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Governo de SP faz do dinheiro do crime organizado investimento para a segurança pública


O Governo de São Paulo já recuperou R$ 136,2 milhões em valores, ativos e bens por meio do Recupera-SP, programa criado em 2024 que atua na identificação, bloqueio e apreensão de patrimônio do crime organizado no estado. Entre os patrimônios recuperados estão valores em espécie, imóveis, veículos e outros bens que passam a ser destinados ao fortalecimento da segurança pública paulista e também do Ministério Público de São Paulo (MPSP).

A estratégia busca atingir uma das principais bases de sustentação das organizações criminosas: o dinheiro. O Recupera-SP trabalha em complemento às prisões de integrantes do crime, identificando e interrompendo os fluxos financeiros que permitem a essas estruturas investir, movimentar recursos e ampliar suas atividades.

O Recupera-SP se soma a outras iniciativas do Governo de São Paulo que reforçaram a estrutura de segurança e alcançaram a redução dos principais indicadores criminais. De janeiro de 2023 a junho de 2026, as polícias prenderam 718,9 mil infratores, retiraram 46,2 mil armas das ruas, recuperaram 178 mil veículos e apreenderam 774 toneladas de drogas.

Na comparação de janeiro a junho de 2026 com o mesmo período da série histórica, o estado registrou os menores números de homicídios (queda de 7,3%), latrocínios (36,2%), roubos em geral (16,4%), roubos de veículos (35,1%) e roubos de carga (32,8%).

Como funciona o programa

O Recupera-SP articula a atuação de órgãos como Polícia Civil, Ministério Público e Poder Judiciário para acelerar a identificação e a destinação de patrimônio relacionado ao crime, seja com bloqueio ou apreensão de bens, por exemplo. Depois de reconhecida judicialmente a origem ilícita, o patrimônio pode ser destinado ao poder público. A lógica é fazer com que o patrimônio do crime passe a ser empregado em benefício da sociedade, pelo Estado.

Um exemplo recente foi a autorização concedida pela Justiça para que a Polícia Civil de SP utilize um helicóptero Airbus Helicopters EC130 T2 apreendido na Operação Falsa Las Vegas, que investigou um esquema de jogos ilegais e lavagem de dinheiro. Avaliada em R$ 25 milhões, a aeronave ficará sob responsabilidade da Polícia Civil enquanto durar o processo criminal e poderá ser empregada em operações de segurança pública, apoio operacional, transporte de medicamentos e órgãos para transplantes e missões de auxílio emergencial.

A Justiça determinou ainda o bloqueio de aproximadamente R$ 5,2 bilhões em bens e ativos financeiros ligados aos investigados, além do sequestro de 76 imóveis.



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Morre veterinária atacada por cachorro no canil do Senado Federal


A veterinária Vitória Valle de Oliveira Pinha, de 36 anos, morreu, neste sábado (22), quatro dias depois de ser atacada por um cachorro pastor-belga no canil do Senado Federal, em Brasília (DF). A informação foi confirmada no final da manhã, em nota, pela assessoria de comunicação da Casa Legislativa.

Ela estava internada na unidade de terapia intensiva do Hospital de Base.

“O Senado Federal lamenta o falecimento de Vitória Valle de Oliveira Pinha, que atuava como tratadora de animais no Serviço de Cinotecnia da Casa”, diz a nota.

O comunicado acrescenta que Vitória foi estagiária no Senado entre os anos de 2022 e 2024.

Ela retornou à instituição como profissional terceirizada na prestação do serviço de cuidado dos animais. O Senado manifestou solidariedade à família, amigos e colegas de trabalho de Vitória, e destacou que ela será lembrada pela “dedicação com que sempre desempenhou suas atividades”.
Ataque ocorreu na terça

Na última terça (18), Vitória foi mordida no pescoço por um pastor-belga e sofreu uma parada cardiorrespiratória com o ataque. Na ocasião, ela foi socorrida por colegas, que acionaram o Corpo de Bombeiros. A veterinária foi submetida a uma cirurgia de emergência.

Segundo o site do Senado, o serviço de Cinotecnia tem a finalidade de treinar as equipes da Polícia Legislativa, com o auxílio de cães especializados, para as “atividades de patrulha e policiamento, detecção de substâncias ilícitas, explosivos e armas de fogo, intervenção em distúrbios civis, suporte em busca e apreensão e outras medidas”.

O Sindicato dos Servidores do Poder Legislativo Federal e do Tribunal de Contas da União (Sindilegis) manifestou profundo pesar após a confirmação da morte da veterinária durante o exercício de suas atividades profissionais.

“Neste momento de dor, o Sindilegis expressa solidariedade à família, aos amigos e aos colegas de trabalho e coloca-se à disposição da família”.



