Após oito semanas consecutivas de queda, os preços internacionais da ureia voltaram aos patamares registrados antes do conflito no Oriente Médio. No Brasil, porém, a recuperação da competitividade do fertilizante ainda não se traduziu em avanço das negociações, enquanto distribuidores acompanham estoques reduzidos e a necessidade de retomada das importações para atender a próxima safra.
Desde o início da guerra na região, em fevereiro, os preços da ureia chegaram a subir mais de 50%, impulsionados pelas preocupações com a oferta e com possíveis interrupções logísticas no Estreito de Ormuz. Agora, com a perspectiva de normalização das rotas marítimas, o mercado observa um movimento de correção.
Segundo Bruno Fonseca, analista de insumos do Rabobank, os preços dos fertilizantes nitrogenados já praticamente apagaram os ganhos registrados durante o conflito.
“Quando a gente olha o preço da última semana, ele caiu 15%. A gente já está praticamente no mesmo patamar do final de janeiro, antes da guerra“, afirmou à CNN Brasil.
Na avaliação do analista, a trajetória recente dos preços lembra o comportamento observado em 2022, após o início da guerra entre Rússia e Ucrânia. “A curva é muito similar ao que a gente observou em 2022. A gente começou na mesma semana da guerra da Ucrânia e o preço voltou para o mesmo patamar praticamente na mesma quantidade de semanas”, disse.
Apesar da forte correção das cotações, Fonseca avalia que o mercado físico ainda não absorveu completamente a nova realidade de preços. Segundo ele, muitos produtores permanecem influenciados pelas máximas registradas durante o período de maior tensão geopolítica.
“A ureia ainda sofre um efeito de memória. O produtor ainda está com aquele preço mais alto na cabeça. Muito embora a gente tenha visto o preço retornar ao patamar pré-conflito, a gente tem que entender quanto tempo isso vai demorar para chegar na ponta“, disse.
Além da questão dos preços, o Rabobank identifica outro fator de atenção para os próximos meses: os baixos estoques de nitrogenados disponíveis no país.
De acordo com Fonseca, os volumes armazenados atualmente estão abaixo do necessário para atender a demanda da próxima safra sem uma retomada das importações.
“Os estoques de nitrogenados no país estão mais baixos, a importação também está mais baixa e, se o produtor não começar a indicar a demanda, a gente pode observar uma oferta de fertilizantes para a safrinha um pouco menor por conta desse menor estoque e dessa menor importação”, afirmou.
O analista destaca que o período atual já corresponde, sazonalmente, a um dos momentos de menor estoque do ano, o que aumenta a necessidade de recomposição dos volumes.
“A gente precisa dessa importação até chegar na próxima safra para conseguir entregar. Não tem como seguir com o estoque atual. Sazonalmente, este é um ponto baixo da curva e não é suficiente para tocar uma safra”, disse.
Nesse cenário, a expectativa é de que as empresas do setor passem a estimular as negociações para garantir previsibilidade logística e comercial para os próximos meses, e “as empresas vão começar agora a forçar a demanda até para conseguir se programar”, afirmou Fonseca.
Negociações na região
O movimento de baixa ganhou força nos últimos dias com o avanço das negociações entre Estados Unidos e Irã. Nesta segunda-feira (15), o presidente norte-americano, Donald Trump, confirmou a assinatura de um acordo provisório entre os dois países. A expectativa é de que o entendimento seja formalizado na sexta-feira, mesma data em que o Estreito de Ormuz deverá ser totalmente reaberto à navegação.
O acordo é acompanhado de perto pelo mercado de fertilizantes porque a região tem papel estratégico no comércio global de nitrogenados. O Oriente Médio concentra cerca de 35% do comércio marítimo mundial de ureia, com exportações anuais próximas de 20 milhões de toneladas.
Para o Brasil, Irã e Omã responderam por 1,5 milhão de toneladas das importações brasileiras de ureia em 2025, o equivalente a 18,4% do total adquirido pelo país.
Para Tomás Pernías, analista da StoneX, o acordo preliminar entre Estados Unidos e Irã reforça um cenário baixista para o mercado global de fertilizantes ao reduzir parte das incertezas logísticas associadas ao Golfo Pérsico.
“Do ponto de vista logístico e da oferta, trata-se de um evento importante, considerando que o estreito é uma rota estratégica para o escoamento de fertilizantes, petróleo, amônia e enxofre”, afirmou.
Segundo ele, a reabertura do Estreito de Ormuz tende a favorecer o fluxo marítimo global, embora a normalização não deva ocorrer de forma imediata. Ainda existem incertezas relacionadas às condições de navegação na região e ao ritmo de liberação das embarcações afetadas pelas restrições.
Para os importadores brasileiros, o movimento ocorre em um momento considerado favorável. Tradicionalmente, as compras externas de nitrogenados ganham intensidade no segundo semestre, período em que o mercado se prepara para o abastecimento da próxima safra, pontuou Pernías.
Com os preços novamente próximos dos níveis pré-conflito, a atenção do setor passa a se concentrar mais na velocidade de retomada da demanda doméstica, na recomposição dos estoques e na capacidade de o mercado transformar o alívio das cotações internacionais em novos negócios. Mas nunca sem tirar os olhos da geopolítica.