Estudo do IBPT revela avanço da arrecadação e crescimento de 18,7% das recuperações judiciais em dois anos
O avanço econômico do agronegócio brasileiro está acompanhado de um sinal de alerta para a saúde financeira das empresas. Mesmo com crescimento do valor comercializado e da arrecadação tributária, aumentou o número de negócios que recorreram à Justiça para renegociar dívidas. O contraste revela uma cadeia produtiva de grande dimensão, mas exposta aos efeitos do crédito caro e às dificuldades de liquidez.
A situação preocupa especialmente fornecedores e prestadores de serviços. Quando uma empresa de grande porte enfrenta dificuldades para honrar seus compromissos, os efeitos podem ultrapassar suas operações e comprometer clientes, parceiros comerciais e negócios menores, muitas vezes com capacidade limitada de absorver atrasos nos recebimentos.
Esse cenário aparece na quarta edição do estudo “Agronegócio em Números”, elaborado pelo Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação (IBPT) e pelo Empresômetro. Segundo o levantamento, a cadeia do agro recolheu R$ 1,02 trilhão em tributos em 2025, equivalente a 24,6% da arrecadação considerada na pesquisa.
O resultado representa crescimento de 29,1% desde 2022, acima dos 23,9% registrados para o conjunto da arrecadação nacional no mesmo intervalo. O estudo utiliza uma definição abrangente de agronegócio, que inclui produção rural, agroindústria e serviços relacionados à atividade.
Uma mudança importante ocorreu na composição dos tributos. Pela primeira vez na série, a indústria respondeu por mais da metade da arrecadação do setor, alcançando 50,2% em 2025, ante 47,3% em 2022. Nesse grupo estão atividades como frigoríficos, laticínios, moinhos e produção de biodiesel. A participação do segmento primário recuou de 18,9% para 17,6%.
O diretor do IBPT, Carlos Pinto, avalia que os números demonstram a importância crescente das atividades de transformação e agregação de valor na estrutura econômica do agronegócio.


O valor comercializado pela cadeia atingiu R$ 8,87 trilhões em 2025, alta de 9,8% sobre o ano anterior. A soja liderou as transações, com R$ 1,71 trilhão e crescimento de 16,4%. Também avançaram os valores associados a animais vivos, em 40,1%, e ao café, em 30,4%, enquanto o açúcar registrou retração de 13,3%.
Apesar desse desempenho, o número de empresas do agronegócio em recuperação judicial passou de 875 em 2023 para 1.039 em 2025, aumento de 18,7%. No mesmo período, os empregos vinculados a essas organizações diminuíram de 101.548 para 89.330.
O levantamento aponta ainda um possível efeito em cadeia. Segundo a análise do Empresômetro, cada grande empresa que entra em recuperação judicial afeta diretamente outras 27 companhias. Desse grupo, cinco também recorrem à recuperação e 22 encerram suas atividades ou entram em falência.
A pesquisa associa parte das dificuldades ao encarecimento do financiamento. Negócios menores tendem a enfrentar maiores restrições de crédito e menor capacidade de suportar atrasos nos pagamentos.
Defensivos e logística mudam de perfil
Outros indicadores mostram transformações comerciais. As vendas de defensivos microbiológicos cresceram 55% entre os primeiros semestres de 2025 e 2026. Já os canais não presenciais, incluindo plataformas digitais e WhatsApp, representaram 76% das transações de defensivos analisadas em 2025, ante 63% em 2024.
Na logística, foram registrados 267,3 milhões de conhecimentos de transporte eletrônico relacionados ao agro em 2025, crescimento de 20%. Embora o valor médio por documento tenha caído 8,9%, o montante total de fretes alcançou R$ 138,2 bilhões, impulsionado pelo maior volume.
Para produtores, cooperativas, revendas e agroindústrias, os resultados reforçam a importância de acompanhar não apenas o crescimento das vendas, mas também a capacidade de pagamento dos parceiros comerciais. Em um setor de elevada movimentação econômica, gestão de crédito, liquidez e riscos da cadeia de fornecedores tornam-se fatores decisivos para a continuidade dos negócios.