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Violinista Elisa Fukuda é feita refém em assalto em SP e tem instrumentos italianos roubados


Importante nome da música clássica brasileira, a violinista Elisa Fukuda, de 74 anos, teve a casa assaltada na madrugada da sexta-feira, 21, na Aclimação, no centro de São Paulo. A Secretaria de Segurança do Estado (SSP-SP) afirma que a polícia civil investiga o caso e que a perícia já foi acionada.

Segundo a equipe da artista, os ladrões, que ficaram no local por cerca de três horas, entre 2h30 e 2h30, roubaram dois violinos, ambos de artesãos italianos renomados: Guadagnini e Giuseppe Gagliano, este com detalhes em ouro.

O valor dos instrumentos levados não foi divulgado.

De acordo com a polícia, Fukuda relatou que estava dormindo quando os assaltantes invadiram o imóvel, onde estava com seu irmão. Os dois foram feitos de reféns durante o assalto.

A polícia afirma que a violinista foi obrigada a fazer transações bancárias. “Os criminosos fugiram subtraindo diversos pertences, como instrumentos musicais, bebidas e uma quantia em dinheiro”, informou a SSP-SP em nota. O caso é investigado pelo 8.º Distrito Policial do Brás.

Elisa Fukuda está bem após o assalto

Além dos violinos, a produtora de Fukuda, Amalia de Vincenzo, afirmou que também foram levados o celular e três arcos da artista. “Felizmente, ambos estão bem e não sofreram nenhuma lesão corporal. Estamos mobilizando todos os esforços possíveis para localizar e recuperar os instrumentos e não mediremos esforços nessa busca”, escreveu nas redes sociais.

A equipe de Fukuda aponta que o violino de Guadagnini era de ébano, com cavalete do artesão paulista Ivan Guimaraes. Já o Giuseppe Gagliano, também era de ébano, com detalhes em ouro 18k

“Ela está bem. Foi feita uma instalação de segurança na casa dela. Estamos fazendo o possível para que a Elisa possa conseguir seus instrumentos novamente”, disse o violinista Isaac Francisco, assistente de Fukuda.



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Mercado teme crise de crédito e não descarta recessão em 2027


A política monetária restritiva do Banco Central (BC) chegou com força à economia neste segundo semestre, como mostram o avanço da inadimplência e dos pedidos de recuperação judicial, entre eles o da Casas Bahia, protocolado no domingo (16), com cerca de R$ 17,3 bilhões em dívidas. Mesmo após quatro cortes que levaram a Selic de 15% para 14% desde março, os juros seguem restritivos, e a ausência de ajuste fiscal limita um alívio mais rápido, o que eleva o risco de crise de crédito e de recessão em 2027, alertam economistas do mercado financeiro.

“O impacto do juro demorou, mas chegou”, afirma Adauto Lima, economista para Brasil da gestora Franklin Templeton, que vê a economia brasileira muito alavancada, tanto nas empresas quanto nas famílias e no governo. O ambiente de juros ainda altos neste ano e no próximo, diz, aumenta o risco de uma crise de crédito capaz de derrubar a atividade nos próximos meses.

Lima estima uma chance de cerca de 20% de recessão em 2027, apesar de trabalhar com um cenário mais provável de crescimento de 1,5% do PIB. Mesmo nesse cenário base, avalia, o país pode registrar alguns meses de retração da atividade. Ele descarta, porém, uma queda abrupta como a que se seguiu ao governo Dilma Rousseff, em 2015 e 2016, e fala em um ou dois meses de PIB mais fraco ou negativo.

Alerta no crédito

O impacto dos juros no crédito foi adiado pelo avanço do mercado de capitais no financiamento das empresas, muitas vezes com incentivos fiscais e custos menores, observa Lima. Somaram-se a isso mais cartões, novos tipos de consignado e o crescimento dos Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs), que chegaram ao investidor final e ampliaram a oferta de recursos a famílias e empresas, compensando a retração das linhas bancárias.

Esse cenário de dinheiro farto já mostra sinais de retração, com a emissão de debêntures caindo 28,7% no ano até julho. A captação de Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRI) recuou 23,5%, e a de Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRA), 57,5%.

O mercado olha com preocupação a situação do crédito daqui para a frente. Lima já observa mais recuperações judiciais de empresas e mais famílias em atraso, sem que isso configure uma quebradeira generalizada. Mas a incerteza para 2027, avalia, vem do risco de o país sair desse período com a economia em processo de desalavancagem, já perdendo tração, e com uma política monetária que precisa seguir restritiva diante da inflação.

Nem mesmo o socorro do governo aos devedores tem ajudado, destaca o Citi em relatório. Segundo o banco americano, nem o aumento das transferências sociais nem os programas oficiais de ajuda reduziram a inadimplência, e a expectativa é de que os atrasos continuem piorando.

Desaceleração forte à vista

Lima observa que a economia já está perdendo força no terceiro trimestre e que o segundo semestre deve ser mais fraco. “Se isso se materializar, chegaremos a 2027 com a economia já crescendo 1,5% e fica a sensação de uma recessão ou desaceleração maior”, diz. Para ele, cortes de 0,25 ponto por reunião não alteram o quadro no curto prazo. “Quando colocamos os instrumentos de crédito recuando, alavancagem alta e dificuldade do BC de cortar juros, podemos ter uma ruptura que pode levar a um cenário de queda do PIB por alguns meses“, afirma.

