O empresariado brasileiro está em clima de pessimismo acentuado. Essa é a avaliação da XP após reunir 106 empresas e cerca de 500 investidores em mais de 700 reuniões na terceira edição da Brazil CEO Conference, realizada nesta semana no Rio de Janeiro. Segundo a casa, o encontro revelou um sentimento deprimido não apenas entre gestores, mas também entre os próprios executivos. Resultado: o indicador proprietário de sentimento da XP voltou a níveis de pessimismo extremo, patamar que historicamente funcionou como forte indicador contrário.
Três preocupações concentraram as conversas. A primeira é o estado da economia brasileira, que aparenta desacelerar em ritmo mais rápido do que o esperado. A segunda são os riscos do mercado de crédito diante da alta da inadimplência, com empresas e famílias em situação financeira apertada enquanto os juros seguem elevados. A terceira envolve as eleições e a política fiscal à frente.
No varejo, a leitura foi de desaceleração generalizada do consumo, atribuída pelas companhias ao fluxo mais fraco de lojas durante a Copa do Mundo, às condições financeiras apertadas diante do alto endividamento, à concorrência das apostas online pelo orçamento das famílias e aos sinais de economia em arrefecimento. Os analistas Danniela Eiger, Pedro Caravina e Laryssa Sumer descreveram o clima como modo de alerta de recessão, com a preocupação sobre um eventual recuo da atividade em 2027 dominando as reuniões. A defensividade de cada modelo de negócio passou a ocupar o centro das apresentações.
Mas nem todos os segmentos sofrem na mesma intensidade. Farmácias, plataformas online e shoppings reportaram números sólidos, enquanto vestuário e itens discricionários aparecem em situação bem mais desafiadora.
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A Lojas Renner (LREN3) atribuiu à Copa o principal peso no recente corte de guidance, já que o desempenho seguiu dentro do orçamento até o começo de junho antes de o fim do mês e julho virarem entrave, o que levou a companhia a adotar perspectiva mais conservadora. Na C&A (CEAB3), o tráfego ficou pressionado durante todo o período do torneio, e não apenas nos dias de jogos, com consumidores mais sensíveis a preço do que em maio e ambiente promocional mais pesado sobre os estoques de inverno. A varejista reduziu o capex para cerca de 7% das vendas, ante 8,5%.
Na contramão, o Magazine Luiza (MGLU3) destacou ganhos de participação de mercado, com alta de 10% nas vendas de lojas físicas no segundo trimestre e tendências positivas em julho e agosto, além da oportunidade de capturar volume das 298 lojas fechadas pela Casas Bahia (BHIA3). Mesmo no cenário restritivo, sua carteira de crédito passou de R$ 1,5 bilhão para R$ 2 bilhões em doze meses, com queda na inadimplência. Já a Smart Fit (SMFT3) reforçou a disciplina na alocação de capital, com maior seletividade em projetos no topo da faixa de retorno de 35% a 40% sobre o caixa investido, em razão do cenário mais incerto.
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O segundo grande tema foi a piora do crédito. O Itaú (ITUB4) reconheceu evidências crescentes de que a manutenção prolongada de juros altos começa a pressionar tomadores em todos os segmentos, mas ainda enxerga o quadro como compatível com um pouso suave, e não com deterioração acentuada da qualidade dos ativos. A concessão no varejo passou a exigir esforço substancialmente maior de cobrança e monitoramento para sustentar desempenho comparável.
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No Banco do Brasil (BBAS3), a XP avalia que a qualidade dos ativos deve seguir como tema dominante até o fim de 2026, após a deterioração na carteira de pessoa física. Parcela relevante do aumento da inadimplência tem origem em produtores rurais, que parecem adiar pagamentos na expectativa de sucessivos pacotes de socorro. O Bradesco (BBDC4), por sua vez, afirmou que os indicadores seguem sob controle, embora parte da pressão no segundo trimestre tenha vindo da carteira de capital de giro para pequenas e médias empresas, com o fim dos períodos de carência.
A visão mais dura veio do BR Partners (BRBI11), que argumentou que o período estendido de juros elevados deteriorou de forma significativa os fundamentos corporativos e do consumidor, com expectativa de aumento das situações de estresse financeiro nos próximos 12 a 18 meses. A inadimplência também apareceu como ponto de atenção nas distribuidoras de energia.
Entre os pontos positivos, a XP destacou petróleo e gás e distribuição de combustíveis. Diante do sentimento e dos preços deprimidos, a corretora avalia que a assimetria parece inclinada para o lado positivo, ainda que reconheça os riscos de revisões de lucros para baixo e de volatilidade eleitoral à frente.
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