodoxa, atenta a sinais de mercado em tempo real e com maior rigor no controle inflacionário.

O grande desafio da “Era Warsh” será equilibrar a persistência da inflação americana com as pressões políticas da Casa Branca, além de navegar os impactos econômicos do superciclo da inteligência artificial.

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Um perfil ortodoxo e rede de influência

Warsh não é um estranho ao poder. Ex-membro do conselho do Fed, ele construiu sua credibilidade em passagens pelo mercado financeiro, atuando como sócio e assessor da Duquesne Family Office, do investidor Stanley Druckenmiller, e na academia, como pesquisador do Hoover Institution (Universidade de Stanford).

Além de sua bagagem técnica, o novo chairman transita com fluidez pelo núcleo financeiro do Partido Republicano. Nomeado por Donald Trump e confirmado pelo Senado, Warsh é casado com a herdeira Jane Lauder, filha de Ronald Lauder, um bilionário megadoador de campanhas conservadoras e aliado de longa data do presidente, com quem estudou na Wharton School.

Apesar dessa teia de conexões que pavimentou sua indicação, o mercado projeta que a sua gestão será testada no momento em que a sua visão de um Banco Central austero colidir com o histórico de Trump de exigir publicamente cortes agressivos nas taxas de juros.

Inteligência artificial e juros: a tese de Warsh

Um ponto central para entender a nova presidência é a visão de Warsh sobre a tecnologia. Gestores como Shinichiro Fukui, da Stratton Capital, empresa americana com base em Nova York, apontam que o novo presidente do Fed observa o “superciclo de inteligência artificial” como um motor de ganho de produtividade, o que poderia justificar a política de redução de juros.

Na visão de Warsh, os bilhões investidos pelas empresas de tecnologia em data centers e infraestrutura tendem a reduzir o custo unitário do trabalho e gerar ganhos massivos de eficiência, explica Fukui. Esse cenário criaria uma desinflação estrutural na economia americana, o que, no longo prazo, permitiria um patamar de juros mais baixo — sem que o Fed precise sacrificar sua ortodoxia no curto prazo.

Para Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos, as expectativas para a gestão de Warsh são de uma condução mais ortodoxa. “Embora não haja expectativa de mudanças abruptas na trajetória dos juros, investidores acreditam que sua gestão tenderia a ser menos tolerante com pressões inflacionárias persistentes e mais cautelosa na hora de iniciar ou acelerar cortes de juros”, avalia Lima. 

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Possível fim do “espelho retrovisor” e dot plot

A principal marca intelectual de Warsh, expressa em seus artigos nos últimos anos, é a dura crítica à forma como o Fed toma decisões e à expansão desenfreada de seu balanço patrimonial, diz Fukui.

Para ele, o órgão atualmente decide os juros olhando pelo “espelho retrovisor”, ou seja, ancorando-se excessivamente em modelos defasados e dados de inflação do passado. Em vez disso, ele defende a leitura de sinais de mercado em tempo real, monitorando ativos como commodities, ouro e as curvas de yields dos títulos do Tesouro.

Na prática, analistas esperam o possível fim do forward guidance (orientação futura) tradicional e do “Dot Plot”, o gráfico de pontos onde os diretores sinalizam suas previsões de juros a longo prazo. Warsh avalia que essas ferramentas engessam o Banco Central e geram ruídos desnecessários na comunicação.

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Impacto no Brasil: dólar forte e pressão na Selic

Para o Brasil e outros mercados emergentes, essa mudança de estilo impõe desafios severos. Segundo Fábio Murad, sócio da Ipê Avaliações, e Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos, a menor tolerância de Warsh com pressões inflacionárias reforça a percepção de que os juros americanos permanecerão restritivos por mais tempo, sustentando a força do dólar globalmente.

O risco central, no entanto, é o aumento da volatilidade. Sem o “Dot Plot” para guiar as expectativas de forma suave, o mercado viverá de solavancos a cada novo dado econômico divulgado nos EUA. Essa imprevisibilidade importada exigirá que o Banco Central do Brasil (Copom) embuta um prêmio de risco maior na taxa Selic para blindar o real e evitar a fuga de capitais, limitando o espaço para afrouxamento monetário por aqui.

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O que esperar da decisão do Fed

Para a reunião inaugural de Warsh, relatórios do Bank of America (BofA) indicam a manutenção das taxas de juros, mas projetam alterações vitais no comunicado oficial.

O BofA espera a remoção completa da diretriz de afrouxamento monetário das orientações futuras, chancelando a nova postura cautelosa. Para os investidores locais, o cenário reforça a necessidade de diversificação global e exposição controlada a ativos dolarizados.

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