Não se pode descartar a possibilidade de uma recessão no próximo ano, mas, aos olhos de hoje, o risco seria limitado, afirma Rodolfo Margato, economista da XP Investimentos. “Talvez a gente observe em alguns trimestres variação negativa do PIB, mas de forma consecutiva, especialmente na visão anual, não é o cenário da casa”, diz. O que há é a expectativa de uma piora de atividade.

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A XP trabalha com crescimento do PIB de 2% neste ano, desacelerando para 1% em 2027, com a redução dos estímulos fiscais e parafiscais e uma política monetária ainda contracionista, mesmo que em menor grau. A casa projeta Selic de 14% no fim deste ano e de 11,5% no fim do ano que vem.

As estimativas são mais conservadoras que a mediana do mercado. O Focus aponta Selic de 13,75% em dezembro de 2026 e PIB de 1,57% em 2027, ou seja, a XP embute a interrupção do ciclo de cortes já na reunião do Copom de setembro.

Margato cita ainda o elevado endividamento de empresas e principalmente das famílias como limite a um crescimento mais consistente da atividade, somado aos efeitos do El Niño sobre o agronegócio, à reforma tributária e às mudanças na escala 6×1, cuja proposta tramita no Senado e avançou nesta semana.

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O ano de 2027 será muito difícil para o Brasil, acredita Bruno Perri, economista-chefe e sócio-fundador da Forum Investimentos. Para ele, o país está chegando a um limite da expansão fiscal, “mesmo para o lado político que tem esse viés mais gastador”, diz. Além disso, empresas e famílias estão muito alavancadas. “Tirando o anabolizante dos gastos públicos deste ano, o país pode entrar em um ambiente recessivo muito severo e similar ao que se viu a partir de 2015“, afirma.

A possibilidade de recessão dominou as conversas entre investidores e executivos do setor de varejo em evento promovido pela XP no Rio de Janeiro nesta semana. Segundo os analistas Danniela Eiger, Pedro Caravina e Laryssa Sumer, os investidores se mostraram focados em dados para analisar a dinâmica do segundo semestre de 2026 em meio a sinais de desaceleração do consumo. “As empresas reconheceram amplamente o cenário mais difícil, e a postura defensiva e a resiliência de cada modelo de negócio tornaram-se parte central das histórias apresentadas”, destacaram os analistas em relatório.

Saída pelo fiscal

Para Margato, o risco maior seria um choque de confiança negativo sobre a política econômica nos próximos anos, especialmente do lado fiscal. “Por exemplo, se não houver qualquer sinalização do próximo governo, qualquer que seja, de reformar as contas públicas, o prêmio de risco subiria e haveria um impacto mais severo sobre a confiança de investidores, de empresários, de consumidores”, diz. Nesse caso, poderia ocorrer queda na atividade combinada a uma alta do dólar e a pressão inflacionária, levando à chamada estagflação. “Esse não é nosso cenário base, mas a gente precisa monitorar”, diz.

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O fiscal será decisivo para que a desalavancagem da economia não termine em recessão, concorda Lima. Um ajuste forte e crível pesaria sobre a atividade num primeiro momento, mas seria compensado pelo espaço que o BC ganharia para cortar juros mais rápido. “Em 2016, quando foi criado o teto de gastos, os juros longos caíram rapidamente e o BC conseguiu levar a Selic para 6,5% e aliviar o custo financeiro das empresas”, lembra.

O melhor cenário, na avaliação de Perri, seria os candidatos favoritos já sinalizarem disposição de fazer um ajuste, ainda que os cortes de gastos pesassem no curto prazo, como em 2016.

Para Matheus Jaconeli, analista de investimentos e portfólio da ZIIN, plataforma de investimentos da Unicred, as expectativas de mercado apontam mais para desaceleração, e não recessão. Mas reforça a importância da agenda fiscal, e lembra que o início de mandato costuma ser a janela ideal para que o governo implemente ajustes, aproveitando o capital político inicial antes de precisar focar em medidas de popularidade. “Se o governo avançar nessa agenda fiscal, o impacto tende a ser altamente positivo para a Bolsa”, diz.

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economia

Medida do Tesouro dos EUA é “como pagar hipoteca no cartão de crédito”, diz JPMorgan


A decisão do Tesouro dos Estados Unidos de ampliar a recompra de títulos públicos pode apenas empurrar o problema para frente, num momento em que a disparada da emissão global de dívida testa o apetite dos investidores, avalia o JPMorgan.

Segundo James Sullivan, corresponsável pela área global de pesquisa fundamentalista do banco, o Tesouro americano está na prática recomprando papéis de prazo mais longo enquanto emite títulos de curto prazo, estratégia que oferece alívio temporário sem reduzir o endividamento.

