A entrada dos investidores Ederson e Everton Muffato no capital do Assaí ocorre em um momento de desconfiança do mercado com o varejo alimentar brasileiro e abre espaço para especulações sobre possíveis movimentos societários no setor.
Para o analista da Suno Research João Daronco, a operação pode combinar uma aposta na recuperação das ações da companhia com a expectativa de mudanças na estrutura do mercado.
Os investidores ligados à família Muffato passaram a deter 15,02% das ações ordinárias e posições em derivativos do Assaí, conforme comunicado divulgado ao mercado. Ainda de acordo com as informações prestadas pelos Investidores, as participações indicadas não há participação específica visada pelo grupo.
A movimentação reacende discussões sobre uma possível fusão ou combinação de negócios envolvendo os grupos, embora a participação acionária, por si só, não confirme a existência de negociações nesse sentido.
“Eu vejo esses dois aspectos que andam juntos”, afirma Daronco, ao se referir à possibilidade de movimentos societários e à oportunidade de investimento em uma companhia cujas ações sofreram forte desvalorização.
O Assaí enfrenta um cenário de pressão sobre o consumo, endividamento elevado e desafios para ampliar a rentabilidade depois de um ciclo de expansão. O ambiente também afeta outras redes do setor, que disputam o orçamento de famílias pressionadas pelo custo de vida e pelo comprometimento da renda.
Na avaliação de Daronco, a desvalorização dos papéis pode ter aberto uma janela de oportunidade para investidores com conhecimento do negócio.
A perspectiva de recuperação do consumo no fim do ano também poderia favorecer as redes de varejo alimentar, caso parte da renda hoje destinada a apostas on-line, depois da proibição da operação das bets, volte a circular em outros segmentos da economia.
A situação aparece nos indicadores da CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo). Em setembro, 81,7% das famílias brasileiras estavam endividadas, enquanto 29,6% tinham dívidas em atraso. O comprometimento médio da renda com débitos também subiu, de 29,3% em agosto para 29,6% em setembro.
Segundo levantamento da Abras (Associação Brasileira de Supermercados), o varejo alimentar cresceu 6,5% na semana de 5 a 11 de outubro e 6,3% na semana seguinte, na comparação com os mesmos períodos de 2025.
A entidade identificou avanço em produtos essenciais, como arroz, óleo, macarrão e café, e atribuiu parte do movimento à restrição das apostas.
“Eu vejo que isso representa, primeiro, o Assaí estando muito descontado em relação a todos esses desafios”, diz o economista.
A eventual melhora do consumo, porém, ainda depende de fatores como a evolução da renda disponível, o comportamento do crédito e a capacidade das empresas de transformar vendas em resultados.
Uma recuperação do faturamento não implica, necessariamente, aumento proporcional da rentabilidade, especialmente em um setor de margens estreitas e competição intensa.
A movimentação dos Muffato também se insere em um contexto mais amplo de mudanças na composição acionária das grandes redes brasileiras. A família Coelho Diniz, por exemplo, ampliou sua participação no GPA, grupo dono do Pão de Açúcar.
Os movimentos chamam atenção para a presença crescente de empresários com experiência direta no varejo em companhias de grande porte.
Para Daronco, períodos de baixa na Bolsa podem favorecer essa transição, ao permitir que investidores com conhecimento operacional ampliem sua exposição a empresas negociadas a preços menores.
“O mercado está muito desacreditado e, com isso, a gente tem visto investidores e acionistas mudando as mãos das ações e caindo na mão de quem verdadeiramente entende”, afirma.



