A cota de exportação de carne bovina para a China deve provocar uma mudança na dinâmica de comercialização da pecuária brasileira nos próximos anos. O movimento reduz a concentração das vendas para o principal destino da carne nacional e altera a estratégia de frigoríficos, confinadores e pecuaristas ao longo do ano.
Segundo análise da StoneX, o cenário representa uma quebra no padrão observado nos últimos anos, quando a segunda metade do ano, especialmente os meses de outubro, novembro e dezembro, concentrava uma forte demanda chinesa pelo produto brasileiro.
Com a adoção das cotas, a expectativa é de que as indústrias antecipem a busca por animais para preencher os volumes autorizados logo no início dos períodos de vigência, principalmente no primeiro trimestre. Essa mudança pode inverter a tradicional curva de preços da arroba, que historicamente registrava maior valorização no fim do ano.
“A imposição dessas cotas pela China já é uma quebra estrutural”, explicou a analista de proteínas animais da StoneX, Larissa Barboza. Segundo ela, a nova dinâmica exige uma reorganização de todo o planejamento da cadeia, desde a compra de animais de reposição até o calendário dos confinamentos.
Nos últimos anos, muitos pecuaristas estruturavam a produção para entregar animais terminados no segundo semestre, período em que a China aumentava as compras e os confinamentos ganhavam maior participação na oferta. Agora, com a antecipação da demanda chinesa, a concentração dos animais disponíveis pode mudar.
Além da mudança no calendário de comercialização, o setor também enfrenta o desafio de encontrar novos destinos para o volume que deixou de ser embarcado para a China.
Segundo a gerente de exportação Natália Braga Simão, a redução dos embarques representa um volume expressivo que precisará ser absorvido por outros mercados nos próximos meses.
No ano passado, o Brasil exportou cerca de 1,6 milhão de toneladas de carne bovina para a China. Para 2026, a cota estabelecida ficou em aproximadamente 1,1 milhão de toneladas, uma redução de 500 mil toneladas em relação ao volume anterior.
Considerando que a cota foi preenchida na metade de junho e que os frigoríficos devem voltar a negociar novos embarques com a China em outubro, para cargas chegarem ao país asiático em janeiro de 2027, o intervalo representa uma necessidade de redirecionar cerca de 125 mil toneladas de carne por mês entre julho e outubro.
“É um grande volume. Eu não vejo nenhum mercado absorver esse volume sozinho”, afirmou a gerente.
Na avaliação da gerente, o período deve exigir uma reorganização das estratégias comerciais das empresas, com maior diversificação dos destinos e busca por alternativas para equilibrar a menor participação chinesa no curto prazo.
Indústrias devem diversificar mercados
Com a limitação das vendas para a China, frigoríficos com operações em outros países da América do Sul, como Argentina, Paraguai e Uruguai, podem utilizar essas unidades para atender o mercado asiático enquanto redirecionam a produção brasileira para outros destinos.
Para o pecuarista Lorenzo Junqueira, o primeiro semestre de 2026 foi marcado por uma corrida da indústria para garantir os embarques antes do preenchimento da cota chinesa.
“Assim que soubemos da aplicação das salvaguardas, houve uma verdadeira corrida da indústria para abater os animais e embarcar a carne bovina o mais rápido possível. Não houve regra: quem chegasse primeiro, bebia água limpa. Esse foi o resumo do primeiro semestre, marcado por volumes recordes de exportação”, afirmou.
Segundo ele, com a cota preenchida e sem uma flexibilização por parte da China, o Brasil perde competitividade justamente no principal mercado consumidor da carne bovina brasileira.
“Perdemos competitividade no nosso principal mercado, responsável por cerca de 45% de toda a carne bovina exportada pelo Brasil. É um volume muito expressivo”, destacou.
Apesar da retração no terceiro trimestre, Junqueira avalia que o mercado deve voltar a ganhar ritmo a partir de novembro, quando os frigoríficos devem iniciar uma nova corrida para atender a cota de 2027 e garantir a chegada da carne ao país antes do Ano Novo Chinês.
Segundo a StoneX, a nova estrutura de exportação deve alterar a formação dos preços da arroba ao longo do ano. Historicamente, o segundo trimestre era marcado pela maior oferta de animais, com a chamada safra do boi, enquanto o segundo semestre registrava recuperação das cotações com o avanço das exportações.
Agora, com a necessidade de antecipar os embarques para a China, o movimento pode ser diferente, com maior pressão de compra nos primeiros meses do ano e valorização dos contratos futuros para períodos de maior demanda.
Abate de fêmeas indica possível virada de ciclo
Outro ponto de atenção é o mercado de reposição. O Brasil registrou no primeiro trimestre de 2026 o maior volume de abates da série histórica do IBGE, impulsionado pela corrida para atender a demanda chinesa antes do limite das cotas.
No entanto, dados mais recentes apontam redução dos abates, principalmente de fêmeas, movimento que pode indicar uma mudança no ciclo pecuário.
A StoneX avalia que a intensidade desse movimento será determinante para os preços da reposição em 2027. Caso a retenção de fêmeas aumente, a menor disponibilidade de animais para reprodução pode pressionar os valores dos bezerros e das categorias de reposição.