Sullivan comparou o desenho da operação ao refinanciamento de obrigações longas com dívida curta. “É um pouco como pagar sua hipoteca com o cartão de crédito. Pode funcionar por um tempo, mas em algum momento o descasamento começa a ficar mais evidente”, disse em entrevista à CNBC.

O Departamento do Tesouro, comandado pelo secretário Scott Bessent, anunciou na quarta-feira (19) que vai ao menos dobrar o tamanho das operações de recompra voltadas ao suporte de liquidez, elevando o teto por operação de US$ 2 bilhões para pelo menos US$ 4 bilhões em papéis com vencimentos entre 10 e 30 anos. O programa ampliado começa em 9 de setembro e vai até 4 de novembro.

Sullivan também questionou o próprio movimento de intervenção. “Governos tentando controlar mercados não costuma ser uma história particularmente atraente na maior parte do tempo”, afirmou.

Alívio que durou um dia

A reação inicial foi forte. O anúncio derrubou os juros longos em toda a curva americana, com o rendimento do título de 30 anos recuando nove pontos-base, para 5,196%, e o de 10 anos caindo 5,7 pontos-base, para 4,647%. O dólar enfraqueceu e houve onda de compras em ações, ouro e criptomoedas, num movimento que se estendeu aos mercados de dívida soberana da Europa e da Ásia-Pacífico no dia seguinte.

O efeito, porém, se reverteu na quinta-feira (20). O rendimento do título de 30 anos subiu 5,7 pontos-base, para 5,251%, e o de 10 anos avançou 5,1 pontos-base, para 4,704%, devolvendo praticamente todo o recuo e voltando aos níveis que vigoravam antes do anúncio. O papel de 30 anos ficou de novo perto da máxima de 19 anos registrada na semana.

As bolsas acompanharam. O Dow Jones caiu 1,32%, aos 52.759,21 pontos, o S&P 500 recuou 0,87%, aos 7.641,16 pontos, e o Nasdaq perdeu 1%, aos 26.067,17 pontos. Na mesma quinta-feira, Bessent afirmou à CNBC que o volume das recompras pode superar os US$ 4 bilhões anunciados por operação, sem conter o movimento.

Dívida de US$ 40 trilhões

A intervenção pode ajudar a administrar o custo de captação no curto prazo, mas, na visão de Sullivan, não enfrenta a questão central, que é a montanha de dívida pública e corporativa que precisará encontrar compradores.

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O desafio não se restringe aos Estados Unidos. Sullivan citou cerca de US$ 40 trilhões em dívida do governo americano e aproximadamente US$ 76 trilhões no conjunto dos governos de países desenvolvidos, ao lado de uma emissão recorde de títulos corporativos.

Mesmo com fundamentos econômicos sólidos, o aumento da oferta de papéis tem efeito sobre os mercados, já que mais dívida precisa ser absorvida, o que pode exigir dos emissores retornos mais atrativos. “A única forma de equilibrar oferta e demanda é pelo preço”, afirmou.

A conta fica mais complicada porque parte dos compradores tradicionais de dívida americana vem recuando. As posições da China em Treasuries estão no menor nível em 18 anos, enquanto os títulos americanos sob custódia para governos estrangeiros estão no patamar mais baixo em 14 anos.

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A compra líquida estrangeira de Treasuries longos somou apenas US$ 6,8 bilhões em julho, o ritmo mais fraco desde fevereiro, com todo o saldo vindo de investidores privados, enquanto contas oficiais, como bancos centrais e fundos soberanos, foram vendedoras líquidas. No mesmo mês, as posições oficiais estrangeiras em T-bills recuaram US$ 35,6 bilhões, justamente no segmento que responde pela maior parte do financiamento atual do Tesouro americano.

Soma-se a isso a captação recorde de empresas de IA. De acordo com Sullivan, as principais empresas de inteligência artificial emitiram US$ 200 bilhões em dívida no ano até agora, alta de 80% na comparação anual. Os gastos com data centers e outras estruturas voltadas à IA reforçam a competição por capital.

Dados do JPMorgan mostram que os retornos dos títulos já superam o as projeções de lucro do S&P 500, o que torna mais difícil a escolha entre classes de ativos. “A decisão de alocação se torna significativamente mais complexa daqui para frente, à medida que esses ambientes se desenrolam”, disse Sullivan.

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Sentimento de empresários e investidores cai para patamar de pessimismo extremo


O empresariado brasileiro está em clima de pessimismo acentuado. Essa é a avaliação da XP após reunir 106 empresas e cerca de 500 investidores em mais de 700 reuniões na terceira edição da Brazil CEO Conference, realizada nesta semana no Rio de Janeiro. Segundo a casa, o encontro revelou um sentimento deprimido não apenas entre gestores, mas também entre os próprios executivos. Resultado: o indicador proprietário de sentimento da XP voltou a níveis de pessimismo extremo, patamar que historicamente funcionou como forte indicador contrário.

