Os sinais que Lula pode dar para recuperar a confiança do mercado | Blogs | CNN Brasil


Lula não precisa esperar janeiro para começar a mostrar como pretende conduzir a economia no seu 4º mandato. E alguns sinais dados ainda na transição podem ser fundamentais para iniciar um processo de recuperação da confiança dos investidores.

Jeferson Bittencourt, head de macroeconomia do ASA, aponta três frentes principais. São decisões que exigem definição de prioridades e disposição para negociar o custo político das mudanças.

A primeira é evitar colocar todas as propostas da campanha na conta de 2027. Bittencourt defende que as medidas sejam distribuídas ao longo do mandato e que o governo não tente “incorporar isso tudo de uma vez já para 2027”.

Isso significa estabelecer uma sequência: o que pode começar agora, o que depende de recursos e o que precisa ser revisto. Para quem acompanha as contas públicas, essa organização ajuda a dimensionar o tamanho da conta. Mas apenas adiar despesas, sem indicar como serão financiadas no futuro, não elimina a incerteza.

Felipe Salto, economista-chefe e sócio da Warren Investimentos, também coloca a trajetória fiscal no centro da reconstrução da confiança. Para ele, o essencial é que o governo apresente um plano de recuperação do superávit primário, sem concentrar o ajuste em apenas um ano.

“O essencial é que anuncie um plano de recuperação do superávit primário, não com medidas concentradas em um ano, o que seria inviável, mas, sim, providências com efeitos espalhados ao longo do tempo. A questão é apresentar e aprovar esse programa o quanto antes”, afirma.

A avaliação reforça a ideia de que o mercado não espera necessariamente um ajuste imediato e concentrado, mas uma trajetória que mostre de onde virá a melhora das contas públicas e em quanto tempo ela poderá acontecer.

O segundo sinal apontado por Bittencourt passa pela LDO (Lei de Diretrizes Orçamentárias). O economista propõe que o governo seja obrigado a orientar os cortes pelo centro da meta fiscal, em vez de usar o limite inferior da margem de tolerância.

Parece uma discussão técnica, mas ela tem uma consequência concreta: define quanto o governo precisa conter de despesas quando a arrecadação não acompanha o previsto. Mirar o centro exigiria um esforço maior do que simplesmente se manter dentro do piso permitido pela regra fiscal.

Na avaliação de Bittencourt, essa mudança poderia ser feita pela própria LDO, sem necessidade de uma emenda à Constituição, desde que houvesse negociação com o Congresso.

A terceira frente envolve as indicações para o Banco Central e o Supremo Tribunal Federal. Para Bittencourt, as escolhas podem mostrar uma disposição do Executivo de buscar, em conjunto com os demais Poderes, a recuperação da imagem das instituições.

Banco Central e STF têm funções distintas, mas aparecem na avaliação do economista como parte das preocupações dos investidores, ao lado da situação fiscal.

Já Zeina Latif aponta como primeiro sinal a formação de um “time econômico com diagnósticos corretos e empoderado”. Ela destaca ainda a necessidade de articulação com o centro democrático no Congresso, inclusive com participação no governo, e de uma “Casa Civil com capacidade política”.

São condições que ajudam a dar respaldo à equipe econômica, coordenar os diferentes ministérios e construir apoio parlamentar para transformar anúncios em medidas efetivamente aprovadas.

Mas Bittencourt identifica justamente nessa negociação uma das principais dificuldades: convencer outros grupos políticos a dividir o desgaste de um ajuste pelo qual podem não se considerar responsáveis. Há ainda o desafio de explicar eventuais mudanças em relação ao discurso adotado durante a campanha.

Essa conta também chega às famílias e às empresas. O economista avalia que uma mudança fiscal convincente poderia aliviar os juros de mercado e melhorar as condições para refinanciar dívidas em um momento de desaceleração da economia.

Porém, o histórico do terceiro mandato eleva a cobrança sobre os próximos passos. Reconquistar a confiança, nas palavras de Bittencourt, “vai requerer um esforço muito maior”.

E, como destaca Salto, a velocidade da sinalização também importa: não é preciso resolver todo o problema fiscal de uma vez, mas apresentar e aprovar o quanto antes um programa capaz de mostrar que a trajetória das contas públicas pode mudar ao longo dos próximos anos.



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