Ajuste fiscal não é tão difícil quanto parece, diz Mansueto Almeida | Blogs | CNN Brasil


A forte turbulência nos mercados financeiros depois da reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) não significa que a Bolsa, o dólar e os juros permanecerão nos patamares atuais.

Para Mansueto Almeida, economista-chefe e sócio do BTG Pactual, o movimento dos últimos dias reflete principalmente um ajuste de posições dos investidores, que agora esperam sinais mais claros sobre os rumos da política econômica.

“Não podemos tirar pelos preços de tela desta semana que esse é o novo normal”, afirmou Mansueto, durante um evento do BTG Pactual, em São Paulo.

O economista avalia que a direção dos mercados daqui para frente dependerá principalmente das medidas que o governo pretende adotar para controlar o crescimento das despesas públicas.

Ex-secretário do Tesouro Nacional no governo de Jair Bolsonaro, Mansueto chegou a ser citado por profissionais do mercado financeiro como um dos nomes mais desejados para assumir o Ministério da Fazenda em um eventual governo de oposição, caso houvesse mudança no comando do país.

Na avaliação dele, o governo não deveria entrar em 2027 sem ter definido a equipe econômica e apresentado as principais diretrizes de sua política fiscal.

Mansueto espera que as nomeações ocorram nos próximos 30 dias ou, no máximo, até o fim do ano. Quanto mais essas decisões demorarem, maior será a incerteza dos investidores e o risco de deterioração das expectativas de inflação para os próximos anos.

O economista considera que o governo precisa esclarecer, principalmente, como pretende controlar o crescimento das despesas obrigatórias e se haverá um fortalecimento do atual arcabouço fiscal. São essas definições que, segundo ele, poderão recuperar a confiança dos investidores e abrir espaço para a queda dos juros.

A alta do petróleo e a desvalorização do real também contribuíram para a piora das expectativas de inflação e para a reprecificação dos ativos brasileiros. Mas Mansueto considera que o fator decisivo será a capacidade do governo de apresentar uma trajetória fiscal crível.

Ajuste fiscal não é tão difícil quanto parece

Para o ex-Tesouro, o desafio de colocar as contas públicas em uma trajetória mais sustentável é menor do que muitas vezes se imagina. O país não precisa necessariamente promover cortes drásticos de despesas, mas estabelecer mecanismos que reduzam seu ritmo de crescimento.

Segundo os números apresentados pelo economista, o PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro cresceu aproximadamente 11% nos últimos quatro anos, enquanto as despesas federais avançaram cerca de 22% no mesmo período.

Ou seja, o gasto público cresceu duas vezes mais do que a economia.

Mansueto considera que essa expansão contribuiu para pressionar a inflação e manter os juros elevados. Na sua avaliação, a prioridade do governo deve ser aproximar o crescimento das despesas do ritmo de expansão da economia.

A dificuldade está na composição do Orçamento. Como aproximadamente 90% das despesas federais são obrigatórias, será necessário rever mecanismos que determinam seu crescimento.

O economista defende o fortalecimento do arcabouço fiscal e medidas capazes de conter a expansão das despesas obrigatórias, sem necessariamente recorrer a grandes cortes imediatos.

Ele também considera pouco desejável que o ajuste seja feito por meio de novos aumentos de impostos, já que a carga tributária brasileira está entre as mais elevadas da América Latina.

Juros podem parar de cair

A falta de clareza sobre a política fiscal coloca em risco a continuidade do ciclo de redução da Selic.

Mansueto avalia que o Banco Central poderá interromper os cortes nas próximas reuniões, diante da piora das expectativas de inflação e das incertezas sobre o comportamento das contas públicas.

Nesse cenário, o Brasil poderia começar 2027 com a Selic em 13,75% ao ano, um patamar que continua impondo custos elevados às famílias, às empresas e ao próprio governo.

O economista lembra que, entre maio de 2016 e maio de 2018, a taxa básica caiu de 14,25% para 6,5% ao ano, em um período marcado por medidas de contenção dos gastos públicos.

Ele reconhece, porém, que o ambiente internacional atual é menos favorável e considera pouco provável uma redução dos juros brasileiros para níveis tão baixos no curto prazo.

Ainda assim, avalia que uma Selic próxima de 8% já seria suficiente para transformar as condições de financiamento da economia, estimular os investimentos e reduzir o peso das despesas financeiras sobre empresas e famílias.

Brasil tem condições para crescer

Apesar da preocupação com as contas públicas, Mansueto faz uma avaliação positiva dos fundamentos da economia brasileira.

O país se tornou exportador líquido de petróleo, ampliou a competitividade do agronegócio, desenvolveu o mercado de capitais e avançou nas concessões de infraestrutura.