Três preocupações concentraram as conversas. A primeira é o estado da economia brasileira, que aparenta desacelerar em ritmo mais rápido do que o esperado. A segunda são os riscos do mercado de crédito diante da alta da inadimplência, com empresas e famílias em situação financeira apertada enquanto os juros seguem elevados. A terceira envolve as eleições e a política fiscal à frente.

No varejo, a leitura foi de desaceleração generalizada do consumo, atribuída pelas companhias ao fluxo mais fraco de lojas durante a Copa do Mundo, às condições financeiras apertadas diante do alto endividamento, à concorrência das apostas online pelo orçamento das famílias e aos sinais de economia em arrefecimento. Os analistas Danniela Eiger, Pedro Caravina e Laryssa Sumer descreveram o clima como modo de alerta de recessão, com a preocupação sobre um eventual recuo da atividade em 2027 dominando as reuniões. A defensividade de cada modelo de negócio passou a ocupar o centro das apresentações.

Mas nem todos os segmentos sofrem na mesma intensidade. Farmácias, plataformas online e shoppings reportaram números sólidos, enquanto vestuário e itens discricionários aparecem em situação bem mais desafiadora.

Leia também: Efeito do juro chegou: Mercado teme crise de crédito e não descarta recessão em 2027

A Lojas Renner (LREN3) atribuiu à Copa o principal peso no recente corte de guidance, já que o desempenho seguiu dentro do orçamento até o começo de junho antes de o fim do mês e julho virarem entrave, o que levou a companhia a adotar perspectiva mais conservadora. Na C&A (CEAB3), o tráfego ficou pressionado durante todo o período do torneio, e não apenas nos dias de jogos, com consumidores mais sensíveis a preço do que em maio e ambiente promocional mais pesado sobre os estoques de inverno. A varejista reduziu o capex para cerca de 7% das vendas, ante 8,5%.

Na contramão, o Magazine Luiza (MGLU3) destacou ganhos de participação de mercado, com alta de 10% nas vendas de lojas físicas no segundo trimestre e tendências positivas em julho e agosto, além da oportunidade de capturar volume das 298 lojas fechadas pela Casas Bahia (BHIA3). Mesmo no cenário restritivo, sua carteira de crédito passou de R$ 1,5 bilhão para R$ 2 bilhões em doze meses, com queda na inadimplência. Já a Smart Fit (SMFT3) reforçou a disciplina na alocação de capital, com maior seletividade em projetos no topo da faixa de retorno de 35% a 40% sobre o caixa investido, em razão do cenário mais incerto.

Leia também: Casas Bahia em crise: quem mais no varejo enfrenta pressão de dívida?

O segundo grande tema foi a piora do crédito. O Itaú (ITUB4) reconheceu evidências crescentes de que a manutenção prolongada de juros altos começa a pressionar tomadores em todos os segmentos, mas ainda enxerga o quadro como compatível com um pouso suave, e não com deterioração acentuada da qualidade dos ativos. A concessão no varejo passou a exigir esforço substancialmente maior de cobrança e monitoramento para sustentar desempenho comparável.

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No Banco do Brasil (BBAS3), a XP avalia que a qualidade dos ativos deve seguir como tema dominante até o fim de 2026, após a deterioração na carteira de pessoa física. Parcela relevante do aumento da inadimplência tem origem em produtores rurais, que parecem adiar pagamentos na expectativa de sucessivos pacotes de socorro. O Bradesco (BBDC4), por sua vez, afirmou que os indicadores seguem sob controle, embora parte da pressão no segundo trimestre tenha vindo da carteira de capital de giro para pequenas e médias empresas, com o fim dos períodos de carência.

A visão mais dura veio do BR Partners (BRBI11), que argumentou que o período estendido de juros elevados deteriorou de forma significativa os fundamentos corporativos e do consumidor, com expectativa de aumento das situações de estresse financeiro nos próximos 12 a 18 meses. A inadimplência também apareceu como ponto de atenção nas distribuidoras de energia.

Entre os pontos positivos, a XP destacou petróleo e gás e distribuição de combustíveis. Diante do sentimento e dos preços deprimidos, a corretora avalia que a assimetria parece inclinada para o lado positivo, ainda que reconheça os riscos de revisões de lucros para baixo e de volatilidade eleitoral à frente.

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Leia também: Debandada de estrangeiros e desaceleração à vista: é hora de sair da Bolsa?



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Margem Equatorial pode garantir mais 40 anos de petróleo para Petrobras


A produção de petróleo na Margem Equatorial pode demorar entre seis a sete anos, mas a descoberta de indícios de óleo no primeiro poço perfurado pela Petrobras nas águas ultraprofundas do Amapá trouxe otimismo para o mercado e para a companhia, que chega ao resultado dez meses depois de iniciada a campanha no poço pioneiro de Morpho. Se comprovado o potencial da bacia da Foz do Amazonas, uma das cinco bacias da Margem Equatorial, a expectativa é de que os reservatórios na região garantam pelo menor mais 40 anos de produção, segundo o gerente executivo de Projetos Estruturantes da Petrobras, Wagner Victer.

