A mudança no calendário de compras da China e a redução gradual da oferta de animais devem mudar a dinâmica do mercado de boi gordo a partir do terceiro trimeste deste ano. Segundo a StoneX, o setor deve entrar em uma nova fase, com impacto sobre exportações, confinamento e preços da arroba.
No relatório de perspectivas para o terceiro trimestre de 2026, a consultoria destaca que a demanda internacional teve papel central na definição da sazonalidade da pecuária brasileira. O ritmo das compras externas passou a influenciar decisões dentro da porteira, como o momento de entrada dos animais em confinamento, a formação das escalas de abate dos frigoríficos e o comportamento das cotações da arroba.
Segundo a StoneX, a implementação das cotas chinesas levou importadores a anteciparem parte das compras para o início do ano, deslocando uma parcela da demanda que tradicionalmente se concentrava no segundo semestre.
A mudança reduz a previsibilidade do mercado e cria um novo desafio para a indústria e para os pecuaristas, já que o período historicamente marcado por maior demanda internacional chega com uma configuração diferente.
Na avaliação da consultoria, o impacto dessa alteração não está apenas em uma possível redução momentânea dos embarques, mas na possibilidade de uma mudança estrutural no calendário de compras da China. Com isso, o setor pode passar a conviver com uma distribuição mais equilibrada das exportações ao longo do ano, em vez de uma concentração maior na segunda metade do calendário.
Oferta de animais
Do lado da produção, a StoneX aponta sinais de transição no ciclo pecuário brasileiro. Depois de um período de maior disponibilidade de animais, impulsionado pelo descarte elevado de fêmeas, o mercado começa a caminhar para uma fase de menor oferta.
A redução gradual do abate de fêmeas e o processo de recomposição do rebanho indicam uma menor disponibilidade futura de animais para terminação. Além disso, a consultoria observa um comportamento mais seletivo dos confinamentos, com produtores avaliando com maior cautela os custos de produção e as oportunidades de mercado.
Esse movimento tende a limitar o crescimento da oferta de carne bovina nos próximos meses e pode criar um ambiente mais favorável para a sustentação dos preços da arroba.
O terceiro trimestre de 2026 será considerado pela StoneX como um período de teste para esse novo cenário. Tradicionalmente, entre julho e setembro ocorre a entrada de animais confinados e uma aceleração das exportações brasileiras. Neste ano, entretanto, o mercado chega a esse momento com duas forças atuando em sentidos diferentes.
De um lado, uma oferta mais restrita de animais pode reduzir a pressão sobre os preços. Do outro, uma eventual desaceleração da demanda externa aumenta a importância do consumo doméstico para absorver a produção nacional.
Mercado interno
A StoneX também destaca que a competição entre proteínas será um dos pontos de atenção para a pecuária brasileira. Apesar de o Brasil manter uma posição de liderança no comércio mundial de carne bovina, o país também possui forte presença nas exportações de carne de frango e uma produção relevante de carne suína.
Com uma possível redução do ritmo das compras externas, a carne bovina poderá disputar espaço no mercado interno com outras proteínas, especialmente em um cenário de consumidor mais sensível aos preços.
Para a consultoria, a capacidade de o mercado doméstico absorver uma eventual oferta adicional será determinante para a formação das cotações ao longo do segundo semestre.
Entre os fatores positivos para a pecuária, a StoneX destaca a menor disponibilidade de animais, a reconstrução do rebanho e a possibilidade de crescimento mais moderado dos confinamentos. Já os principais riscos estão relacionados à reorganização das compras chinesas, ao comportamento da demanda internacional e à concorrência com outras proteínas.
A avaliação da consultoria é que o principal ponto de observação para os próximos meses não será apenas o volume exportado ou a quantidade de animais disponíveis para abate, mas a velocidade com que essas duas transformações irão ocorrer.
“O mercado deverá acompanhar se a redução da oferta de gado avançará mais rapidamente do que a reorganização da demanda externa e qual será a resposta do consumidor brasileiro diante desse novo equilíbrio da pecuária nacional.



