O mercado financeiro já trabalha com a perspectiva de um ajuste fiscal pouco eficaz para conter o avanço da dívida pública.
Nos bastidores, a expectativa ganhou o apelido de “ajuste à la dona Lindu” entre os agentes econômicos, em referência à mãe do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e ao conselho de não gastar mais do que se tem, frequentemente lembrado pelo próprio petista.
A dúvida é se Lula seguirá até mesmo essa receita: conter o crescimento das despesas pode ser insuficiente para adequá-las às receitas e estabilizar a dívida. Esse ceticismo já aparece no dólar pressionado e nos juros elevados.
Agora, outro risco ganha espaço nas conversas: as próximas indicações ao Banco Central, vistas como um fio desencapado da política econômica. O receio é que Lula escolha nomes mais dispostos a reduzir os juros, mesmo sem uma melhora consistente das perspectivas de inflação.
Nos bastidores, participantes do mercado falam em medo de aparelhamento do BC: a preocupação é que as indicações formem uma maioria no Copom (Comitê de Política Monetária) capaz de aprovar cortes e deixar vencido até mesmo o presidente da instituição, Gabriel Galípolo.
Trata-se de um risco associado ao perfil dos futuros indicados, que ainda precisarão passar pela aprovação do Senado.
Duas cadeiras estão abertas desde o fim de 2025: “Política Econômica” e “Organização do Sistema Financeiro e de Resolução”, acumuladas, respectivamente, por Paulo Picchetti e Gilneu Vivan.
Outras quatro terão os mandatos encerrados em 2027. Ailton de Aquino Santos, da Fiscalização; e Nilton David, da Política Monetária; saem em fevereiro, caso não sejam reconduzidos.
Os mandatos de Picchetti e Rodrigo Alves Teixeira, da Administração, terminam em dezembro. São, portanto, seis cadeiras para preenchimento até o fim do próximo ano.
Pouco se sabe, porém, sobre os nomes considerados para as vagas. Um dos que circularam foi o do economista André Roncaglia, atual diretor-executivo do Brasil no FMI (Fundo Monetário Internacional), considerado heterodoxo. A menção ao seu nome alimentou o receio de uma mudança de orientação do colegiado, embora não haja indicação formal.
A preocupação cresce porque o BC funciona hoje, na avaliação de participantes do mercado, como uma linha de defesa da política econômica. A instituição demonstra disposição para fazer o trabalho impopular de conter a inflação, mesmo diante da pressão por juros menores. “É o BC contra o rapa”, brincou uma fonte.
Sem medidas fiscais capazes de estabilizar a dívida, o governo precisa oferecer juros maiores para se financiar. A desconfiança também pressiona o câmbio, encarece produtos importados e insumos e contamina as expectativas de inflação.
Ao mesmo tempo, gastos que sustentam a demanda dificultam o trabalho da política monetária. O resultado é uma economia que exige juros altos por mais tempo.
Se o mercado passar a duvidar também da disposição do BC de reagir, essa dinâmica pode piorar. Um corte da Selic sem respaldo nas perspectivas de inflação pode elevar o dólar e os juros de longo prazo, mantendo caro o crédito para empresas, famílias e o próprio Tesouro.
O risco é que, sem um ajuste fiscal organizado e com uma defesa monetária enfraquecida, a inflação assuma parte do ajuste: corrói o poder de compra e reduz o valor real de despesas que não são corrigidas imediatamente. A conta chega sobretudo a quem tem menos instrumentos para proteger a renda.
O desafio será ainda maior em 2027, para o qual as projeções combinam inflação elevada e crescimento muito baixo. O BC terá de conter a alta dos preços em uma economia com pouco fôlego — combinação que torna suas decisões mais difíceis e amplia a pressão política por juros menores.