“Eu vi o início da bacia de Campos e é emocionante ver que a gente está participando de um momento histórico, abrindo uma nova fronteira exploratória para uma nova geração, um sinal de longevidade para a Petrobras e que vai trazer novos profissionais, novos engenheiros para o setor”, avaliou Victer.

Segundo a diretora de Exploração e Produção da Petrobras, Sylvia Anjos, o óleo encontrado agora será analisado pelo Centro de Pesquisa da Petrobras (Cenpes), para avaliar a qualidade e o potencial do poço. “Vamos aguardar as análises. que serão feitas no Cenpes sobre o óleo”, disse Sylvia à Broadcast nesta segunda-feira.

A Margem Equatorial é estratégica para a Petrobras porque pode ajudar a repor reservas de petróleo a partir da próxima década, quando a produção do pré-sal tende a atingir o pico e começar a declinar. O plano de negócios 2026-2030 prevê US$ 2,5 bilhões em investimentos na Margem Equatorial e 15 novos poços.

Os próximos passo dependem do Ibama. O órgão ambiental analisa o pedido da estatal para perfurar mais três poços. No caso de Morpho, foram mais de 12 anos de espera, sendo os últimos três anos de muita pressão da atual gestão da empresa, que obteve a liberação em outubro de 2025. A inglesa BP, dona de 70% do ativo até 2021, desistiu de esperar e vendeu sua participação para a Petrobras.

“Tem que acelerar o licenciamento dos outros poços para a gente saber o que tem lá, ou seja, não dá para ficar nesse dilema a cada poço. Porque agora, se você for adiante, nós vamos estar falando de escalas muito diferentes de atividade geológica, exploratória, a escala aumenta”, disse o professor do Instituto de Energia da PUC-Rio, Edmar Almeida.

“A gente precisa superar o debate que estava tendo antes do ponto de vista da viabilidade ambiental, porque agora nós não estamos falando de fazer um poço mais, nós estamos falando de fazer três e muito mais. Ou seja, na Guiana, chegou a mais de cem poços. Até você ter a comprovação dos reservatórios e começar a ter um grande volume, (serão feitas) várias declarações de comercialidade”, acrescentou o acadêmico.

Logo após a descoberta ser anunciada, na última sexta-feira, 14, o diretor do Centro Brasileiro de Infratestrutura, Adriano Pires, também destacou a importância do Ibama acelerar as licenças ambientais. “Não temos nenhum número da Petrobras, portanto não dá para falar se é uma descoberta relevante ou não. Mas é uma boa notícia que mostra a importância do Ibama agilizar as licenças ambientais”, afirmou.

Sem efeito

Para o analista de energia da Ativa Investimentos, Ilan Arbetman, a descoberta é positiva, mas ainda sem informações suficientes para “fazer preço” na ação da estatal. “Uma precificação consistente exigiria evidências de escala comercial, boa produtividade e competitividade econômica frente ao portfólio já contratado da Petrobras. Até lá, a descoberta deve ser tratada como opcionalidade exploratória, sem efeito sobre nosso preço-alvo ou recomendação”, explicou o analista.

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Segundo ele, a identificação de hidrocarbonetos (petróleo e gás) no bloco FZA-M-59 é positiva porque melhora a perspectiva exploratória da Petrobras na bacia da Foz do Amazonas, área central para a reposição de reservas no longo prazo.

Para o sócio-diretor da A&M Infra, Rivaldo Moreira Neto, a descoberta cria condições para que o governo acelere os leilões na região e deve gerar um aumento de apetite privado por blocos da Margem Equatorial. A leitura de Moreira Neto é de que a governança não deve se opor aos investimentos necessários para a região.

“É um anúncio que confirma o apetite de quem foi pro leilão e que deve ter uma boa influência na corrida daqui pra frente. Ainda há muitos riscos, mas todos os operadores já posicionados são de classe mundial e muito eficientes”, afirmou. “É uma região que demanda movimento exploratório intenso, mas não vejo como uma boa ideia tentar aumentar muitos prêmios num cenário de competição global por investimentos”, avaliou.

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Em junho, a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) aprovou a indicação de 86 blocos da Margem Equatorial para futuros ciclos da Oferta Permanente de Concessão (OPC). Para que os blocos sejam efetivamente oferecidos, ainda é preciso cumprir a análise ambiental e a emissão de Manifestação Conjunta dos Ministérios de Minas e Energia (MME) e do Meio Ambiente e do Clima (MMA). “Há uma dependência muito grande da construção com órgãos ambientais, mas com a primeira descoberta talvez possamos ver um ritmo melhor”, acrescentou o advogado.

