A forte valorização da Bolsa brasileira após o primeiro turno das eleições pode ser apenas o começo de um ciclo mais amplo de alta, mas a continuidade desse movimento dependerá da capacidade do próximo governo de promover reformas fiscais e criar condições para uma queda sustentável dos juros.
Essa é a principal mensagem de um relatório do Morgan Stanley divulgado nesta quarta-feira (21), intitulado Brazil in Spring – What Could Go Right? (Brasil na primavera – O que pode dar certo?).
O banco calcula que as ações de empresas ligadas à economia doméstica, excluindo exportadoras, ainda têm potencial de valorização de aproximadamente 51% em dólar num cenário otimista. Nas estimativas centrais dos analistas, porém, o ganho potencial é de apenas 6%.
A diferença entre os dois percentuais revela o tamanho da oportunidade enxergada pelo banco, mas também o quanto uma valorização mais expressiva depende de condições econômicas favoráveis.
Os cálculos são feitos a partir dos preços-alvo atribuídos pelos analistas às empresas acompanhadas pelo Morgan Stanley e utilizam premissas cambiais diferentes. No cenário otimista, o banco considera o dólar a R$ 4,50. Já nas estimativas centrais, utiliza o consenso de mercado para o câmbio no terceiro trimestre de 2027.
Os percentuais, portanto, não representam projeções de valorização do Ibovespa, mas de um conjunto de ações brasileiras mais expostas à economia doméstica.
Do rali eleitoral aos resultados das empresas
O relatório foi divulgado depois de uma forte reação dos ativos brasileiros ao resultado do primeiro turno das eleições presidenciais, em 4 de outubro.
A vantagem de Flávio Bolsonaro e a formação de um Congresso mais à direita surpreenderam investidores que, até então, mantinham posições relativamente reduzidas para um cenário de mudança de governo.
A reação foi imediata, com valorização das ações, queda do dólar e recuo dos juros futuros, especialmente nos vencimentos mais longos.
O movimento refletiu principalmente a redução do prêmio de risco exigido pelos investidores, diante da expectativa de uma política econômica mais favorável ao ajuste fiscal e ao investimento privado.
O Morgan Stanley mostra que essa valorização foi disseminada. Cerca de 75% das ações do Ibovespa passaram a ser negociadas acima de suas médias móveis de 200 dias, indicador utilizado para identificar tendências de preços de longo prazo.
O banco descreve esse movimento como um everything rally, expressão utilizada para caracterizar períodos em que praticamente todas as ações sobem simultaneamente.
Mas avalia que o mercado está entrando agora numa etapa mais difícil, marcada por maior diferenciação entre empresas e setores.
Isso porque a primeira fase da alta foi impulsionada principalmente pela melhora das expectativas. Para que o movimento tenha continuidade, será necessário que o ambiente econômico mais favorável se traduza em crescimento dos lucros.
A queda dos juros desempenha um papel central nessa transição. Taxas menores reduzem as despesas financeiras das empresas endividadas, tornam o crédito mais acessível e podem estimular o consumo e os investimentos.
Outro fator capaz de sustentar a valorização é o retorno do investidor brasileiro à Bolsa.
Segundo o Morgan Stanley, os fundos de ações representam atualmente apenas 4% do patrimônio total administrado pela indústria de fundos, enquanto os estrangeiros foram os principais compradores marginais de ações brasileiras nos últimos anos.
Uma redução consistente dos juros poderia estimular a migração de parte dos recursos hoje aplicados em renda fixa para o mercado acionário, criando uma fonte adicional de demanda por ações.
Ajuste fiscal é condição para a primavera brasileira
A perspectiva mais otimista do Morgan Stanley, descrita como uma possível primavera brasileira, depende de mudanças estruturais na política econômica.
O banco destaca três frentes de reforma: racionalização das despesas públicas, revisão da regra de reajuste do salário mínimo e reforma administrativa.
O objetivo seria melhorar a trajetória das contas públicas, reduzir o prêmio de risco e abrir espaço para juros estruturalmente menores, favorecendo os investimentos privados.
Essas condições, no entanto, contrastam com algumas das posições defendidas por Flávio Bolsonaro durante a campanha presidencial.
Embora seja o candidato preferido de boa parte dos investidores, Flávio tem feito declarações que colocam em dúvida a profundidade do ajuste fiscal que estaria disposto a implementar.
