Proteger consumo das famílias é agenda de desenvolvimento | Blogs | CNN Brasil


Quando discutimos os caminhos para o crescimento brasileiro, falamos de juros, inflação, investimento e produtividade. Precisamos também discutir a qualidade do consumo: como o orçamento das famílias é utilizado e quanto ele contribui para melhorar suas condições de vida.

A decisão de proibir as bets trouxe essa discussão para o centro da agenda. A Medida Provisória 1.394/2026, editada em setembro, proibiu a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade das apostas de quota fixa. A norma está em vigor, mas ainda depende de aprovação no Congresso para se tornar definitiva.

1. Audiência no Supremo: qualidade do consumo precisa entrar no debate econômico

Nesta terça-feira, 3 de novembro, o Supremo Tribunal Federal realiza uma audiência pública sobre os impactos da medida. Convocada pelo ministro Luiz Fux, ela integra uma ação apresentada pela Associação Nacional de Jogos e Loterias, que pede a suspensão da proibição e sua declaração de inconstitucionalidade.

A audiência não revoga a medida, mas subsidia um julgamento que pode alterar sua continuidade. Por isso, é fundamental que os interesses das empresas, dos patrocinados e dos demais setores envolvidos sejam discutidos ao lado dos efeitos sobre alimentação, endividamento e saúde.

Após solicitação da AGU, foram incluídos representantes dos ministérios da Saúde e da Justiça e da própria Abras.

A pergunta econômica precisa alcançar o conjunto da sociedade: quais atividades e padrões de consumo fortalecem o bem-estar das famílias e a capacidade produtiva do país?

2. O que a Abras mostrou sobre a volta do dinheiro e da comida à mesa

Na quarta-feira passada, 28 de outubro, destaquei no meu quadro na CNN os resultados divulgados naquele dia pela Associação Brasileira de Supermercados.

O volume de compras no varejo alimentar cresceu 6,5% entre 5 e 11 de outubro e 6,3% entre 12 e 18 de outubro, na comparação com as mesmas semanas de 2025. O avanço alcançou todas as regiões analisadas e diferentes formatos de comércio.

Segundo João Galassi, presidente da Abras, em coletiva de imprensa, recursos antes destinados às apostas voltaram ao orçamento familiar, impulsionando a compra de alimentos. A entidade destacou o aumento do consumo de arroz, óleo, macarrão e café: produtos básicos que mostram como essa mudança chega à mesa das famílias.

A Abras também associou esse movimento à redução das transações via Pix, citando uma queda inicial de 10%, posteriormente situada em aproximadamente 7%, com base em dados do Banco Central. Para a entidade, os indicadores apontam uma mudança no destino dos recursos das famílias.

Essa mudança tem relevância econômica e social. O dinheiro que passa a atender necessidades básicas movimenta supermercados, comércio local, indústria de alimentos, agricultura e serviços de distribuição. Ao mesmo tempo, a proteção contra os danos das apostas alcança a saúde mental e as relações familiares, dimensões reconhecidas pela Organização Mundial da Saúde.

Melhorar a qualidade do consumo também significa fortalecer as condições para aprender, trabalhar e produzir. Essa conexão precisa ocupar espaço na discussão sobre competitividade brasileira.

3. Da medida provisória à proteção permanente

A eleição terminou. Independentemente da avaliação sobre a motivação ou o momento político da decisão, o compromisso agora deve ser com seus resultados e com os benefícios de longo prazo para a população.

Existem duas frentes a acompanhar. No Supremo, os próximos atos da ação indicarão se a proibição será mantida ou terá seu alcance alterado. No Congresso, será necessário acompanhar a instalação da comissão mista, o parecer, as emendas e as votações na Câmara e no Senado. A MP ainda aguardava a instalação da comissão na tramitação consultada.

O prazo inicial de apreciação vai até 23 de novembro, com previsão constitucional de prorrogação automática por mais 60 dias caso a votação não esteja concluída. Sua transformação em legislação permanente depende da aprovação parlamentar. A mobilização da sociedade precisa acompanhar também eventuais mudanças no texto que enfraqueçam a proteção das famílias.

Também será importante acompanhar os próximos dados de consumo, endividamento e saúde, além da fiscalização das plataformas clandestinas. A continuidade da proteção exige capacidade de aplicação e transparência sobre os resultados.

O Brasil precisa transformar medidas com efeitos positivos em políticas duradouras. Preservar o orçamento familiar, favorecer o acesso à alimentação e enfrentar os danos das apostas faz parte de uma agenda de desenvolvimento que combina prosperidade econômica, saúde e inclusão social.

Passado o calendário eleitoral, essa responsabilidade permanece.



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