Em entrevista à Broadcast, sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado, o professor da PUC e ex-diretor-geral da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), David Zylbersztajn, destacou que a Margem Equatorial poderá mudar a geopolítica nacional se virar realmente uma nova província petrolífera do País. “Você vai mudar a geopolítica nacional em termos de poder econômico, industrial, porque se ali virar efetivamente uma província petrolífera, pode ser um novo caminho de redenção econômico-social da região”, disse Zylbersztajn.



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Trump nega ter pressionado Bessent a intervir no mercado de títulos dos EUA


O presidente Donald Trump afirmou que não determinou a Scott Bessent que interviesse no mercado de títulos nesta semana, dizendo que o secretário do Tesouro agiu por autoridade própria.

“Não, de forma alguma”, respondeu Trump a jornalistas na sexta-feira, ao ser questionado se havia pressionado Bessent a tomar alguma medida. “Ele é um homem muito capaz. Ele quis fazer isso. Ele é muito bom nisso.”

As declarações vieram depois de Bessent atuar nesta semana para acalmar o mercado de títulos e ajudar a reduzir os custos de captação de longo prazo, que haviam atingido as máximas de vários anos. Os rendimentos vinham subindo diante das preocupações com o déficit orçamentário dos Estados Unidos, o crescimento da dívida pública, a inflação elevada e a enxurrada de emissões de dívida de empresas de tecnologia que investem pesado em inteligência artificial.

Na quarta-feira, o Departamento do Tesouro informou que aumentaria pelo menos em dobro o tamanho das recompras de títulos de prazos mais longos, movimento que surpreendeu os investidores. O impacto, porém, durou pouco, já que os papéis americanos de 30 anos devolveram os ganhos no dia seguinte.

Em entrevista à CNBC na quinta-feira, Bessent disse estar preparado para ampliar os esforços de recompra da dívida mais cara e afirmou que o governo apresentaria uma nova iniciativa fiscal para lidar com os custos elevados de captação.

O presidente elogiou Bessent na sexta-feira. “Ele tem um bom tato, um tato natural muito bom para os títulos e os juros, e foi o que ele fez”, disse Trump.

©️2026 Bloomberg L.P.



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Meta é condenada a pagar R$ 50 mil por manter ataques racistas contra Miss SP


A Meta, dona do Instagram, foi condenada a pagar R$ 50 mil à modelo Milla Vieira, eleita Miss Universe São Paulo em 2024, por não ter retirado na íntegra os comentários racistas contra ela nas redes sociais. A modelo foi alvo de ataques depois da divulgação do resultado do concurso. A vitória de Milla, que é negra, chegou a ser atribuída de forma pejorativa à cota racial.

Procurada pelo Estadão, a Meta informou que não irá comentar a decisão.

A sentença foi dada pela Justiça de São Paulo em ação movida pela modelo, pedindo a retirada das mensagens agressivas e de cunho racista postadas no Instagram após sua vitória. De acordo com o advogado Eduardo Lemos Barbosa, que representa a modelo no processo, mesmo depois de uma decisão liminar determinando a retirada dos conteúdos, o Instagram manteve parte dos comentários racistas.

Segundo ele, a Meta alegou insuficiência de informações para identificar alguns autores das ofensas, que, inclusive, seriam menores de idade.

“Minha cliente venceu o concurso e ela foi agredida e ofendida na internet com ofensas de cunho racista, por isso acionamos judicialmente a Meta. O juiz deu prazo de cinco dias para a plataforma excluir, e eles retiraram uma parte, mas não todos os comentários. Chamamos a atenção do juiz para o descumprimento e ele determinou o pagamento da multa que estava prevista na decisão”Advogado Eduardo Lemos Barbosa

A ação tramita na 2.ª Vara Cível de São Paulo, no Foro Regional do Tatuapé, e a Meta ainda pode entrar com recurso.

Milla, que está no Canadá, disse que, após dois anos, a Justiça determinou que a plataforma seja punida financeiramente pelo não cumprimento integral de sua decisão. Ela diz que viveu momentos difíceis com os ataques que sofreu pelas redes sociais.

“Fui muito humilhada, tentaram desmerecer minha conquista, mas não me calei. Após dois anos, talvez um pouco mais, conseguimos uma vitória”, disse.

Ela espera que a decisão no seu caso incentive outras pessoas que passarem pela mesma situação a não se calarem.

“Eu sofri todos aqueles ataques maldosos, racistas, ataques de ódio na internet. Mas muita gente está aqui (seguindo sua rede social) porque eu abri a boca, fui na mídia, fui em todo lugar, e vencemos. Essa não é uma vitória só minha, é de todas as pessoas que foram atacadas e perseguidas por meio de uma tela e não puderam se defender”Milla Vieira

Concorreu com 32 candidatas

Milla concorreu ao Miss Universe São Paulo, em 2024, como representante de São Bernardo do Campo. Naquele ano, o concurso ocorreu na capital paulista. Entre as 32 participantes iniciais, Milla disputou a final com outras quatro finalistas e foi a vencedora. A candidata de São Caetano do Sul, Marjorie Rossi, ficou em segundo lugar. Ainda durante a coroação, tiveram início os ataques.

