As eleições de Meio de Mandato ou Midterms oferecem ao Brasil uma chance de reorganizar sua relação com Washington, não de resolver conflitos recentes. Com as duas casas do Congresso, os democratas poderão investigar Trump, contestar sanções e questionar tarifas. Mas entre o Irã, a imigração e o orçamento, terão batalhas a escolher. Dispor de instrumentos para agir em favor de Brasília não significa que queiram usá-los.
Eric Jacobstein e Emily Mendrala, em artigo publicado nesta semana na Americas Quarterly, chamam atenção para um paradoxo. O fortalecimento do controle congressual pode coexistir com uma Presidência mais assertiva no exterior, onde Trump conserva ampla margem de ação. A América Latina poderá ver um Congresso mais vigilante sem sentir menos pressão da Casa Branca. Confundir contenção institucional com moderação estratégica seria um equívoco.
Para o Brasil, o primeiro efeito é a abertura de interlocutores, não o surgimento de aliados automáticos. Democratas poderão questionar tarifas e sanções usadas nas disputas brasileiras e examinar a articulação política dos Bolsonaro nos Estados Unidos. Isso pode constranger certas iniciativas, mas não convém apostar que essa fiscalização prevaleça sobre outras prioridades.
O entendimento entre Lula e Trump, quando existe, tem utilidade diplomática, mas oferece pouca estabilidade. Decisões presidenciais são atravessadas por assessores, coalizões domésticas e crises externas. Uma conversa favorável pode abrir portas; não cria, por si, compromissos capazes de resistir à próxima divergência. O Brasil precisa multiplicar canais e apresentar razões para que atores norte-americanos os preservem.
Essa agenda não deve se limitar à reparação dos danos recentes. Há espaço para cooperação em energia e biocombustíveis, minerais críticos, defesa e segurança. No agronegócio, pesquisa, produtividade e segurança alimentar oferecem pontos de aproximação, ainda que os países disputem mercados. A convergência se constrói projeto a projeto, com investimento e tecnologia, não com afinidades políticas.
Os minerais críticos são um exemplo. Washington quer reduzir a concentração chinesa nas cadeias de suprimento; Brasília busca processar recursos em território nacional e agregar valor à produção. O potencial brasileiro não assegura parceria, assim como o interesse norte-americano não garante industrialização. É preciso negociar condições atraentes para ambos.
Isso exige uma articulação brasileira em múltiplos níveis, capaz de alcançar Congresso, governos estaduais, empresas, agências e instituições de pesquisa, com propostas adaptadas aos interesses de cada interlocutor. Washington funciona hoje de maneira cada vez mais transacional, independentemente de quem esteja no poder. Agendas avançam quando oferecem resultados identificáveis, chegam no momento oportuno e permitem que lideranças políticas apresentem ganhos concretos a seus eleitores e setores de apoio. Para o Brasil, não basta cultivar relações ou defender genericamente a importância da parceria. É preciso agir com agilidade, precisão e capacidade de negociação, compreendendo os incentivos domésticos de quem toma decisões nos Estados Unidos.
As Midterms mudam o equilíbrio de forças em Washington, não a posição do Brasil nas prioridades norte-americanas. O país dispõe de ativos valiosos, mas terá de demonstrar sua utilidade. O espaço brasileiro não virá automaticamente da perda de poder de Trump. Precisará ser construído na interseção entre necessidades norte-americanas e objetivos brasileiros. Se o objetivo é extrair algum tipo de resultado positivo para o país, é preciso conter a euforia de momento e arregaçar as mangas.