O candidato defendeu reajustes do salário mínimo acima da inflação, rejeitou a desvinculação dos benefícios previdenciários em relação ao piso nacional e descartou alterações nos gastos mínimos constitucionais com saúde e educação.
São regras que contribuem para a rigidez do Orçamento federal e limitam a capacidade do governo de controlar o crescimento das despesas obrigatórias.
A contradição é relevante porque parte da valorização recente dos ativos brasileiros reflete a expectativa de uma política fiscal mais austera, embora as medidas concretas que sustentariam essa mudança ainda não estejam definidas.
A formação de um Congresso mais favorável a reformas ampliou o otimismo dos investidores, mas a aprovação de mudanças nas despesas obrigatórias dependerá da disposição política do próximo presidente.
Assim, a vitória eleitoral de um candidato considerado mais favorável ao mercado não garante, por si só, a concretização do cenário otimista projetado pelo Morgan Stanley.
Ações com potencial de até 99% de valorização
A análise do Morgan Stanley aponta que os maiores potenciais de valorização, no cenário otimista, estão concentrados nos setores de serviços públicos, como energia e saneamento, e financeiro.
Entre as ações que integram a carteira recomendada do banco, o Nubank aparece com potencial de alta de 99% em dólar, seguido pela Axia Energia, antiga Eletrobras, com 92%.
No caso do Nubank, cujas ações são negociadas em dólares na Bolsa de Nova York, os 99% correspondem à valorização projetada para o próprio papel. Já para a Axia, o banco estima um ganho de 72% em reais, que chega a 92% em dólar quando considerada a valorização cambial prevista no cenário otimista.
O Morgan Stanley também destaca XP e B3 entre suas preferências, ao lado de Nubank e Axia, por considerar que essas empresas combinam potencial de valorização com exposição relativamente limitada aos riscos da austeridade fiscal e da desaceleração econômica.
A escolha reflete uma preocupação com a próxima etapa do mercado. Embora um ajuste fiscal consistente possa reduzir os juros e beneficiar a Bolsa de maneira geral, a contenção de despesas e o crescimento econômico mais fraco podem afetar de forma diferente os resultados das companhias.
Por isso, o banco avalia que a valorização tende a se tornar mais seletiva, depois de um período em que a redução do prêmio de risco favoreceu praticamente todas as ações.
Benefícios das reformas podem demorar a aparecer
Outro aspecto relevante do relatório é o horizonte de tempo considerado para a melhora dos resultados das empresas.
O Morgan Stanley utiliza projeções de lucros para 2028 e 2029 em sua avaliação da carteira de ações no cenário de primavera brasileira. São os anos em que, segundo o banco, uma eventual mudança de política econômica poderia começar a produzir efeitos sobre os resultados corporativos.
Isso evidencia uma diferença entre a velocidade da reação dos mercados e o tempo necessário para que reformas fiscais e juros menores se traduzam em ganhos efetivos para as companhias.
A temporada de balanços do terceiro trimestre de 2026 também ganha importância nesse contexto. Os resultados devem oferecer uma visão das condições financeiras das empresas num momento em que a economia brasileira apresenta sinais de desaceleração e o custo do crédito permanece elevado.
A expectativa de juros menores pode melhorar as projeções de lucros futuros, especialmente das companhias mais endividadas. Mas a intensidade desse benefício dependerá tanto da trajetória da política monetária quanto da capacidade de cada empresa de atravessar um período de atividade mais fraca.
O otimismo eleitoral, portanto, pode continuar sustentando a Bolsa no curto prazo, especialmente porque parte dos investidores ainda mantém exposição reduzida às ações brasileiras.
A sustentação de um ciclo mais longo de valorização, porém, dependerá de decisões que ainda serão tomadas pelo próximo governo.
A definição da equipe econômica, a apresentação de um plano fiscal crível e a disposição para negociar reformas capazes de conter o crescimento das despesas obrigatórias serão fundamentais para determinar se as expectativas atuais poderão se converter em resultados.
O desafio para a Bolsa brasileira será passar de uma valorização sustentada pela expectativa de mudança política para outra apoiada em reformas efetivas, juros menores e crescimento dos lucros.
É essa transição que determinará se a primavera projetada pelo Morgan Stanley poderá se transformar num ciclo duradouro de valorização — ou se parte do entusiasmo eleitoral dará lugar à frustração dos investidores.