Ao anunciar a conquista do título no Instagram, Milla recebeu mensagens agressivas, que questionavam sua beleza e insinuavam que a sua coroação teria sido estabelecida por meio de cotas raciais.

Na época, como noticiou o Estadão, os organizadores do Miss Universe São Paulo se manifestaram, dizendo repudiar veementemente as mensagens que questionavam a vitória de Milla.

Em comunicado oficial, classificaram os ataques como “atrocidades” e expressaram solidariedade a Milla. “Estamos profundamente chocados e entristecidos com os ataques racistas direcionados à nossa Miss. Milla foi eleita por mérito, seguindo os padrões rigorosos do concurso, e sua vitória é inquestionável”, publicaram.



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Manutenção de crédito ao endividado impede piora da inadimplência, dizem economistas


A manutenção da oferta de crédito ao consumidor endividado é hoje um fator que impede uma piora ainda maior dos indicadores de inadimplência no País, avaliaram em entrevista à Broadcast, sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado, os economistas do PicPay Ariane Benedito e Matheus Pizzani.

Segundo Ariane, na última reunião do comitê financeiro da instituição, uma interrupção brusca desse fluxo – seja por bancos, seja por fintechs – tende a produzir o efeito inverso do desejado: em vez de corrigir o sistema, pode provocar uma alta da inadimplência, ao cortar o mecanismo pelo qual o devedor consegue manter-se adimplente. “Acreditamos que, se a gente parar de dar crédito, esses números pioram. A inadimplência vai piorar”, afirmou Ariane.

Na avaliação dela, o comportamento típico do devedor brasileiro hoje é pagar um cartão de crédito com outro e tomar crédito aqui para pagar a dívida dali, num arranjo que preserva a adimplência no curto prazo, mas mantém elevadas as métricas de endividamento e de comprometimento de renda.

A economista argumenta que esse movimento – que ela descreve como “crédito sujo” – concentra-se sobretudo nas linhas mais emergenciais e líquidas do crédito livre, como rotativo do cartão e cheque especial. “A qualitativa é péssima”, disse, ao afirmar que grande parte do endividamento está associada a produtos de alto custo e usados como ponte para rolar dívidas entre instituições.

Ainda assim, pontua, é esse mecanismo que impede uma explosão da inadimplência. “A gente só não tem uma explosão porque você tem o crédito ainda fomentando que essa pessoa consegue pegar crédito no outro, pagar aqui”, afirmou.

O efeito, segundo Ariane e Pizzani, é uma espécie de “estabilização artificial” da adimplência. O consumidor permanece endividado e com renda comprometida, mas sem necessariamente migrar para o atraso formal. “Ele entra no comprometimento, no endividamento, mas não entra na inadimplência”, disse. “É meio artificial, mas ele está adimplente.”

A economista relaciona esse quadro à própria bancarização recente promovida por fintechs e bancos digitais, que ampliaram o acesso ao sistema financeiro. Na leitura dela, a inclusão permitiu que famílias fizessem mais coisas, mas veio acompanhada do efeito colateral de maior comprometimento de renda.

Ariane também ponderou que a dinâmica é estrutural e não se resolve rapidamente. Para ela, não há evidência clara de que a inadimplência já atingiu o pico, e a redução desses indicadores exigirá tempo. “A gente precisa de anos pra mudar esses números, anos. Não é do dia pra noite”, afirmou. Nesse contexto, cortar crédito agora equivaleria a uma medida extrema contra o próprio devedor. “Não é parar de dar crédito agora”, disse, ao comparar a estratégia a um tiro de misericórdia na capacidade de pagamento do consumidor.

Renegociação de dívidas

A economista citou, ainda, que a existência desse mecanismo ajuda a explicar por que programas de renegociação, como o Desenrola, acabam se tornando recorrentes. “Precisa ter, mas é o seguinte: daqui a três anos estamos aqui de novo fazendo outro Desenrola, tá? Porque é estrutural”, avaliou.

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Ao comentar a discussão sobre custo do crédito, Ariane afirmou que pressões para reduzir spreads ignoram o risco embutido nas carteiras e podem levar instituições a recuar na concessão. “Como é que você diminui o spread com esse risco? Não tem como. A conta não fecha”, disse. Para ela, no momento em que o sistema é forçado a “baratear” o crédito sem que o risco diminua, a consequência tende a ser a retração da oferta – justamente o movimento que, na visão dela, pioraria a inadimplência.

No PicPay, afirmou Ariane, a questão vem sendo debatida internamente pela área de crédito, em especial para entender “como o carrinho não bateu no muro até hoje” e em que momento seria necessário reduzir ritmo para não ser “a primeira empresa a bater o carrinho no muro”. O diagnóstico, porém, passa por diferenciar endividamento de inadimplência.



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