Além disso, está relativamente distante dos grandes conflitos geopolíticos que afetam outras regiões do mundo, uma condição que pode favorecer a atração de investimentos internacionais.

Na avaliação do economista, o principal problema econômico de curto prazo é justamente o nível elevado dos juros, que encarece o crédito e dificulta a expansão dos investimentos.

Para que esse quadro mude, porém, o governo terá de demonstrar capacidade de controlar o crescimento dos gastos públicos.

Mansueto considera que a economia brasileira deverá começar 2027 em ritmo fraco, independentemente das medidas anunciadas pelo governo. Isso porque os efeitos dos juros elevados já vêm provocando uma desaceleração da atividade desde o segundo semestre deste ano.

Uma eventual retomada do ciclo de cortes da Selic poderia permitir uma recuperação gradual do crescimento ao longo de 2027.

Bolsa pode voltar a atrair investidores estrangeiros

Mansueto também vê espaço para uma recuperação do mercado de ações, caso o governo consiga restabelecer a confiança na trajetória fiscal.

Ele lembra que a Bolsa brasileira recebeu volumes expressivos de recursos estrangeiros em 2025 e no início de 2026, movimento que ajudou a impulsionar o Ibovespa.

Segundo o economista, o índice chegou a superar os 200 mil pontos neste ano e se aproximou dos 210 mil pontos entre o primeiro e o segundo turno das eleições, antes da forte correção observada após o resultado final.

Na avaliação dele, muitas empresas brasileiras estão sendo negociadas a preços descontados. Mas os juros elevados reduzem a atratividade das ações e dificultam uma recuperação mais consistente.

Uma trajetória sustentável de queda das taxas poderia estimular uma nova entrada de recursos estrangeiros e favorecer a retomada das ofertas públicas de ações, praticamente paralisadas nos últimos anos.

O mesmo vale para o mercado de dívida privada, que ganhou importância como fonte de financiamento dos projetos de infraestrutura, mas enfrenta custos elevados de captação.

Sinal mais importante virá dos juros longos

Para Mansueto, um dos principais indicadores da recuperação da confiança será o comportamento dos juros reais de longo prazo.

Os títulos públicos indexados à inflação chegaram a oferecer remuneração entre 7,5% e 8% ao ano acima do IPCA, taxas que ele considera insustentáveis no longo prazo.

A queda desses juros seria um sinal de que os investidores passaram a acreditar na capacidade do governo de controlar as despesas e estabilizar a dívida.

O economista lembra que, após o anúncio do arcabouço fiscal, em abril de 2023, os ativos brasileiros tiveram uma reação positiva. Nos meses seguintes, a Bolsa subiu, os juros recuaram e o real se valorizou.

Mas, na avaliação de Mansueto, o governo perdeu parte da credibilidade fiscal ao longo de 2024, movimento que contribuiu para a elevação dos juros de longo prazo.

A situação atual é agravada pelo crescimento da dívida pública, que, segundo os números apresentados pelo economista, chegou a 82,9% do PIB, ante 72,7% no início do governo Lula.

Ele também chama a atenção para o déficit nominal, que inclui os gastos com juros e alcançou aproximadamente 9,6% do PIB em 12 meses.

Para Mansueto, o Brasil precisa apresentar uma trajetória fiscal capaz de desacelerar o crescimento da dívida. A recuperação da confiança dependerá de medidas concretas e de indicadores que permitam acompanhar seus resultados.

Reformas e produtividade

Além do ajuste das contas públicas, Mansueto considera que o país precisa avançar em reformas capazes de elevar a produtividade da economia.

Entre as prioridades, cita a reforma administrativa, a revisão de distorções tributárias, o fortalecimento das agências reguladoras e a estabilidade dos contratos de concessão.

Também defende investimentos em educação, saúde e qualificação profissional, especialmente diante do envelhecimento da população brasileira.

Segundo ele, o crescimento econômico dos últimos anos foi favorecido pela forte redução do desemprego depois da pandemia. Para manter um ritmo de expansão próximo de 3% ao ano, o país precisará aumentar a produtividade dos trabalhadores.

Mansueto avalia que o Brasil realizou avanços institucionais importantes na última década, como a reforma da Previdência, a autonomia do Banco Central e os novos marcos regulatórios de infraestrutura.

Para o economista, essas mudanças mostram que o país tem capacidade de avançar em reformas estruturais. O desafio mais imediato, no entanto, continua sendo recuperar a confiança na trajetória das contas públicas, condição que ele considera essencial para a queda dos juros e a retomada dos investimentos.



Veja a Matéria Completa

Cookie policy
We use our own and third party cookies to allow us to understand how the site is used and to support our marketing campaigns.

Hot daily news right into your inbox.